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A Crítica
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Do Brasil para o Mundo: Tambaqui como commodity internacional

O peixe é o segundo mais produzido no Brasil depois da Tilápia, mas segundo pesquisador ainda falta investimento de produção para ser exportado

Publicado em 13/03/2022 às 09h56 · Atualizado em 13/03/2022 às 11h08
Do Brasil para o Mundo: Tambaqui como commodity internacional
Foto: Arquivo pessoal

Que o Tambaqui é um dos peixes mais apreciados na culinária brasileira, disso ninguém discorda. A vasta opção de cortes e preparos do peixe o tornam único e faz com que esteja presente não apenas durante a semana, mas essencialmente aos fins de semana naquele churrasco típico do amazonense que não pode faltar uma bela banda de tambaqui na brasa. Apreciadora nata de tambaqui, a dona de casa Rizelda Barros não deixa que falte na geladeira. “Virou regra. Aqui em casa quase não tem fim de semana que a gente não come tambaqui. Dos meus filhos às minhas netas, todas adoram. A gente se reúne e assa uma banda, um peixe inteiro… depende da fome!”.

Essa realidade, comum nas mesas do norte ao sul do Brasil, poderia facilmente ser a mesma em outros países, segundo o professor e pesquisador do Núcleo Integrado de Biotecnologia de Mogi das Cruzes(UMC), Alexandre Hilsforf. O pesquisador é o primeiro autor de um estudo que reuniu especialistas de diversas áreas de conhecimento para falar sobre produção, genética, nutrição, doenças e toda a cultura do tambaqui e levanta um questionamento sobre essa espécie que possui suas primeiras tentativas de domesticação datadas ainda em 1930. Segundo o pesquisador, o peixe tem potencial de ser uma commodity internacional e fazer sucesso no exterior.

“O Brasil é um dos maiores exportadores de soja e café. A bovinocultura também é outro grande exemplo de sucesso de exportação. Nos questionamos “por que não o tambaqui?” O Brasil cresceu muito na produção de peixes. Há 20 anos a produção de peixe era muito pequena e grande parte do peixe consumido pelo brasileiro vinha da pesca. Isso se inverteu e hoje somos o 4° maior produtor mundial de tilápia, por exemplo. Temos uma produção em escala que vai desde o produção, engordamento e processamento. Detalhe:  a tilápia não é um peixe brasileiro é um peixe africano. Quando eu olho as espécies brasileiras e vejo que temos mais de cinco mil espécies nas nossas águas, porém nem todas com potencial de cultivo em cativeiro, o tambaqui se destaca”. explica

Isso porque segundo o Alexandre, o tambaqui possui uma série de fatores que facilitam a produção em cativeiro, favorecendo a comercialização. Em comparação com o salmão, consolidado no mercado internacional, o tambaqui só não se destaca por não haver investimento de produção a nível internacional, explica o especialista. 

“Nos últimos anos essa produção cresceu muito, especialmente na região norte, mas não o suficiente para exportar para o mundo. Hoje o tambaqui é a primeira espécie nativa em produção no Brasil. Ele cresce muito rápido sem melhoramento genético,  é resistente a baixo oxigênio na água,  é rústico,  reproduz em cativeiro com facilidade e tem vantagem sobre commodities como por exemplo o salmão, peixe muito caro de se criar por ser carnívoro. Há uma discussão muito grande acerca disso, porque você precisa matar 7kg de peixe para engordar 1 kg de salmão em cativeiro. Não é nada sustentável. O tambaqui é um peixe onívoro e com tendência a ser herbívoro. Na natureza ele se alimenta básicamente de plantas e sementes”, justifica

 

Cultivando a economia regional

 

Para o pesquisador, são muitos os pontos positivos na produção em escala internacional do tambaqui. De acordo com Alexandre é preciso pensar na sustentabilidade dos povos da região amazônica, os benefícios para a economia local, além da geração de empregos que consequentemente esse negócio ocasionaria. “A economia só cresce quando o mercado cresce e isso aconteceu com a tilápia. Quando eu estudava era monitor da piscicultura e ninguém conhecia a tilápia. As pessoas achavam que a tilápia era o cará. Antes era um peixe que chega até meio kg e hoje engorda até 1kg. Hoje todos conhecem a tilápia, vende em todos os lugares e nós a exportamos. Se a gente falasse que na década de 90 e 80 que a tilápia nunca chegaria ao mercado internacional era por uma questão de produção. A partir do momento que a atividade cresceu, o volume de produção cresceu e hoje o Brasil exporta para o mundo”, lembra o cientista.

