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Consultoria vai melhorar fonte de renda indígena

Analista técnica do Sebrae participou de três dias de conversas com artesãos indígenas de São Gabriel da Cachoeira

Publicado em 24/08/2021 às 13h29 · Atualizado em 09/03/2022 às 01h11
Consultoria vai melhorar fonte de renda indígena
Fotos: Antônio Ximenes

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) está desenvolvendo uma série de atividades junto aos indígenas de São Gabriel da Cachoeira. O objetivo é aprimorar o artesanato de várias etnias para melhor posicioná-las no mercado, em função do interesse dos grandes centros pela originalidade das peças produzidas nas comunidades e aldeias da “Cabeça do Cachorro”, como também é conhecida a região.

Durante três dias, a analista técnica do Sebrae, Lilian Simões, considerada uma das mais experientes especialistas em artesanato indígena do Amazonas, esteve em São Gabriel da Cachoeira conversando com lideranças de vários povos, que produzem artesanato com matéria prima da região.

“Nós identificamos um grande potencial para o mercado brasileiro e estamos trabalhando para melhorar o acabamento das peças, criar uma linha de produção dos melhores artesanatos e fortalecer os indígenas com a venda a preços dignos, que permitam que eles continuem em suas aldeias e comunidades, vivendo bem e do próprio trabalho”, destacou Lilian.

A iniciativa é uma parceria entre o Sebrae, Secretaria de Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti) e Secretaria Executiva do Trabalho e Empreendedorismo (Setemp), por meio da celebração de um termo de cooperação técnica e financeira.

Diário de viagem

Acompanhei este trabalho nos dias 19, 20 e 21 de agosto em São Gabriel da Cachoeira. No primeiro dia chegamos de avião na cidade, com uma temperatura acima de 35 graus. Logo ao descer da aeronave fomos recepcionados por um simpático senhor que nos levou em seu carro ao Hotel Elite, no Centro.

Em 30 minutos deixamos nossas bagagens e saímos na direção do Rio Negro para subir em uma canoa pilotada por um indígena da etnia Baré, que nos transportou pelas perigosas corredeiras à comunidade Waruá, onde 45 indígenas de seis etnias (Kuripako, Baniwa, Dessano, Baré, Rupida e Dãw) nos aguardavam para mostrar seus artesanatos e ouvir a representante do Sebrae, Lilian Simões, falar sobre acabamentos, qualidade e escala de produção.

O objetivo dessa orientação é fornecer as peças para os mercados de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Brasília, Manaus e outras capitais durante uma rodada de negócios que acontecerá, virtualmente, em setembro próximo.

Fomos recebidos pela líder da comunidade Auxiliadora Fernandes da etnia Dãw. Ela foi logo dizendo: “Está todo mundo ai com os artesanatos para mostrar e saber como melhorar, pra gente ganhar mais com o que aprendemos com os nossos pais e avós”.

Experiente e conhecedora das tradições da região, ela separou os indígenas em dois grupos, de um lado as mulheres e de outro os homens, para dar início a reunião de apresentação e avaliação do artesanato.

Em cada arte, uma história de vida

Auxiliadora Fernandes produz remos e com o grafismo incrustado na madeira, surpreende pela originalidade das peças, que remete às lendas dos seus ancestrais pelo cuidado na elaboração dos relevos simétricos feitos com o cuidado de um ourives que trabalha uma joia.

O resultado é uma peça decorativa, que será comercializada por lojistas dos grandes centros consumidores do Brasil, na plataforma virtual do Sebrae em parceria com a Sedecti e Setemp em setembro.

Identidade

A indígena Baniwa Regiane Campos Andrade, 23, talentosa ceramista autodidata apresentou sua arte na forma de uma urna, com cores de terracota e grafismos que remetem aos primórdios da cerâmica Baniwa: “Me inspiro no meu povo, mas gosto de fazer coisas diferentes. A cerâmica é uma forma de vida também. Nela mostro quem somos”.

Jenilson Pascoal Lopes,28, da etnia Baniwa, estava entusiasmado com o que escutava da analista técnica Lilian Simões sobre o interesse do mercado pelo artesanato de São Gabriel da Cachoeira. “A gente faz tudo com cuidado e no nosso tempo, mas vamos aprender a fazer mais quantidade com a mesma qualidade, porque todos saem ganhando e é bom para a comunidade”, disse.

Biojoias ganham projeto específico

Vinte e três artesãos do alto rio Içana, na Cabeça do Cachorro, produzem artesanatos com diversas pedras como nióbio (mineral raro utilizado em ligas de aço); tantalita (mineral raro utilizado em reatores nucleares e propulsores de aviões a jato), granada, ametista, ouro, entre outros minerais.

Representados pela indígena Celeste Garrido da etnia Baniwa, eles querem melhores condições para elaborar suas peças. “Estamos distantes da cidade, mas fazemos nosso artesanato com pedras há muitos anos. Queremos aprender como trabalhar as pedras de maneira mais elaborada”, disse ela.

Apoio municipal

Reunidos com a vice prefeita Eliane Farias Falcão da etnia Piratapuia, os indígenas Baniwa foram informados de que o município quer desenvolver uma parceria com o Sebrae para um projeto com artesãos do rio Içana. “Nosso objetivo é orientá-los da melhor forma na produção de peças com alto valor agregado, que possam ser comercializadas no mercado com preços justos”, disse Falcão.

A analista técnica do Sebrae Lilian Simões revelou que aposta no projeto, mas antes, é fundamental que se faça um “diagnóstico da realidade, para que se tenha a dimensão exata do que se pode fazer nesta área”.

Artesã ribeirinha ensina técnicas com cipó ambé

A artesã ribeirinha Maria Alexandre dos Santos,53, realizou uma oficina para 40 artesãos indígenas na Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira (Assai). Ela mostrou sua habilidade no manuseio do cipó ambé, matéria prima que utiliza na cidade do Careiro Castanho.

O encontro entre as duas culturas aconteceu de maneira harmoniosa e teve resultados imediatos, pois os indígenas, com rapidez entenderam que podem fazer bolsas, vasos, luminárias e todo tipo de artesanato com esta fibra da floresta.

“Trabalho há muitos anos com o cipó ambé e tenho alcançado bons resultados com a nossa produção do Grupo Teçume da Floresta”, disse Maria, que também participou do encontro com as etnias que mostraram seus artesanatos na comunidade Waruá.

Na Assai, ela mostrou as técnicas de trançado e como elabora peças com rapidez e sofisticado designer, com aceitação no mercado. A artesã da etnia Piratapuia Cecília Albuquerque, 64, fundadora da Assai, disse que este tipo de intercambio permite que se desenvolva novas técnicas e que se amplie horizontes.

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