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Entenda como descarte incorreto afeta Manaus

Especialistas alertam para riscos ambientais e urbanos causados pela má gestão dos resíduos e conexões

Publicado em 19/07/2025 às 10h34
Entenda como descarte incorreto afeta Manaus
Foto: Arquivo A CRÍTICA

Nem toda água que escorre pelas ruas de Manaus vai parar no mesmo lugar.
Enquanto o esgoto residencial que integra a rede coletora segue para estações de tratamento, a água da chuva corre direto para os canais da cidade, levando junto muito do lixo.

Essa diferença, ainda pouco discutida no cotidiano, tem provocado problemas sérios para a infraestrutura urbana.

Atualmente, a cobertura já ultrapassa 35% da cidade, com plano de chegar a 40% até o final do ano. O avanço dessa cobertura esbarra não apenas em infraestrutura, mas também em práticas equivocadas dentro das próprias casas.

Pequenos erros de ligação hidráulica se somam ao descarte irregular de resíduos nas ruas e ampliam os impactos quando a chuva chega, provocando alagamentos, entupimentos e o retorno do lixo às portas das pessoas.

“É importante lembrar que a rede de drenagem da cidade é separada da rede de esgoto.
A rede de drenagem leva água da chuva direto pros canais, enquanto o esgoto passa por tratamento. O que tem acontecido é que algumas pessoas estão conectando águas da chuva na rede de esgoto, o que não é correto. Isso sobrecarrega a rede, provoca extravasamentos e prejudica o funcionamento das estações de tratamento”, alerta o diretor-presidente da Águas de Manaus, Pedro Freitas.

 

Mais resíduos

 

Com o início da vazante, o problema fica ainda mais visível: sacolas plásticas, garrafas PET e restos de embalagens reaparecem acumulados nos canais e margens dos igarapés, apesar do esforço municipal para retirada do lixo. É o retrato do que foi varrido para longe durante a cheia, e que agora volta à tona.

O biólogo Daniel Santos, embaixador do Instituto Lixo Zero Brasil no Amazonas, reforça que o tipo de resíduo mais recorrente nas redes de drenagem é o plástico.

“Os resíduos mais encontrados em drenagem é o plástico, por ser um material que praticamente é embalagem de objetos e alimentos. O plástico é um problema maior pois não se degrada rapidamente, já o papel e papelão como são compostos de celulose é mais fácil de se decompor.”

Ele também alerta sobre o impacto urbano. “A locação inadequada (local e horário) dos resíduos faz com que sejam levados por vento e chuvas até os bueiros, que são a porta de entrada das galerias de drenagem. O volume desses resíduos acaba entupindo as redes, causando um caos de alagação nessas áreas.”

“Esses fragmentos representam um dos maiores desafios para a conservação dos ecossistemas aquáticos, afetando não apenas o meio ambiente, mas também os animais que habitam esses nichos ecológicos”, explica a médica veterinária Márcia Seixas de Castro Bader, doutora em Biotecnologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Segundo ela, os impactos vão além da estética urbana. “Os plásticos liberam substâncias tóxicas, como ftalatos e bisfenol A, e têm a capacidade de absorver poluentes presentes no ambiente, como metais pesados. Esses contaminantes entram na cadeia alimentar e podem afetar predadores de níveis tróficos superiores, incluindo os seres humanos.”

A médica também destaca os efeitos nos animais. “A principal via de exposição dos animais aos microplásticos é a ingestão direta ou o contato com estruturas respiratórias.
Estudos científicos já comprovaram a presença dessas partículas no trato digestivo de diversos animais, o que pode causar obstruções, sensação falsa de saciedade, desnutrição, debilitação e até a morte.”

 

Infraestrutura e engajamento popular

 

Quem atua diretamente nas comunidades sente o impacto e a urgência dessa mudança. Helena Lucia Dantas, ativista que já organizou mutirões de limpeza, destaca que o primeiro passo é compreender o valor desses materiais.

“Esse lixo que citou, na verdade chamamos de resíduos sólidos, pois apesar de que estes materiais estejam contaminados, ainda sim tem como os restaurar e usar para um possível reaproveitamento. Só consideramos lixo aquilo que de fato não possui nenhuma chance de reaproveitamento.”

A ativista reforça as consequências ambientais da poluição urbana. “Sem dúvidas, há perda de biodiversidade e o declínio da qualidade da água, enquanto estamos falando dos nossos rios e igarapés.”

Ela acredita que só será possível reverter o quadro com a soma de duas frentes: infraestrutura e engajamento popular. “Investir em educação ambiental para a população e também no saneamento básico da cidade, que ainda é muito ruim. Com um saneamento de qualidade e também boa ação por parte dos moradores, é possível aos poucos reverter esse quadro.”

Para Helena, o papel dos moradores é indispensável. “Os moradores possuem um enorme e importantíssimo papel na preservação e manutenção da limpeza da cidade, enquanto geradores de resíduos.

Se todos fazem seu papel, de colocar os resíduos onde devem ser colocados, não jogar na rua, ou nos igarapés, já ajuda bastante. Nessa questão de atuar contra esse excesso de sujeira e poluição, é claro que poder público e população devem caminhar juntos, cada um fazendo seu papel. Infelizmente, só um lado não consegue mitigar o problema.”

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