Diretor do Denarc revela esquemas do tráfico de drogas no AM
A Crítica conversou com o delegado Paulo Mavignier, diretor da divisão, para entender como funciona o sistema de poder do mundo do tráfico
Durante o ano de 2020, o Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc) apreendeu seis toneladas de drogas. A Crítica conversou com o delegado Paulo Mavignier, diretor da divisão, para entender como funciona o sistema de poder do mundo do tráfico e o papel da Amazônia enquanto rota de transporte de entorpecentes do Peru e Colômbia, maiores produtores de drogas da América Latina.
O mundo do crime de tráfico de drogas, no Amazonas, é composto por uma cadeia de grupos de criminosos com atuações e perfis diferentes. Segundo Mavignier, há três tipos principais: produtores de entorpecentes, transportadores, e organizações criminosas.
Nesse cenário, as facções compram quantidades de drogas dos produtores e os transportadores se asseguram da tarefa de levá-las, de cidades estrangeiras, a Manaus, por meio dos rios que cortam o estado.
Os transportadores de drogas do estado são, normalmente, estrangeiros ou pessoas que moram na fronteira entre o Amazonas e países como Peru e Colômbia. Esses criminosos sabem, com extrema eficácia, navegar pelos rios que compõem a região.
Transportadores costumam cobrar, a depender do frete fluvial, R$ 500 por quilo de droga transportada, conforme Mavignier. “São pessoas que ganham muito dinheiro, mas que não constroem patrimônio, majoritariamente. Da mesma forma que eles ganham, também gastam”, disse.
Os transportadores que fogem à regra e acumulam patrimônio se tornam alvo de outro setor da PC, o Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRC).
Produtores de drogas e traficantes
Assim como os transportadores, os produtores de drogas, normalmente, não pertencem a uma facção criminosa. Os produtores que abastecem as organizações criminosas do estado não entram no Brasil. Eles se mantêm em deslocamento em áreas fronteiriças, próximas a regiões como as cidades colombianas La Pedrera e Letícia ou Santa Rosa, no Peru, conforme Mavignier.
“Eles utilizam uma guerrilha armada para escoltar os entorpecentes até o território brasileiro, onde se comunicam com um grupo de transportadores contratados somente para levar o material ilícito até o destino”, disse.
Os produtores de drogas vendem o material ilícito às facções atuantes em Manaus, que possuem divisões hierárquicas próprias. Segundo Mavignier, é possível classificá-las em três: membros do conselho da facção, gerentes de área e ‘boqueiros’.
Os ‘boqueiros’ normalmente são nativos dos bairros e comunidades nos quais atuam. Esse tipo de infrator, responsável pela venda das drogas, se filia ao mundo do crime ao entrar em contato com criminosos responsáveis por gerenciar áreas compostas pelos bairros da cidade.
“Eles matam pessoas e aterrorizam a comunidade, além de vender uma falsa sensação de segurança aos moradores, ao dizer que tomam conta daquela área. Cada beco de um bairro tem um ‘boqueiro’ responsável”, disse Mavignier.
Além de empregarem a violência, durante as ações criminosas, ‘boqueiros’ também ficam encarregados de alterar quimicamente as drogas que chegam às mãos deles por meio das negociações que o conselho da facção realiza com os produtores. “A maior rentabilidade do crime organizado é localizada no trabalho dos ‘boqueiros’.
“Eles aumentam porções de drogas, de três a quatro vezes, fracionam esses montantes em pequenos pinos e os revendem em bocas de fumo”, afirmou o diretor do Denarc. Mensalmente, os ‘boqueiros’ pagam um valor em dinheiro ao conselho da facção.
Os gerentes de área, hierarquicamente, se reportam aos criminosos que fazem parte do conselho da facção, que é responsável por tomar grandes decisões voltadas à organização criminosa.
O combate às vendas em ‘varejo’ do tráfico de drogas é feito por meio dos Distritos Integrados de Polícia (DIPs), Companhias Interativas Comunitárias (Cicoms) e outras divisões do sistema de segurança pública.
Transporte é feito de barco
O objetivo do Denarc é interceptar rotas de narcotráfico no Amazonas. As equipes dessa divisão da Polícia Civil (PC) lidam com os transportadores de drogas e costumam se deslocar ao interior do estado. Noventa por cento do transporte de entorpecentes, no Amazonas, é feito por via fluvial, em barcos. Dez por cento é realizado por via aérea, por meio de aviões.
Atuação do Denarc precisa de cautela
O Denarc utiliza dois tipos de policiais: agentes operacionais e de análise. O objetivo do primeiro grupo é levantar informações e atuar nas abordagens aos criminosos, durante as operações.
Os agentes de análise, por outro lado, trabalham com coleta de dados, dentro do prédio do departamento, situado na Delegacia Geral de Polícia do Amazonas, localizada no bairro Dom Pedro, na Zona Centro-Oeste de Manaus. Além deles, o Denarc também conta com a atuação de escrivães e dois delegados.
Abordagens resultam em confronto
Em dezembro de 2017, o Denarc apreendeu 900 quilos de cloridrato de cocaína, avaliados em pelo menos R$ 20 milhões, o que foi considerada a maior apreensão desse tipo de droga na história da Polícia Civil do Amazonas.
Em 2018, dois policiais do Denarc foram baleados durante confronto com criminosos armados, no quilômetro 12 da rodovia estadual AM-352, que liga Manaus ao município de Novo Airão.
Segundo Mavignier, 40% das abordagens policiais do departamento de narcóticos resultam em confronto.