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Fumaça das queimadas em Manaus provoca queda de até 50% na renda de trabalhadores

Fotógrafos esportivos, comerciantes e empreendedores relatam prejuízos com cancelamentos de eventos e redução do público em parques e espaços de lazer durante os períodos críticos de fumaça no Amazonas.

Publicado em 25/10/2026 às 08h59 · Atualizado em 25/10/2026 às 14h15
Fumaça das queimadas em Manaus provoca queda de até 50% na renda de trabalhadores
Fumaça muda a forma de consumo em Manaus Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA

Em 2026, durante um período de forte atuação do El Niño, o Amazonas enfrenta uma combinação de estiagem, queimadas e episódios recorrentes de fumaça. O fenômeno climático está entre os mais intensos registrados desde 1950 e tem contribuído para um cenário de calor, seca e maior risco de fogo na região.

Enquanto queimadas e incêndios avançam sobre diferentes áreas da floresta, uma ameaça silenciosa chega às cidades: a fumaça. Em Manaus, o céu encoberto, a redução da visibilidade e a piora na qualidade do ar alteram a rotina da população e também afetam quem depende da circulação de pessoas em espaços públicos.

À primeira vista, a fumaça parece atingir principalmente a saúde e a rotina dos amazonenses. Mas, para quem depende do movimento de corredores, ciclistas e frequentadores de parques e praças, cada alerta sobre a qualidade do ar representa menos clientes e menos dinheiro no fim do mês. Em meio ao problema, trabalhadores que encontraram no esporte e no lazer ao ar livre sua principal fonte de renda enfrentam um cenário de incerteza, marcado por cancelamentos, espaços vazios e faturamento em queda.

Fotografia esportiva afetada

A crise ambiental também impactou diretamente a fotografia esportiva. Há três anos tendo a atividade como fonte de renda exclusiva, o fotógrafo Kassio Melo, de 42 anos, relata que os profissionais do segmento acumularam perdas de até 50% no faturamento devido ao cancelamento de eventos e à diminuição da presença de atletas e frequentadores nos espaços públicos.

“O trabalho da fotografia esportiva foi bem impactado com isso, porque nós vivemos de captar as pessoas fazendo esporte e a grande maioria da população faz esporte em áreas abertas. As pessoas não vinham para correr, as faixas eram fechadas. Então, automaticamente, a gente perdia a oportunidade de fazer venda de fotos”, contou Kassio.

Com a fumaça encobrindo a capital e a qualidade do ar em níveis preocupantes, autoridades municipais e órgãos ambientais cancelaram eventos e atividades ao ar livre, além de fechar temporariamente espaços esportivos e faixas liberadas. Paralelamente, a população foi orientada a suspender a prática de exercícios físicos em áreas abertas.

No Passeio do Mindu, um dos principais espaços de lazer e prática esportiva da Zona Centro-Sul de Manaus, a barista Anne Gabrielly Ribeiro, de 19 anos, também sentiu os efeitos da crise ambiental na rotina de trabalho. Funcionária de uma loja de smoothies, ela relata que o movimento de frequentadores caiu à medida que a fumaça se intensificou e afastou corredores, skatistas e usuários das quadras poliesportivas.

“Nós sentimos bastante, querendo ou não. Como trabalhamos em um espaço aberto, passou a vir menos pessoas. Chegou num ponto em que a fumaça era tanta e a qualidade tão ruim que passamos a distribuir máscaras para os clientes e outras pessoas. Houveram dias que os funcionários passaram mal. Eu mesma fiquei, tendo de ficar um dia sem trabalhar”, detalhou Anne.

Menos clientes

Na Ponta Negra, um dos espaços públicos mais frequentados de Manaus e palco da Faixa Liberada às quartas-feiras e aos domingos, o empresário Caio Lobato, de 39 anos, sentiu os impactos da crise ambiental no próprio negócio. Com o cancelamento de eventos e atividades esportivas, a procura pelo aluguel de patinetes e triciclos caiu significativamente.

