Filhos transformam a saudade da mãe em homenagem e memória
Especialista orienta sobre a importância de respeitar o próprio ritmo e criar rituais simbólicos para atravessar a data com respeito e amor
Enquanto para muitos a proximidade do Dia das Mães suscita planos de comemoração, compra de presentes, clima de festa e felicidade, para outros o clima é bem mais nostálgico e desperta muitas saudades. Para quem já não tem mais a presença física da mãe, a data tem um significado diferente, mas nem por isso menos especial.
É o caso dos irmãos gêmeos Breno e Bruno Albuquerque, de 28 anos, que em 2026 vão passar o terceiro Dia das Mães sem a presença de Mirella de Souza Albuquerque, falecida em março de 2023. Os irmãos têm sentimentos diferentes em relação à data após a partida da mãe. Para Breno, o Dia das Mães se tornou um dia de homenagem silenciosa. Já Bruno procura não pensar muito e encarar como um dia comum.

Mãe de Breno e Bruno, Mirella de Souza Albuquerque faleceu em março de 2023 (Paulo Bindá/A CRÍTICA)
“O sentimento do Dia das Mães, depois da perda, ficou tipo uma homenagem silenciosa, uma homenagem de saudade. O Dia das Mães, depois da perda dela, ficou mais doloroso”, afirma Breno. “É um dia em que várias lembranças sobre ela vêm à tona. Mas desde o falecimento dela, o Dia das Mães não teve mais o mesmo sentido que tinha antes”, completa.
“Eu vou falar por mim. Procuro não pensar muito. Não é mais muito importante o Dia das Mães. Eu tenho várias lembranças dela todos os dias”, diz Bruno, acrescentando que a data acaba trazendo um sentimento um pouco negativo agora.
Reunião e visita ao túmulo
Breno conta que a família procura fazer o que a mãe gostava de fazer no Dia das Mães: se reunir. “Apesar de ser uma data tão dolorida, a gente tenta no máximo lembrar coisas do dia a dia que ela fazia nessa data, que era se reunir, conversar bastante, a gente assistia o nosso time de coração e, é claro, e a gente tenta não apagar isso”, diz.
A visita ao túmulo da mãe também faz parte da rotina da data. “A gente costuma ir ao túmulo, fazer uma oração, conversar, eu e os meus irmãos, lá no túmulo. É uma forma de evitar que seja apagada essa lembrança dela que a gente vive todos os dias”, afirma.

Para manter viva a memória, a família preserva o hábito da reunião (Arquivo pessoal) ()
Mesmo tentando não se deixar envolver muito pela data, Bruno reconhece que é difícil encarar como um dia qualquer. “Nunca vai deixar de ser uma data especial, nunca vai passar despercebido. Infelizmente, a perda, o luto a gente vive todos os dias, então, a gente tem que manter viva essa lembrança, e a gente tenta fazer isso. Ainda mais nessas datas especiais, como o dia das mães”.
Permita-se sentir
A psicóloga Giovana Lasca, especialista em luto, explica que todo processo de luto é único, profundamente particular, porque cada vínculo é único. “Não existe um jeito certo de sentir, nem um tempo certo para “estar melhor” e, em datas comemorativas, isso pode apertar, porque traz à tona lembranças, saudade, ausência”, explica.
“Talvez seja o primeiro Dia das Mães da pessoa sem a sua, ou o primeiro de uma mãe vivendo o luto por um filho que partiu, ou talvez o luto já tenha muitos anos e essa data bagunça tudo de novo”, diz a psicológa, esclarecendo que, nessas datas, parece que tudo se intensifica. “É como se a dor ganhasse mais espaço e, tudo bem, não significa que você voltou atrás no seu processo. Algumas datas comemorativas têm esse poder de escancarar a falta”, declara.
“A dor e a saudade não terminam porque ‘já passou tempo demais’, ou porque todos ao nosso redor parecem felizes. Não há regra para o luto”, afirma a psicóloga, lembrando que algumas atitudes podem ajudar a passar pelo Dia das Mães com mais respeito ao processo de luto de luto de cada um.
Ela aconselha que a pessoa, primeiramente, tem que se permitir sentir e não lutar contra as emoções que vêm, sejam elas tristeza, raiva, cansaço, inveja. É tentar criar um ritual simbólico, como acender uma vela, se fizer sentido, escrever uma carta, cozinhar algo especial, ouvir aquela música significativa.
“Não tenha medo ou receio de dizer não: recusar convites se quiser, desligue o celular, evite redes sociais, não se force a sorrir ou ‘ficar bem’ se não estiver. E busque apoio, converse com quem te compreende, te respeita e te valida”, sugere.
Giovana esclarece que o mais importante é que a pessoa saiba que não precisa dar conta de tudo e nem se encaixar nas expectativas dos outros. “O luto não é fraqueza. É o amor que permanece e ainda está encontrando novos jeitos de existir”, afirma.
Saudade cotidiana
Os irmãos gêmeos Breno e Bruno Albuquerque relatam que a falta que Mirella faz é cotidiana e surge diariamente em lembranças, pensamentos e mesmo em atividades que trazem à memória a presença da mãe. “Nunca será a mesma coisa sem ela. Sinto falta da presença dela, do dia a dia. Ela perguntando como a gente estava, querendo saber das atividades que a gente estava fazendo”, afirma Bruno.
Breno conta que sente falta da mão firme comandando o ambiente familiar. “Nós somos quatro homens. Bruno, Breno e Ricardo, filhos dela, e meu pai. Então, ela que era a general da casa, ela que trilhava os caminhos. Então, a gente sente muita falta desse tipo de postura. A mãe tem um posicionamento dentro de casa com os filhos e com o marido que é muito importante. Sinto falta desse desse tipo de posicionamento lá em casa”, diz.
O toque, o beijo, o cheiro e a voz
Para o advogado Daniel Lapa, esse Dia das Mães vai ser um marco: o primeiro sem a presença da mãe Sionise Lapa. “A saudade é muito grande. Principalmente do toque, do beijo. Do cheiro e da voz! Tudo faz falta todos os dias”, afirma Daniel, que planeja ir à igreja com sua filha no Dia das Mães, rezar por Sionise.
“Ela fez a passagem no dia 29 de outubro de 2025 as 2h50 da madrugada. No Dia do Cerimonialista, que inclusive era a função dela na Câmara Municipal de Manaus. Uma data bem simbólica pra nós”, relata o advogado.

O advogado Daniel Lapa vive o primeiro Dia das Mães sem Sionise e planeja um momento de fé para celebrar o legado dela (Arquivo pessoal) ()
Daniel considera que ainda se encontra em luto, mas não pretende deixar que a data comemorativa seja de tristeza. “Ainda me encontro de luto, aos seis meses da passagem, mas vejo como uma coisa positiva porque lembro dela com alegria e, na verdade, quando se trata da mãe, o luto do filho é até ele fazer a passagem também”, diz.