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Entre fronteiras e resistências: histórias de refugiados no Brasil

Embora não esteja isento de exploração de refugiados e preconceito, Brasil segue contramão ao acolher migrantes

Publicado em 21/06/2025 às 10h03 · Atualizado em 21/06/2025 às 11h28
Entre fronteiras e resistências: histórias de refugiados no Brasil
Foto: Allana Ferreira/Acnur

Enquanto a história mundial foi construída por fluxos migratórios, a exemplo dos cerca de 60 milhões de europeus vindo para as Américas entre 1492 e 1930, segundo estimativas, a pauta anti-imigratória continua a avançar na Europa e nos Estados Unidos, alimentada por movimentos de extrema-direita.

No Brasil, apesar de obstáculos como exploração e preconceito, o acolhimento a migrantes ainda resiste.

Boa parte desse fluxo para o país é de pessoas que foram obrigadas a deixar seus territórios de origem devido a guerras, perseguições e violações de direitos humanos — homenageados no Dia Mundial do Refugiado, celebrado na última sexta-feira (20).

Só entre 2015 e 2024, o Brasil recebeu 454 mil pedidos de reconhecimento de condição de refugiados, segundo o relatório Refúgio em Números. A maioria era de venezuelanos (266.862), cubanos (52.488), haitianos (37.283) e angolanos (18.435).

Uma dessas pessoas é a venezuelana Ana Morales, que morava em Barrancas del Orinoco e decidiu se mudar para o Brasil, em 2019, à procura de melhores condições de vida para o filho, que estava exposto às dinâmicas de facções criminosas na região.

Depois de dormir em um abrigo para refugiados em Boa Vista (RR) e passar cinco dias na rua, ela e o filho conseguiram chegar a Manaus. Na capital do Amazonas, Ana trabalhou com salgados em uma rotina que iniciava às 5h e só terminava à noite.

Em meio à exploração vivida nesse período, ela decidiu adquirir o quanto de experiência pudesse para abrir seu próprio negócio. Assim surgiu, em 2022, o ‘Fusão de Sabores’.

“Ainda trabalhei em outras padarias e restaurantes depois, mas sempre na intenção de aprender, porque eu sabia que ia me servir lá na frente. Eu queria criar um salgado que misturasse a cultura venezuelana e brasileira e fosse bem aceito por todos”, comenta.

Com seus salgados de caranguejo, camarão, bacalhau, carne de sol e as famosas arepas e cachapas venezuelanas, Ana Morales chegou a ser selecionada no Top 10, no ano passado, para representar o Amazonas na Expo Favela, em São Paulo.

“O que quero hoje é deixar meu nome de legado para as futuras gerações, especialmente para meus filhos e netos. Que eu não seja só uma migrante que passou por Manaus, mas que fez a diferença trazendo resistência, resiliência, dedicação, entrega e paixão”, diz.

 

Dificuldades


Durante sua trajetória como migrante no Brasil, Ana Morales sofreu uma série de dificuldades comuns aos refugiados, como a barreira do idioma e até xenofobia.


Ana fez de um trabalho exploratório uma forma de recomeçar no Brasil (Foto: Divulgação)

 

Outro problema ainda latente é a revalidação de diplomas de nível superior. O psicólogo Xiosmel Ramon Herrera Rodríguez sentiu isso na pele quando se mudou da Venezuela para o Brasil, após sair de uma prisão por motivação política.

Mesmo sendo formado em psicologia e em artes cênicas, ele precisou vender água, bombons, banana e queijo no Centro de Manaus para se sustentar.


Xiosmel fugiu de perseguição política para acolher refugiados em Manaus (Foto: Acervo da Revista Rio Negro)

 

“Lembro que eu pensava, ‘caraca, sou psicólogo e estou aqui vendendo na rua’, mas eu precisava trabalhar para me sustentar”, conta. Até hoje ele não tem nenhum dos diplomas revalidados.

Após conseguir um emprego em uma loja de xerox, Xiosmel passou a ter acesso ao computador e assim retomou uma atividade que já fazia na Venezuela: a escrita de projetos. Foi na pesquisa que também descobriu o Instituto Hermanitos, que atua no acolhimento de refugiados no Amazonas.

“Adaptei o projeto para a realidade do Brasil, de aconselhamento de pessoas em processo migratório, e apresentei a eles, que gostaram muito. Passei uns três, quatro meses desenvolvendo o projeto até ser contratado como atendente de público. Escalei para supervisor e agora sou coordenador das operações. Também sou escritor e tenho uma revista de literatura”, comenta.

 

Políticas restritivas avançam

 

Segundo o Relatório Mundial sobre Migrações (OIM), a estimativa é que até 2024 havia 281 milhões de migrantes internacionais em todos o mundo. Já o número de pessoas em deslocamento forçado chegou a 117 milhões, o mais alto já registrado.

O documento registra que a migração é parte intrínseca da história humana e ocorre, em sua maior parte, de maneira regular, segura e com foco regional, diretamente ligada a oportunidades e meios de subsistência.

Ainda assim, o aumento do deslocamento entre países nos últimos anos têm provocado uma onda anti-imigratória liderada, em nível político, especialmente por políticos de extrema-direita, como Donald Trump, nos Estados Unidos; André Ventura, em Portugal; Marine Le Pen, na França; e Alice Weidel, da Alemanha.

Para o representante no Brasil da Agência da ONU para Refugiados (Acnur), Davide Torzilli, há um contexto claro de maior movimento migratório. Ao mesmo tempo, um aumento de políticas mais restritivas com a pessoa refugiada.

“Claramente isso, em um contexto global de conflito, de grande deslocamento de pessoas, precisa ser revertido”, comenta.

Por outro lado, ele avalia que o Brasil tem uma política muito mais acolhedora, de proteção e de integração dos migrantes.

“O país tomou a decisão de integrar e receber pessoas refugiadas, de dar oportunidade a elas e, através da política inclusiva, permitir com que elas se tornem independentes para recomeçar a vida no Brasil”, diz.

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