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Jornalistas e o desafio de cobrir feminicídio

Elas relatam os desafios emocionais e profissionais em um cenário de aumento da violência de gênero

Publicado em 07/03/2026 às 20h23 · Atualizado em 15/04/2026 às 12h32
Jornalistas e o desafio de cobrir feminicídio
Foto: Jorge Alberto/Studio C/A Crítica

Mulheres e a difícil missão de noticiar o assassinato de outras mulheres. De acordo com a nota técnica Retrato dos Feminicídios no Brasil, elaborada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025 foram registradas 1.568 mulheres vítimas desse crime no país — um aumento de 4,7% em relação a 2024. No Amazonas, 20 mulheres foram assassinadas por violência de gênero. No exercício da profissão, as jornalistas Vanessa Alcântara, 35; Priscila Melo, 33; e Graziela Pinheiro, 25, lidam com essa realidade.

Vanessa é subeditora do caderno de Cidades no jornal A Crítica, onde começou como repórter há oito anos. Os números de feminicídio e violência doméstica ainda a assustam a profissional.

“Hoje, no Brasil, são mais de 1.500 casos computados de feminicídio. Quando paramos para pensar, é uma média de quatro mulheres assassinadas por dia, pelo fato de serem mulheres. Isso ainda me impacta: sermos mulheres já nos coloca nessa condição. É difícil, enquanto mulher e jornalista, receber esse tipo de notícia”, refletiu Alcântara.

Dos casos que já noticiou, Vanessa destaca o feminicídio de Débora da Silva Alves, de 18 anos, ocorrido em julho de 2023, que causou forte comoção. A jovem, que estava grávida de oito meses de um menino, foi morta por Gil Romero Machado Batista, pai da criança, e José Nilson Azevedo da Silva.

Conforme denúncia do Ministério Público do Estado do Amazonas (MPE-AM), Débora foi asfixiada e teve o corpo queimado em um tonel. Gil ainda retirou o bebê do ventre da vítima. Os dois acusados irão a júri popular, mas a data do julgamento ainda não foi definida.

“Naquele dia, eu lembro que o repórter chegou com as informações. Quando eu li a matéria e vi as fotos, dos poucos casos que me abalaram, esse me fez chorar. Eu fiquei sensibilizada, porque se tratava de uma jovem de 18 anos, com uma vida pela frente, e teve seus sonhos interrompidos. E ela só queria cuidar do filho dela. Uma família foi destruída”, lamentou Vanessa.

Forte impacto

Com 11 anos de experiência em telejornalismo, Priscila Melo, relatou que casos de feminicídio ainda desencadeiam fortes emoções.

“Quando informamos um feminicídio, é muito assustador saber e imaginar a maneira como tudo aconteceu. É assustador saber como um homem foi capaz de tirar a vida de uma mulher que muitas vezes foi a companheira de vida, a mãe dos filhos dele”, disse. “Pelo que eu percebo, a motivação é pelo sentimento de posse. Eu acredito que o homem quer aquela mulher para ele, e ela não pode ser de mais ninguém”, avaliou Melo, que atua como repórter na TV A Crítica.

O feminicídio da jovem Manuella Sabrina Barros Queiroz, 23 anos, pelo ex-companheiro Antônio Márcio Silva de Castro, 52 anos, no dia 8 de junho de 2025, dentro de uma quitinete no bairro Novo Aleixo, zona Norte da cidade, gerou grande impacto em Priscila.

Antônio foi preso, julgado e condenado a 66 anos, 10 meses e 15 dias de reclusão em regime fechado. Além do feminicídio de Manuella, o condenado também respondeu pelo homicídio de Victor Hugo Flores, 27 anos, companheiro da jovem. Os dois foram mortos a tiros na frente da filha de Manuella.

“Ele não aceitava o fim do relacionamento. A própria polícia falou que tudo foi motivado por ciúme. Ela (Manuella Sabrina) já estava com um novo companheiro (Victor Hugo), ele (Antônio) foi até onde ela (a vítima) estava e matou os dois. E para piorar o crime foi cometido na frente da filha dela. O lado humano torce para que ele seja condenado, e como de fato ele foi, o meu lado humano sente um alívio”, disse Priscila.

Medo diante de tantos casos

Graziela Pinheiro há cinco anos, conta histórias como jornalista e algumas dessas histórias são de feminicídio.

“Os casos contra mulheres e crianças sempre me pegam bastante. É a dinâmica do crime, como foi praticado, pensado e executado. A dor da família me toca de uma maneira muito profunda. O nosso lado pessoal sempre quer aflorar de alguma forma quando estamos nesses cenários lamentáveis. O ‘caso Débora’ me pegou muito forte, eu sendo mãe. É difícil imaginar os requintes de crueldade. A frieza em tirar a vida de uma mulher e também de uma criança. Era uma jovem cheia de vida”, relembrou.

Mãe de menina de cinco anos e repórter na TV A Crítica, Graziela afirmou que sente “medo” ao pensar no futuro diante de tantos casos de violência de gênero.

“Eu como mãe, de uma menina, sinto medo. Eu tento conversar com a minha filha desde cedo, apesar dela ser uma criança, de que nem todos são confiáveis. É desafiador hoje ser mulher na sociedade em que a gente vive”, disse Grazi.


Major Priscila Alencar destaca que a Ronda Maria da Penha é o elo que garante o cumprimento das medidas protetivas (Jorge Alberto/ Studio C/ A Crítica)

 

Mais de 14 mil Medidas Protetivas só em 2025

O feminicídio é o ponto final de um ciclo de violência. A denúncia continua como a ferramenta mais eficaz para preservar a vida de quem vive em situação de violência doméstica. Com a formalização, é concedida à vítima uma Medida Protetiva de Urgência (MPU).

Conforme dados do Justiça em Números, plataforma do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), um total de 14.325 MPUs foram concedidas no âmbito da Justiça Estadual do Amazonas no ano passado. Manaus concentrou 7.460 MPUs. O painel aponta ainda que somente em janeiro deste ano já foram concedidos 1.425 MPUs em todo o estado, 591 somente na capital.

Com a MPU concedida, essa vítima de violência doméstica passa a ser acompanhada pela Ronda Maria da Penha da Polícia Militar do Amazonas (PMAM) com visitas periódicas na casa ou trabalho da vítima. Atualmente, 420 mulheres são acompanhadas pela ronda.

A major Priscila Alencar, comandante da Ronda Maria da Penha em Manaus frisa a importância da denúncia e do acompanhamento dessas vítimas.

“Nós vamos fazer essas visitas periódicas, marcadas com elas. Justamente para fiscalizar se essa medida está sendo cumprida, se ela está se sentindo segura, se o agressor voltou a tentar contato. Durante as fiscalizações, vai até a residência ou até mesmo ao trabalho, onde ela se sentir segura. A equipe vai fazer essa escuta ativa, acolher essa vítima, verificar como ela está se sentindo, se a medida tem sido respeitada. Essa equipe vai ouvir essa mulher”, disse a Major.

Com 14 anos de carreira na polícia militar, a major ainda se impressiona com tamanha violência contra mulheres.

“Como pode o lar, onde deveria ser um local seguro e de descanso, como pode justamente a agressão vir desse ambiente que deveria ser de segurança. Nós presenciamos agressões físicas que mutilam muitas vezes, causam danos permanentes, sequelas físicas e psicológicas na vida dessas vítimas. Nosso acompanhamento é justamente para que essa mulher não seja vítima de feminicídio”, destacou a major.

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