Na opinião do pesquisador o tambaqui possui um grande apelo por ser a cara da amazônia, podendo ser facilmente vendido de forma ‘gourmet’. “É um peixe símbolo da região. Além desse investimento de marketing, há também necessidade de investimento em tecnologia para o melhoramento da genética do peixe. Não temos uma ração específica para o tambaqui, a ração vendida é para peixes redondos e não para as exigências nutricionais específicas desse peixe, como a tilápia tem. Até o nome dele é fácil de ser pronunciado pelo estrangeiro”, brinca o especialista.

Segundo Alexandre o investimento é o principal fator que impede o tambaqui de deslanchar e levanta questionamentos sobre atividades pouco lucrativas que ainda estão enraizadas da cultura amazônida. “Muitas empresas que vendem carros sentiram o impacto na queda de venda de veículos durante a pandemia. O fato é que quando a economia cai você pode não comprar carros, mas alimentos você sempre vai necessitar. A venda desse peixe geraria muitos empregos e não é uma atividade que gera renda para poucos, como por exemplo a mineração que tem sido alvo de polêmicas nos últimos meses na Amazônia, é uma renda constante”.

 

Amazonense ainda é o maior consumidor do peixe no Brasil

 

O Jaraqui já foi o mais consumido no Amazonas quando a maior parte da venda era retirada diretamente da natureza. Ao longo dos anos isso mudou, já que peixes como Tambaqui e Pirarucu passaram a ser cultivados, em sua maioria pela piscicultura, a criação em viveiros. Isso fez com que o Tambaqui passasse a fazer mais parte da mesa do amazonense. De acordo com o Doutor em Ciência dos Alimentos e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Rogério de Jesus, o amazonense chega a consumir 45 mil toneladas de tambaqui por ano. “Somente o Amazonas supera uma produção de 20 mil toneladas de Tambaqui e ainda importa de estados vizinhos como Rondônia e Roraima outras 20 mil toneladas. Isso significa um consumo do amazonense entre 40 e 45 mil toneladas por ano. É muito maior do que qualquer outra produção natural. O jaraqui não chega a 1/4 desse total”, enumera o pesquisador.

O professor reafirma a facilidade de produção do tambaqui e classifica os tipos mais comuns na região. “Os testes de produção foram feitos em peixes como matrinxã, pacu, pirarucu e a que deu mais certo foi o tambaqui. Hoje temos o tambaqui curumim de 500g; o ruelo que é médio em torno de 1kg a 2kg e o maior que fica acima de 3kg a 3,5kg. No distrito as empresas preferem o curumim, porque é aquele tipo de peixe que cabe no prato, mais ou menos do tamanho de um pacu. A diferença entre eles está no tempo de criação. O grande sucesso do tambaqui é que ele se adaptou ao consumo da ração e aceita muito bem; diferente do pirarucu, que é um peixe que precisa ser treinado para consumir ração porque é carnívoro”.

Sobre o sabor do que é criado em viveiro e na natureza ele diz que a opinião vai de cada um. “Eu já estou tão acostumado com o peixe de piscicultura que não vejo diferença no sabor, mas há quem diga que tem essa diferença do que é criado em viveiros com o que vem da natureza. Eu costumo comparar com o frango da indústria e o frango caipira”.


SAIBA MAIS: Melhoramento genético 

 

O melhoramento genético dos peixes pode ser definido como diversos cruzamentos nos quais são selecionados os melhores peixes. Fazendo um paralelo, o frango que comemos na década de 30 e.40 para chegar a 1,5 kg levava cerca de 70 dias. Atualmente esse frango para chegar a 1,5kg/2kg leva cerca de 40 dias. A produção possui um tripé: genética, manejo e nutrição. Para produzir mais é necessário engordar esses animais o máximo possível em menor tempo. Há um mito sobre melhoramento genético quando se fala de hormônios,  o que é proibido por lei. Quando falamos de genética, 99,9% dos alimentos vêm de uma variedade genética melhorada.

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