Jeitinho mineiro de ser na ‘Terra de Camões’
Morando desde os nove anos de idade em Portugal, estudante de design gráfico é recepcionista de um hostel
Lisboa, Portugal – Nascido em Ipatinga, Minas Gerais, o estudante de design gráfico, Thales Silva, 25 anos, se mudou em 2009, aos nove anos de idade, ao lado da mãe e do irmão para Portugal, onde iria encontrar os tios e o pai, que já se encontravam em terras portuguesas desde 2003. O objetivo era buscar estabilidade financeira e qualidade de vida, enxergando a possibilidade de viver o sonho europeu, morando e trabalhando no Velho Mundo.
O segundo episódio da série “Um amazonense pela Europa” conta o caminho nada fácil enfrentado por esse mineiro. Segundo o brasileiro, a adaptação, principalmente na infância, foi um dos entraves superados por ele.
“No início, foi bastante complicado. No Brasil, desde pequeno, sempre tive a liberdade de brincar na rua – jogar bola, pique-esconde, essas coisas que marcaram a fase de criança. Senti muita falta disso ao chegar em Portugal, já que não era algo comum no bairro onde fomos morar. Foi um começo solitário, principalmente porque meu irmão só veio alguns meses depois,” recorda o mineiro.

Thales Silva trabalha como recepcionista e a mãe como chefe de limpeza no mesmo hostel (Foto: Arquivo Pessoal)
A migração também trouxe um choque de culturas. Thales enfrentou barreiras linguísticas e, em alguns casos, xenofobia, principalmente no ambiente escolar.
No entanto, contou com o apoio de uma comunidade brasileira acolhedora na Costa da Caparica, onde ele pôde reviver a sensação de pertencimento que não conseguia mais identificar.
“Crescer em Portugal foi um desafio. A principal diferença foi o estilo de vida: no Brasil, eu podia brincar na rua com liberdade, enquanto aqui era tudo mais dentro de casa. Na escola, tive bastante dificuldade com o português europeu e também sofri xenofobia por parte de alguns professores por ser brasileiro. Ser imigrante nem sempre é fácil; muitas vezes, somos colocados para baixo, ” relata o estudante de design gráfico, destacando a importância do apoio que teve por parte de brasileiros que moravam no país há mais tempo.
“Morei na Costa da Caparica, onde a comunidade brasileira era grande. Isso me ajudou muito na adaptação. Voltei a ter aquela sensação de estar em casa, brincando na rua, com amigos, rodeado de pessoas da minha cultura. Isso foi essencial para o meu bem-estar, sem dúvida,” afirma.
Vida em Lisboa e trabalho no Hostel
Atualmente, Thales trabalha no Yes Lisbon Hostel, localizado na rua São Julião, 148, Santa Maria Maior, onde seus dias são preenchidos realizando a recepção de hóspedes e a gestão do bar e, principalmente, compartilhando a simpatia e “ginga”, características típicas e marcantes de um bom brasileiro da gema. Inicialmente, ele foi contratado para o turno da madrugada, quando suas habilidades em inglês estavam longe do ideal, mas a oportunidade lhe garantiu outras possibilidades.
“Fui contatado pelo hostel para uma vaga de recepcionista no turno da madrugada (00h-08h), através da minha mãe, que também trabalha na empresa como chefe de limpeza. Tinha um nível básico de inglês que aprendi na escola, mas isso acabou sendo uma barreira na comunicação com os hóspedes. Como o inglês era essencial, fiquei alguns meses no turno da madrugada para poder desenvolver melhor a língua. Com o tempo, fui melhorando e consegui ser transferido para os turnos da manhã e da tarde, que combinavam mais comigo e com meu jeito de me relacionar com os hóspedes,” recorda.
Conexão
Para Thales Silva, mesmo diante de algumas diferenças, existe uma conexão significativa entre brasileiros e portugueses no ambiente de trabalho. Apesar das divergências culturais, ele acredita que elas se misturam de uma forma que resulta em uma equipe interessante e forte.
“O que mais gosto da cultura portuguesa é a culinária. Por outro lado, a forma direta de se expressar me causou estranheza – os portugueses vão direto ao ponto, sem o jeito mais descontraído e simpático que os brasileiros costumam ter. No início, achei que estavam sendo rudes comigo, mas depois compreendi que era apenas
o jeito deles”, analisa.
Paixão pelo Design
Thales Silva, enquanto trabalha no hostel, mantém viva uma de suas maiores paixões: o design gráfico. Desde cedo, ele despertou interesse pelas artes visuais e viu no ambiente de trabalho a oportunidade perfeita para aplicar suas habilidades. “Criei cartazes, menus de jantar e até ajudei na estampagem de uniformes. Isso foi uma excelente maneira de expressar minha criatividade e talento na área”, comenta.
O desenvolvimento de sua carreira em design vai além da rotina diária no albergue. Durante seu tempo livre, Thales se dedica a projetos variados, incluindo ilustrações, criação de imagens publicitárias e fotografia de eventos. Ele também realiza trabalhos freelance para amigos e conhecidos, o que tem sido essencial para sua experiência prática e para a construção de uma rede de contatos na área.
“Trabalho no hostel em tempo integral, mas como hobby, continuo realizando projetos de design gráfico, como ilustrações e cartazes. Também me envolvo com fotografia e videografia de eventos noturnos e retratos, além de atender alguns pedidos como freelancer”, explica.
Com novos projetos e perspectivas à frente, Thales sonha em abrir sua própria marca de roupas voltada para o streetwear. Ele acredita que um curso de design gráfico o ajudará a aprimorar suas criações e a desenvolver a marca que sempre desejou. “Quero continuar aprendendo e buscando estágios que me proporcionem conhecimento prático”.
Sonhos
Além de planejar sua marca de roupas streetwear, Thales Silva carrega outro grande sonho para o futuro. “Meu objetivo é viajar por toda a Europa, descobrir novos lugares e vivenciar diferentes culturas e experiências”, ompartilha. Ele ainda oferece um conselho aos brasileiros que desejam sair do país em busca de novas oportunidades: “Ser imigrante não é fácil, mas proporciona uma nova perspectiva de vida e cultura. É fundamental ter força de vontade, cuidar da saúde mental para não se perder no caminho, e manter o foco para crescer de maneira saudável. Ter amigos uma rede de apoio na comunidade”.