Juíz de paz dá o tom para o ‘sim’ no altar
O trabalho do profissional é orquestrar, com gestos e palavras, o início de uma jornada compartilhada: o casamento
Entre papéis e celebrações, o trabalho deles vai muito além de oficializar uniões. Os juízes de paz orquestram, com gestos e palavras, o início de uma jornada compartilhada: o casamento. E para quem acha que essa formalidade toda acontece apenas dentro de um cartório, está enganado. Eles já casaram casais dentro de um carro, em um flutuante embalado pelo banzeiro do rio, e vivenciaram histórias emocionantes e inusitadas.
A paulista Alessandra Contiero atua como juíza de paz em Manaus há quase uma década. Formada em Direito, ela conta que, desde a faculdade, já se interessava pela área de Família, mas com a visão inicial voltada mais para questões de separações e as “brigas” de família no campo do Direito. Porém, foi atuando como juíza de paz que ela pôde vivenciar momentos memoráveis da união entre casais.

(Foto: Jeiza Russo)
Ela conta que, durante a pandemia, muitos casamentos foram oficializados através de videochamada, devido às restrições. Em uma das celebrações, um casal acabou indo presencialmente ao cartório e descobriu lá que o casamento seria por videochamada. Como não daria tempo de voltar, ela acabou formalizando a união de forma virtual com os noivos dentro do carro.
“Eles se desesperaram porque não daria tempo de voltar para casa, e a gente celebrou o casamento dentro do carro”, relembra. “Mas também já casei gente no tatame, eles praticavam jiu-jitsu e casaram vestidos com o kimono. Já teve noivo com camisa de time, ele chega lá, a noiva toda arrumada e o noivo com a camisa do time do coração. Mas vamos lá, vamos casar, é assim”, disse Alessandra, ao destacar que busca um equilíbrio entre a formalidade e o desejo dos noivos.
Dedicação

O juiz de paz Wallace Brasil já oficializou diversos casamentos e alguns deles em lugares inusitados (Divulgação)
O capixaba Wallace Brasil mora na capital amazonense há 50 anos e, há 9, atua como juiz de paz. Por 29 anos, ele trabalhou no Cartório 3º de Registro Civil e, por um longo período, foi o responsável pelos casamentos no cartório como escrevente, acompanhando os juízes de direito nas celebrações de casamentos em festas e nos coletivos.
“Quando o Tribunal instituiu a figura do juiz de paz para celebrações de casamentos, vi uma grande oportunidade de realmente fazer o que eu mais gostava e a possibilidade de estar à frente nas celebrações de casamentos. Concorri à vaga e estou há 9 anos na função”, disse.
Momentos inusitados e memórias duradouras
Assim como Alessandra, Wallace Brasil também tem, em sua trajetória profissional, muitas histórias incomuns e até mesmo situações inusitadas do tão aguardado momento de “casar de papel passado”.
Ele relembra um casamento realizado em um flutuante pequeno no meio do rio, embalado pelo banzeiro. Em outra ocasião, o vestido da noiva rasgou no caminho e, para compensar o atraso de três horas para consertá-lo, ela resolveu antecipar a liberação de comidas e bebidas para os convidados que aguardavam.
“No flutuante, cabia somente eu, os noivos, as testemunhas e um fotógrafo. E, por ser bem pequeno, não tinha estabilidade e ventava muito. Eu, que ficava em pé, tive que celebrar me segurando, e quem estava sentado não conseguia ficar em posição fixa. Aí você imagina todos indo para lá e para cá o tempo todo”, contou sorrindo.
Atribuição de um juiz de paz
Em Manaus, segundo informou a juíza de paz Alessandra Contiero, há cinco juízes de paz, e o requisito é ser formado em Direito.
No Amazonas, a função se restringe à análise do processo de habilitação, celebração e oficialização do casamento, embora, em outros estados, haja também responsabilidades administrativas e de conciliação ligadas à função.
Para desempenhar bem o papel de juiz de paz, Wallace Brasil acredita que é fundamental entender que o momento é do casal. Além disso, ele destaca também a importância da boa oratória, clareza na fala e carisma, habilidades que também foram citadas pela juíza de paz Alessandra.
“Acredito que, primeiramente, tenho que entender que o momento é do casal. É um sonho. Eu estou somente para oficializar o casamento, entendo isso, não criando nenhum obstáculo. Faço sempre como o casal deseja naquele momento”, destacou Wallace.