De servente de pedreiro a DJ em ascensão em Portugal
Enrique Arantes completa seis anos de imigração e celebra conquistas na música após deixar a construção civil
Lisboa, Portugal – Enrique Arantes, que completou 32 anos no último dia 1º de maio, nasceu e cresceu em Cacoal, uma pequena cidade no interior de Rondônia, Norte do Brasil, reconhecida por ser um polo rico em produção de café.
Em sua decisão de deixar o País, o DJ foi movido por uma combinação de fatores: vontade de viver novas experiências, o amor pela música e a vontade de buscar aperfeiçoamento na área musical em outros países, bem como o desejo de manter uma relação intercultural com pessoas de outras nacionalidades.
Em 4 de agosto de 2025, ele completa seis anos desde que desembarcou em Portugal, um país que ele considera um “segundo Brasil”, devido às similaridades culturais que encontrou, mas admite os muitos desafios enfrentados durante seu período de adaptação, como dificuldades e burocracia com a documentação para residir de forma legalizada no país e algumas singularidades culturais entre os dois países.
“Quando saí de Rondônia, estava em um campo diferente do que sonhava. Eu estava prestes a concluir meu terceiro ano no curso de engenharia civil. Mas isso não me preenchia completamente. Apesar de trabalhar na construtora do meu pai, eu almejava algo mais”, recorda.
No entanto, a experiência com construção civil, ajudando seu pai na construtora em Rondônia, de certa forma o ajudou, não tanto como ele esperava, mas o posicionou para um primeiro emprego.
“Por ser uma área em que eu atuava no Brasil e lá poder assinar projetos, eu achei que isso me daria um pouco de vantagem, já que tinha conhecimentos de plantas/projetos hidráulicos, elétricos, entre outros. Porém, esses conhecimentos não tiveram muita validade aqui, mas me colocaram em campo”, cita.
De servente de pedreiro a líder de equipe
Como a maioria dos imigrantes, Enrique começou sua trajetória profissional em uma posição humilde. Ele começou como servente de pedreiro, enfrentando dificuldades no primeiro mês devido a um empregador que não pagou seu salário.

Rotina de DJ é bastante singular e exige uma alternância entre dia e noite (Foto: Divulgação)
A experiência negativa não o fez desistir e, depois de alguns meses, conseguiu um contrato para trabalhar em uma firma terceirizada, administrada por um brasileiro, que percebeu seu potencial e esforço. Com o tempo, ele passou ao cargo de pedreiro e, posteriormente, se tornou chefe de equipe, liderando equipes de até 15 trabalhadores.
“Senti muito orgulho de ver meu esforço e progresso. E eu só tinha 29 anos,” afirma.
Rotina e estilo de vida
De acordo com ele, a rotina de um DJ é bastante singular. O trabalho exige uma alternância entre dia e noite, quebrando a norma dos horários tradicionais. Essa flexibilidade traz uma dinâmica que não se observa em outras profissões.
“Embora tenhamos horários estabelecidos para começar e terminar nossas apresentações, o trabalho nunca acaba realmente; é uma paixão que consome e deve ser alimentada constantemente. Acostume a tocar não apenas em clubes, mas também em bares e restaurantes, aprimorando minha experiência. Como um atleta, o DJ também precisa exercitar suas habilidades para se desenvolver”, ensina.
Desafios e obstáculos
Enrique relembra novamente o fator documentação como um dos grandes problemas que enfrentou. Segundo ele, a documentação é um desafio comum para todos que desejam se estabelecer em um novo país.
“O processo pode ser demorado e complicado, exigindo paciência e compreensão sobre como o sistema funciona. Muitos optam por buscar a ajuda de advogados ou especialistas em legalização, pois essa decisão pode facilitar o caminho”, aconselha, frisando que a superação a cada obstáculo é um elemento diário e essencial na vida de um imigrante.
“Embora a jornada inicial possa ser repleta de obstáculos, é vital ter fé e persistência. Eu testemunhei muitos que, ao não conseguirem se adaptar ou perder a motivação, acabaram voltando para casa. Portanto, manter a fé é fundamental”, recomenda.
Sonho em se tornar um DJ renomado
Simultaneamente, enquanto trabalhava de dia, Enrique buscava realizar seu sonho de se tornar músico. Ele estudou produção musical na escola ProDJ em Lisboa e, mais tarde, frequentou cursos técnicos para obter um certificado e estar profissionalmente apto a atuar como DJ.
A dualidade de atividades — a construção civil durante o dia e a música à noite — trouxe uma nova dinâmica à sua vida, pois mesmo com todo o esforço, ele sonhava em trabalhar com o que amava. “Sempre pensei: Trabalhe com o que você ama e nunca mais precisará trabalhar na vida”, uma frase que ele agora vive diariamente.
Hoje, Enrique vive da arte da música, algo que ele descreve como uma realização plena. Com dois anos fora da construção civil em Portugal, ele diz que ainda almeja sonhos maiores para finalmente se posicionar como um DJ renomado na cena musical em Portugal, mas garante que mais longe já esteve e que já realizou muitos sonhos dentro da profissão que buscou.
“As pessoas que buscam algo a mais, não desistam! Onde estiver, nunca estará sozinha. Tudo é possível se você acreditar de coração, na sua determinação e força de vontade”, incentiva Arantes, destacando que está focado em adquirir mais conhecimento para a conclusão de outros projetos musicais em aberto, que incluem composições autorais e remixes.
“Meu objetivo é trazer credibilidade ao meio artístico português. Hoje atuo solo, mas sempre surgem oportunidades de colaborar com outros artistas para criar eventos e integrar a cena musical do país”, adianta.
(*) Especial para a A CRÍTICA.