Francisco fez a Igreja olhar para Amazônia
Socióloga que foi ao Sínodo da Amazônia, realizado pelo papa, ressalta o legado do encontro para a região e seus povos
Cinco anos após a realização do Sínodo da Amazônia, que aconteceu em outubro de 2019, no Vaticano, a região amazônica ainda colhe frutos dos diálogos progressistas liderados pelo Papa Francisco. A socióloga Márcia Maria de Oliveira, que esteve na reunião, destacou os debates sobre os problemas da Amazônia, diálogos interculturais e criação de ministério para atender demandas sociais.
“Resultou em um amplo diagnóstico dos principais problemas da Amazônia. Este diagnóstico foi um grande legado porque pode servir para orientar o planejamento pastoral e a atuação social de toda a Igreja da Pan-Amazônia”, disse Márcia Maria.
Ela informou que essa questão foi pontuada no documento final da assembleia, que destacava que o Sínodo conseguiu integrar a voz da Amazônia com os pastores participantes, com uma nova experiência de escuta para discernir a voz do Espírito Santo, que conduz a Igreja a novos caminhos de presença, evangelização e diálogo intercultural na Amazônia.
“A afirmação, que surgiu no processo preparatório, de que a Igreja era aliada do mundo amazônico, foi fortemente confirmada. A celebração termina com grande alegria e esperança de abraçar e praticar o novo paradigma da ecologia integral, o cuidado da “casa comum” e a defesa da Amazônia.”
CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA
Outro resultado importante, segundo a socióloga, foi uma maior consciência ecológica e uma sensibilidade maior para com a crise climática. “A Igreja, nos oito países que formam a Pan-Amazônia, passou a defender de forma determinada a Amazônia e seus povos.
Passou a identificar práticas de destruição e ameaças ao bioma Amazônia e se posicionar firmemente em sua defesa”, disse.
Além disso, foram criados grupos de trabalho para ampliar a consciência ambiental de toda a Igreja e da sociedade. Márcia Maria informou que também está em processo de elaboração o “Rito Amazônico”, que redefinirá novas práticas litúrgicas e novos ministérios, especialmente para mulheres e leigos. “O Rito Amazônico incluirá na liturgia muitos elementos típicos da vivência dos povos indígenas em seu contato íntimo com a natureza e estimular as expressões nativas em cantos, Socióloga Márcia Maria de Oliveira ao lado do Papa Francisco danças, ritos, gestos e símbolos.
Para além da questão litúrgica, o Rito Amazônico aprofundará também os elementos da teologia, da espiritualidade, da estruturação eclesial e da interculturalidade. Estamos no processo de reelaboração dos rituais dos sacramentos e sacramentais, e da interculturalidade no ano litúrgico e nos ministérios na região amazônica”, explicou a socióloga.
Entre os bons resultados, também está a Faculdade Católica do Amazonas (FCA), que é uma instituição da Igreja Católica, comprometida com a formação teológica integral, centrada no ensino, na pesquisa e na extensão no contexto multicultural amazônico. Essa experiência se somará a outras, em todos os oito países da Pan-Amazônia, que pretende criar um centro de referência de produção do conhecimento eclesial e da formação teológica pastoral.
Márcia Maria destacou um importante avanço na igualdade de gênero, antes ignorada pela Igreja. “Muitas mulheres já receberam ministérios específicos e assumiram cargos de confiança nas dioceses e prelazias antes só conferidas somente aos homens”, afirmou.
A socióloga disse que o Papa Francisco teve essa importância histórica em ouvir a população amazônica, antes não representada.
“Foi a primeira vez que a Igreja de Roma olhou de fato para a Amazônia disposta a aprender com nossos valores e experiências. A experiência do Sínodo foi uma verdadeira revolução e descolonização. Inverteu a ordem do lugar das coisas e das pessoas. Depois de 500 anos de evangelização vindo diretamente da Igreja para os povos da Amazônia, o Sínodo faz a experiência contrária: os povos indígenas vão a Roma, tomam o Vaticano e são escutados”, ressaltou.
Márcia Maria também elogiou a postura de escuta do Papa para com os povos originários e amazônicos. “O Papa Francisco insistia a todo instante: ‘escutem o que eles dizem, aprendam deles como devemos cuidar da nossa Casa Comum’. Mudou-se o lugar de fala. Os povos da periferia da Igreja foram para o centro e, mais ainda, foram escutados e respeitados. Seus valores e conhecimentos foram ouvidos e assimilados. Essa foi uma das maiores revoluções que o Sínodo produziu. A Igreja nunca mais será a mesma depois desta experiência”, disse a socióloga.
Devastar a natureza é pecado
Na exortação apostólica “Querida Amazônia”, Francisco introduziu o termo “pecado ecológico”, porque “devastar a natureza é pecado”, afirmou. No entanto, ele se recusou a atender ao pedido feito pelos bispos latino-americanos de autorizar excepcionalmente a ordenação de alguns homens casados da região amazônica, o que decepcionou muitos setores.
Junto com o pecado ecológico, introduziu o rito amazônico, que para alguns era outra heresia. A ideia de usar imagens e símbolos de populações amazônicas em ritos litúrgicos gerou muitas reações, principalmente dos setores mais conservadores. “Não há diferença entre as penas na cabeça de um indígena da Amazônia e o chapéu usado pelos líderes da Igreja”, comentou Francisco, provocativamente.
O papa traçou o caminho para atender às necessidades espirituais dos habitantes da floresta amazônica.