“Eu percebi que a fumaça prejudicou bastante, porque as pessoas evitavam sair de casa, seja para passear, seja para se exercitar. Deixaram inclusive de trazerem seus filhos para brincarem. Isso gera um impacto direto no nosso trabalho, com o aluguel de patinetes e triciclos. Houve uma queda brusca no número de aluguéis por dia”, revelou Caio.

Saúde em primeiro lugar

Apesar da queda no faturamento e das dificuldades enfrentadas durante os períodos mais críticos da fumaça, trabalhadores e empreendedores compreendem a necessidade das restrições impostas pelas autoridades. Para eles, o cancelamento de eventos, a suspensão de atividades esportivas e as recomendações para evitar exercícios ao ar livre representam medidas essenciais para proteger a saúde da população.

​“Quanto a essa medida da restrição, acredito que seja ideal porque realmente prejudica muito a saúde das crianças e das pessoas. A gente está aqui porque realmente dependemos do nosso trabalho, mas vejo como correta a restrição. E aí agora com as chuvas, vai começar a melhorar e vamos voltar a ter a nossa vida normal de novo”, assegurou o empresário Caio Lobato.

À medida que a fumaça perde intensidade e os indicadores de qualidade do ar apresentam melhora, os espaços públicos de Manaus voltam a registrar maior circulação de pessoas. O cenário tem contribuído para uma recuperação gradual das atividades ligadas ao esporte e ao lazer.

“Sinto que nossa situação amenizou bastante. Lembro que quando eu acordava, eu sentia o cheiro da fumaça dentro do meu quarto e nesses últimos dias eu não estou sentindo mais. Aqui na loja, antes nós fazíamos até 25 vendas. Hoje o número está baixo, mas com a qualidade do ar melhorando, as pessoas estão começando a vir de volta”, assegurou Anne Gabrielly.

Apesar dos prejuízos acumulados durante os períodos mais críticos da crise ambiental, a percepção entre os trabalhadores é de que o pior ficou para trás. Aos poucos, parques, praças e espaços esportivos voltam a receber frequentadores, alimentando a esperança de retomada econômica para quem viu a renda diminuir em meio à fumaça que encobriu Manaus.

“Boa parte das vendas foi bem afetada em relação a isso, mas a população fez o correto de se isolar, porque até nós mesmos, no trabalho ou na rua, sentimos a fumaça, respirava e vinha aquele incômodo. Houve alguns momentos que não saímos para fotografar e o correto mesmo é se resguardar. Hoje nós estamos vendo o retorno das faixas, a expectativa é boa e a gente vai voltar a vender novamente”, finalizou Kassio Melo.

Fumaça e qualidade do ar

A fumaça das queimadas está associada à presença de material particulado fino, como o PM2,5, que pode penetrar profundamente no sistema respiratório. Em outubro, dados oficiais registraram episódios de concentração de poluentes acima dos níveis recomendados para a saúde em Manaus.

Ar péssimo

Manaus chegou a registrar 200 µg/m³ de PM2,5 em 8 de outubro. Acima de 125 µg/m³, a concentração é classificada como “péssima” na escala de qualidade do ar. Agência Brasil

​99 µg/m³ em um dia

Em 8 de outubro, a média diária de PM2,5 registrada pela estação da Fiocruz em Manaus chegou a 99 µg/m³, mais de seis vezes o valor diário de 15 µg/m³ recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Serviços e Informações do Brasil

​+10,5% nos atendimentos

A rede municipal registrou 5.452 atendimentos por doenças respiratórias em setembro, contra 4.934 em agosto. A Semsa, porém, não atribui diretamente o aumento à exposição à fumaça. CNN Brasil

​3.240 focos no Amazonas

Entre 1º e 22 de setembro, foram registrados 3.240 focos de calor no Estado, contra 942 no mesmo período de 2025, segundo dados do Inpe reunidos pelo MPC-AM. MPC AM

​O que isso significa?

Além dos efeitos sobre a saúde, a piora da qualidade do ar reduz a circulação de pessoas em parques, praças e espaços esportivos — justamente onde trabalham os personagens desta reportagem.

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