Diesel caro provoca prejuízo a empresas
Custo do diesel e as precárias condições da AM-010, cuja recuperação está paralisada por conta das chuvas, afetam transporte intermunicipal
O transporte para os municípios do interior através da rodovia AM 010 está ameaçado e a população de cidades como Rio Preto da Eva e Itacoatiara pode ficar ‘ilhada’. Representantes das duas empresas que realizam o transporte diário de passageiros relatam que a disparada do preço do óleo diesel e a condição ruim da rodovia podem matar as linhas de ônibus.
Ouvidos na condição de anonimato, dois interlocutores das empresas Aruanã e Eucatur afirmaram que o preço da tarifa determinado pela Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados e Contratados do Estado do Amazonas (Arsepam) está congelado desde 2018 e que atualmente o preço da tarifa do jeito que está não gera lucros para manter as operações de transporte. O reajuste feito pela Arsepam é anual.
A principal queixa é que as duas empresas precisam desembolsar recursos adicionais para poder manter os ônibus rodando todos os dias. A situação foi definida por um funcionário de “pagar para trabalhar”.
A solução mais imediata, segundo as duas empresas, é a Arsepam conceder um novo reajuste real na tarifa. Atualmente, por exemplo, uma passagem de ônibus para o Município de Itacoatiara custa R$ 53,10.
Tanto a Aruanã quanto a Eucatur, que operam linhas rodoviárias intermunicipais para mais de cinco municípios já protocolaram pedido de reajuste diretamente na Arsepam. Entretanto, a agência não respondeu.
Além de lidar com alto preço do diesel que custa R$ 6,79, na versão comum, as empresas de transporte também enfrentam constantes panes mecânicas, principalmente amortecedores quebrados e pneus furados nos buracos da rodovia AM 010.
Rodovia
Os ônibus de dois andares com capacidade para 56 passageiros sentados, um pouco mais baixos, geralmente ficam entalados em alguns trechos mais acidentados por conta da ação da chuva.
O trecho mais crítico, de acordo com informações das empresas, é do quilômetro 127 até o quilômetro 133, que compreende o município de Rio Preto da Eva e a vila de Lindóia.
A condição da rodovia também aumentou o tempo das viagens. Uma viagem de Manaus até Itacoatiara levava em média 4 horas e 30 minutos, mas agora o mesmo percurso é feito em 6 horas e 30 minutos. Para Itapiranga subiu para 8 horas.
Se não bastasse todos os problemas citados, houve uma queda na procura pelas viagens. Desde que o transporte intermunicipal foi liberado para circular com 100% da capacidade, um ônibus com espaço para 44 passageiros, sai da rodoviária, na Djalma Batista, com no máximo 20 passageiros.
As viagens intermunicipais foram suspensas em janeiro de 2021 por causa da segunda onda de covid-19. Três meses depois, no dia 3 de abril, as viagens intermunicipais foram retomadas pelo governo do Estado com 50% da ocupação.
Destinos
Neste período, as empresas de transporte rodoviário ficaram sem arrecadação para pagar funcionários e despesas. A Aruanã Transporte tem linhas para os municípios de Itacoatiara, Rio Preto, Itapiranga, Novo Remanso (distrito de Itacoatiara), Careiro Castanho, Novo Airão e Presidente Figueiredo.
Já a Eucatur opera a linha Manaus/Itacoatiara. A previsão é que a frota de ônibus de 56 lugares deixe de operar até o final deste mês. A Aruanã já suspendeu a linha que sai de Manaus para Lábrea por conta da situação da BR-319.
A Arsepam informou que o reajuste de tarifas do serviço público é vedada durante o estado de emergência, instituído no Amazonas pela Lei Estadual nº 5.347/2020, que ainda está em vigor.
A Arsepam disse que recebeu os pedidos de revisão tarifária das empresas Eucatur e Aruanã no dia 11 de março. Segundo a nota, a revisão do preço da tarifa segue em análise pela agência reguladora.
“A Agência Reguladora do Amazonas reforça ainda que tem o papel de garantir a harmonia entre os interesses dos usuários e prestadores de serviço, zelando pelo equilíbrio econômico e financeiro dos contratos, garantindo a modicidade das tarifas e o justo retorno dos investimentos”, conclui a nota enviada ao A CRÍTICA.
Blog – Anderson Sousa (PP) Prefeito de Rio Preto da Eva
“Tenho recebido em reunião os taxistas, mototaxistas, táxi de cargo, transportadores de ramal muita pressão para efetivar o aumento das passagens e nos casos do transporte escolar aumento nos contratos. Encaminhei à Secretaria de Segurança, Defesa Social e Trânsito um pedido de estudo específico sobre o caso. Quanto a AM-010, entendo que devido ao tempo chuvoso de novembro até hoje foi pedido a paralisação da obra, porém o governo do Estado tem buscado forma de fazer um paliativo de tapa-buracos em todo trecho até o retorno definitivo do consórcio no verão. Tive informações que está semana seria criado mais frentes de trabalhos tapa-buraco para até abril atuarem em toda estrada”.
Recuperação
No mês de agosto, o governador Wilson Lima (UB) iniciou as obras de reformas da AM 010. A previsão é que R$ 366 milhões sejam aplicados na reforma de toda a rodovia de 250 quilômetros. O governo do Amazonas montou cinco frentes de obra distintas entre a capital e a sede do município de Itacoatiara que atuarão simultaneamente. Uma das frentes inicia os trabalhos no Km 13, e outra no Km 76,8. A terceira frente começa no Km 127,60, e a quarta no Km 177,40. A quinta frente começa no Km 222,80
Na avaliação da economista Denise Kassama, o governo estadual precisa intervir e conceder algum subsídio para evitar que as empresas de transporte intermunicipais amarguem mais prejuízos.
“Está na hora de o poder público intervir e buscar uma forma de subsídio para não provocar o aumento da passagem para a população que já está bastante penalizada diante desse processo”, analisa a economista.
De acordo com ela, o preço dos combustíveis, neste caso, o do diesel “mexe com tudo”, inclusive no custo de mercadorias. Segundo ela, se nada for feito, a corda pode “arrebentar” para as empresas rodoviárias.
“A questão da política de preço (da Petrobras) envolve uma série de fatores, inclusive a questão do ICMS que parte dele vai para os municípios e é um recurso muito importante. Não é uma questão tão simples que vai chegar num consenso, mas o problema é agora. Agora é que está apertando o calo das empresas de transporte público e não dá para esperar essa discussão. Então, o governo tem que buscar alguma compensação”, sugere.
Em números
Pelo menos 323,5 mil passageiros usaram o transporte rodoviário intermunicipal, segundo dados da Arsepam. No ano anterior, 380 mil pessoas utilizaram esse modal. O que representa uma queda de 15%.