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COP: vulneráveis ao clima demandam ações efetivas

Manauaras no centro da crise climática estão atentos à COP em Belém e pedem políticas efetivas para o problema

Publicado em 08/11/2025 às 16h32 · Atualizado em 08/11/2025 às 18h27
COP: vulneráveis ao clima demandam ações efetivas
Fotos: Jorge Augusto

Os manauaras mais vulneráveis à mudança do clima estão atentos à Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30), que ocorre em Belém entre os dias 10 e 21 de novembro. Mototaxistas, flanelinhas, feirantes e moradores de áreas de risco disseram para A CRÍTICA que acompanham notícias sobre o evento, e cobraram dos mais de 190 países da Cúpula ações efetivas para reduzir os extremos do clima.

Uma pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha, em 2024, apontou que quase a totalidade dos brasileiros (97%) sente os efeitos da mudança do clima no cotidiano, mas também é fato que o problema afeta a população em graus diferentes.

O mototaxista Adriel Oliveira de Assunção sente isso na pele, que já foi queimada pelo sol após muitas horas de trabalho durante o dia. Hoje, ele usa duas camisas de manga longa para cobrir todo o tronco e braços, luvas de pano, calça comprida e uma máscara que deixa apenas o olho para fora.

“É essa a rotina diária, enfrentando todo tipo de clima, seja chuvoso, seja no quente. As vezes a gente sofre com muita queimadura do sol. Mesmo com a sombra de duas camisas, a gente fica queimado do mesmo jeito”, comenta.

A ciência não deixa dúvidas sobre a realidade da mudança do clima, e Adriel sugere que o problema é muito mais evidente na região Norte do país. Por isso também ele diz que pediria aos líderes dos países na COP uma atenção especial para esse território. “Espero que tragam mais investimentos para cá”, afirma.

Demanda

A reportagem esteve nesta sexta-feira na Bola do Produtor, uma importante região comercial na zona leste de Manaus, que disputa com a zona norte o posto de área mais exposta aos impactos da mudança do clima, segundo o Plano de Ação Climática da capital, apresentado pela prefeitura em outubro.

Além de Adriel, lá também trabalha o guardador de carros Tiago Ferreira Veras, 24, há pouco mais de um ano. Para fugir do calor, ele usa chapéu, óculos, protetor solar e tenta manter um consumo maior de água. Questionado sobre o que pensa quando ouve sobre mudança do clima, ele diz lembrar logo da poluição atmosférica.

“A poluição vai para a atmosfera, para a camada de ozônio e tudo isso prejudica, faz aumentar o calor do planeta”, explica. Ele diz estar acompanhando pelas notícias a reunião dos líderes em Belém para tratar sobre mudança do clima, e faz cobranças.


Tiago guarda carros há mais de um ano na Zona Leste de Manaus (Foto: Jorge Augusto/A CRÍTICA)

“Eu gostaria de pedir a eles que trouxessem uma solução para a população mundial, ver o que podem fazer para amenizar o calor. Não só daqui do Brasil, mas do planeta todo, porque isso não afeta só os brasileiros”, afirma.

Áreas de risco

Na mesma pesquisa do instituto Datafolha, o calor intenso é citado como o evento climático extremo mais sentido pelos brasileiros. Depois dele, estão as chuvas intensas, as secas extremas, enchentes e deslizamentos de terra.

O mecânico Leo Miranda dos Santos, 45, trabalha em uma oficina para motos no bairro Jorge Teixeira. Atrás do espaço, há um barranco com pelo menos 20 metros de altura, que está próximo a outro que deslizou em 2023, matando oito pessoas – incluindo quatro crianças, na rua Pingo D’Água.


(Foto: Jorge Augusto/A CRÍTICA)

Mas o risco não é só no trabalho. Quando sai da oficina, ele vai para a casa, localizada em uma comunidade no mesmo bairro. Lá, a ameaça é frequente de alagamentos devido à proximidade com um igarapé.

“O igarapé passa do lado de casa, no quintal. Quando enche, alaga tudo. Aqui no trabalho a gente conhece por buracão. Não teve deslizamento aqui, mas a gente corre risco. Se tirar essas árvores daqui, vai acontecer. Quando chove, dá o vento forte aqui, é perigoso desabar e sair levando tudo”, diz.

Se pudesse estar na COP e fazer um pedido direto aos presidentes dos países, Leo afirma que a prioridade seria retirar as pessoas das áreas de risco, como ele próprio. “Se eles pudessem tirar o pessoal da beira do igarapé, seria melhor ainda”, comenta.


Encerrou na sexta-feira a Cúpula de Líderes, último evento pré-COP (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Economia também é impactada

Além de colocar a vida das pessoas em risco, a mudança do clima também é muito prejudicial para  a economia. Na seca do Amazonas de 2024, a estimativa é que os danos econômicos tenham totalizado mais de R$ 620 milhões, segundo a Defesa Civil estadual.

Entre os feirantes de Manaus, é clara a percepção de que a mudança do clima está ligada ao sucesso das vendas. O vendedor de peixes Luiz Eduardo Carvalho, 54, trabalha na feira da Manaus Moderna há 18 anos, profissão que herdou do pai, já falecido. Ele lembra bem os prejuízos da estiagem do ano passado.

“A seca foi uma das maiores, então o preço do peixe subiu muito, porque teve mais gastos para chegar até o consumidor em Manaus”, comenta.


Luiz Eduardo diz que a seca prejudica as vendas (Foto: Jorge Augusto/A CRÍTICA)

Ele tem uma visão clara de que as secas estão maiores por conta da ação do homem na natureza. “Quanto mais o homem desmata, mais a natureza sente através das secas, das cheias, dos temporais. É um impacto ambiental”, reflete.

Cenário parecido viveu a feirante de frutas e verduras conhecida apenas por Maria, 75, na feira da Bola do Produtor. Mas além da seca, que atrapalha a chegada dos produtos pelos rios e atrapalha regar as hortaliças na roça, a cheia também é um grande problema.

“A cheia também atrapalha, porque alaga os produtos muitas vezes. As vezes quando a água vai chegando, dá para tirar a produção, mas em outras vezes não dá para tirar tudo e se acaba”, comenta ela, que já trabalhou em lavoura.


María trabalha na feira há mais de 30 anos (Foto: Jorge Augusto/A CRÍTICA)

Evento vai discutir financiamento

A expectativa é que a COP 30 reúna representantes de ao menos 190 países para negociar ações necessárias ao enfrentamento da mudança do clima. O governo Lula tem chamado esta edição de “COP da verdade”, cobrando que os países não só negociem, mas apresentem o que já vêm fazendo após dez anos do Acordo de Paris.

Foi na COP de 2015, na cidade francesa, que os países decidiram atuar para impedir que a temperatura do planeta ultrapasse 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais, meta que hoje é tida como perdida. Ainda assim, os cientistas apontam para a necessidade de mantê-la, para evitar que a temperatura exceda muito este nível.

Assim como nas edições anteriores, o tema central desta COP continua sendo o financiamento climático. É a defesa de países mais pobres, organizações da sociedade civil e povos tradicionais de que os países mais ricos ajudem com recursos os mais vulneráveis a se adaptarem ao novo clima. Isso porque, historicamente, foram as nações desenvolvidas que mais poluíram o planeta.

Os países em desenvolvimento pedem que o financiamento chegue aos US$ 1,3 trilhão anuais, mas hoje o que se tem de indicativo é uma cifra bem menor, de US$ 300 bilhões. A expectativa é que nesta COP 30 os países pelo menos apresentem um “caminho” para esse recurso crescer nos próximos anos.

 

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