Dia Internacional contra homofobia e transfobia é ignorado na Câmara Municipal de Manaus
Dos 41 vereadores, nenhum tocou no assunto durante sessão plenária
De maioria conservadora, a Câmara Municipal de Manaus (CMM) silenciou sobre o Dia Internacional Contra a Homofobia e a Transfobia celebrado nesta terça-feira (17). Dos 41 vereadores, nenhum tocou no assunto durante a sessão plenária.
A Casa que já chegou a aprovar nota de repúdio a um filme da Netflix sob o falso argumento de incentivo à pedofilia não mencionou uma conduta que, no Brasil, em 2021, provocou a morte de 316 pessoas LGBTQIA+, todas de forma violenta. O número representa um aumento de 33,33% se comparado com o ano anterior, em 2020, quando 237 mortes foram registradas no país.
Para o professor, educador comunitário e fundador de acolhimento LGBTQIA+ Casa Miga, Gabriel Mota, não é novidade que a CMM passou por um processo de renovação em 2020. Segundo ele, um conservadorismo muito forte ocupou a Casa. O ativista disputou o cargo de vereador.
“Fiquei apenas como primeiro suplente e acredito que eu tivesse sido eleito com certeza seria um espaço, afinal sou LGBT. Falta representatividade lá dentro, representatividade de pessoas que não só tenham identidade LGBT, mas também representatividade negra, indígena. São bandeiras dentro das áreas principais da nossa sociedade como educação, saúde e segurança pública por exemplo. Então por esses motivos eu não me sinto representado enquanto LGBTQ e a mais dentro da Câmara Municipal de Manaus. Pelo contrário”, definiu.
Para Gabriel, passar o dia 17 de maio sem uma audiência pública é reflexo dessa falta de representatividade. “Não tem ninguém dentro da Câmara Municipal que entenda a necessidade de trazer as pautas de diversidade pra dentro como eu mencionei dos setores prioritários como saúde, educação e segurança pública e principalmente atualmente na questão da empregabilidade”, disse.
A representante da Associação Brasileira de Lésbicas no Amazonas, Dinha Saraiva conta que não se sente representada. “Não me se sinto nem um pouco representada por esta casa. Por isso é um dever nosso mudar esse cenário político, com pessoas que verdadeiramente leve nossas pautas para dentro desta casa, afinal nós somos cidadãos como qualquer outro”, afirmou.
“É justamente essa invisibilidade que nos deixa sem nossos direitos. Falta de políticas públicas, falta de plano municipal e conselho estadual e municipal. Realmente são muitos déficits no qual nós estamos ligados todos os dias contra isso e em busca de direitos. Porém somos constantemente embargados, diante disso nos LGBTQIA+ somos afetados diretamente com a falta de direitos tirados de nós. Então nessa eleição vote consciente vote LGBT, vote em quem apoia políticas públicas”, pede.
Karen arruda é presidenta da Associação Manifestar LGBT e Gestora da Casa Miga Acolhimento LGBTQIA+. A ativista afirma que a população LGBT em vulnerabilidade não tem política pública na cidade.
“Precisamos de recursos financeiros, ficamos de mãos atadas e dependendo de outras parcerias para nos manter e se sustentar. A partir daí, podemos atingir mais pessoas e ajudar. Hoje, não somos números para o poder público. Nós não existimos”, criticou.
A artista Andira Angeli defende que a não representatividade é um símbolo recorrente para a comunidade. “Dentro da nossa ótica, enquanto pessoas trans, é uma não existência, um não lugar recorrente, já que convivemos num mundo não existindo”, definiu.
“Esse dia ser passado batido, sem ser mencionado nesse dia é algo que eu enxergo no dia a dia. É muito difícil me sentir representada nessa casa legislativa. É de lá que vem toda opressão da história para o que me ataca, me assassina e me mata todos os dias”, lamentou.
Recorrente
A ausência de temáticas não conservadoras é recorrente na casa. No dia 6 de abril desse ano, a CMM promoveu uma audiência em que discutiram liberdade religiosa, mas convidou representantes de apenas duas religiões: católicos e adventistas, deixando de fora judeus, umbandistas e outras religiões. Entidades ouvidas por A CRÍTICA classificaram evento como ‘desrespeitoso’.