Esperança com a mudança para Portugal
Paulista criada em Manaus, Fernanda Caroline, ao lado do marido Erlon e da filha Maria Júlia, em agosto de 2022, deram início ao sonho de buscar estabilidade financeira e qualidade de vida em outro país
PORTO, PORTUGAL – A história de Fernanda Caroline, de 33 anos, paulista criada em Manaus, juntamente com seu marido Erlon, de 37, e sua filha Maria Júlia, de 16, retrata a realidade de muitas famílias que buscam novos horizontes em um universo repleto de desafios para aqueles que decidem imigrar e desbravar outros países e suas culturas.
A quinta reportagem especial da série “Um amazonense pela Europa” traz a imigração de uma família brasileira para Porto, em Portugal, em agosto de 2022, o que não apenas representou uma mudança geográfica, mas também uma transformação em suas vidas, marcadas por anseios de segurança, desenvolvimento pessoal, acadêmico, profissional e reencontro familiar.
Segundo Fernanda, a decisão de deixar o Brasil não foi simples. Ela e o esposo Erlon consideraram a falta de segurança, as dificuldades de desenvolvimento profissional, a instabilidade política e econômica, que, em sua opinião, foram fatores determinantes para a tomada de uma decisão que impactaria não somente suas vidas, mas também a da filha Maria Júlia.
A presença de Nara, mãe de Fernanda, que já residia legalmente em Porto, se tornou um importante fator de apoio. “Imigrar sempre foi um sonho meu e do meu marido. A ideia existia há anos, mas com a pandemia consideramos Portugal como uma opção viável, já que não era a primeira que tínhamos em mente”, relembra Fernanda.
Para ela, a mudança não era apenas sobre a busca por oportunidades, mas também a esperança de reestruturar a vida familiar em um ambiente mais seguro e acolhedor, que apresentasse novas perspectivas. “A oportunidade de vir a Portugal existia, pois, minha mãe já residia no país. Foram alguns anos mentalizando a ideia, pesquisando, planejando e orando, pois sabíamos que não seria uma mudança simples”, comenta a brasileira.
Nova Rotina
Ao chegar a Porto, o reencontro com sua mãe e o padrasto, Albano, foi fundamental para Fernanda. De acordo com ela, a presença de familiares próximos ajudou a amenizar o choque cultural que, na maioria das vezes, acompanha novos começos para quem opta por buscar oportunidades que abram novos caminhos.
“Toda mudança é difícil, e contar com uma rede de apoio tem sido crucial nesse processo”, afirma ela. O apoio emocional de sua mãe foi, para a amazonense, um ponto favorável enquanto a família se adapta à nova rotina.
A rotina dos três passou por uma reestruturação significativa. No Brasil, Fernanda enfrentou problemas de saúde que a afastaram do mercado de trabalho. Em Portugal, a oportunidade de cuidar de sua saúde em um novo momento de sua vida e retornar às atividades fez com que a dinâmica familiar e profissional ganhasse um novo ritmo.
“Em Manaus, eu não estava trabalhando devido a problemas de saúde, mas, vindo para Portugal, pude cuidar um pouco mais de mim e retornar às atividades laborais”, destaca.
Enquanto aguardavam a tramitação do processo de imigração, a família precisou aceitar empregos que surgiram. A escolha, embora limitada, permitiu-lhes garantir um contrato de trabalho essencial para a continuidade do processo.
“Hoje trabalhamos em uma fábrica, até porque nosso processo de imigração ainda está tramitando e precisávamos ter um contrato de trabalho para que ele não fosse indeferido. Então, não tivemos muitas opções de trabalho”, conta.
Dificuldades com o português europeu e adaptação da filha Maria
Apesar de as dificuldades enfrentadas em Porto serem superadas com a ajuda da família e o companheirismo e cumplicidade entre os três, o idioma apresentou um desafio imediato.
“O português europeu falado aqui é bem diferente do nosso, e isso causava desconforto”, lembra Fernanda.
O próprio sotaque e expressões locais exigiam paciência e compreensão, de acordo com ela, mas, de forma geral, Fernanda diz que a adaptação se mostrou menos penosa do que imaginava.
“O povo português não é muito paciente em ficar repetindo quando não entendíamos o que eles falavam. Fora isso, não tivemos maiores problemas”, avalia.
Fernanda conta que o apoio pedagógico individualizado por parte da escola ajudou muito no processo de transição escolar para a filha Maria Júlia.
“Toda essa estrutura disponibilizada na educação e adaptação da Júlia foi necessária e essencial para que ela não sentisse tantos impactos. Além do mais, ela foi muito bem recebida por suas colegas de classe, o que foi um alívio para nós como família”, disse, aliviada.
Saudades do Brasil, sonhos e projetos futuros
Para Fernanda Caroline, a falta dos demais integrantes da família e dos amigos que ficaram no Brasil é um dos pontos negativos da imigração, tema comum entre os imigrantes e que só é percebido quando você acorda e diz:
“Eu estou em outro continente, outro país. Nenhum lugar pode substituir as experiências e laços que construímos ao longo da vida”, fala.
Contudo, a segurança e a qualidade de vida em Portugal têm proporcionado uma experiência que supera as expectativas. “No Brasil, só tínhamos acesso a outros estados de avião ou barco, e ambos eram caros. Aqui não. Tem estrada para todos os lados ou mesmo ‘voos low-cost’ para qualquer lugar da Europa superbaratos, e isso é bem animador. Minha filha já fez uma viagem organizada pela escola para Madrid; são oportunidades que com certeza seriam impossíveis no Brasil,” compara.
Como muitos imigrantes, Fernanda e Erlon sonham com a oportunidade de estudar e se capacitar para melhorar profissionalmente. “Aqui temos acesso a cursos universitários reconhecidos mundialmente, e queremos aproveitar essa chance”, afirma ela.
Investir em suas carreiras é um pilar fundamental para eles, bem como aprender novos idiomas, ressaltando que a mudança de país trouxe também uma nova perspectiva sobre o que realmente importa. “Aprendemos a dar valor a pequenas coisas que antes não valorizávamos, como reuniões de família e momentos com amigos”, reflete Fernanda.
Para quem quer imigrar, ela dá a dica: “Tenha persistência e paciência, pois quem imigra, se não as tem, desiste. Além disso, pesquisem bastante em fontes confiáveis, conversem com pessoas que foram para o mesmo lugar que você quer imigrar. Se realmente tens esse sonho de imigrar, é preciso dar o primeiro passo, mesmo com medo e incertezas; vá”, aconselha.
*Esta reportagem faz parte da série “Um amazonense pela Europa”, com dez matérias escrita pelo jornalista amazonense Marcelo Guilherme, com exclusividade para A CRÍTICA, durante sua viagem pelo continente europeu, conhecendo outros amazonenses e também brasileiros de outros estados, pela Espanha, Alemanha e Portugal.