Julho Verde alerta para os riscos do cigarro eletrônico na saúde de jovens e adolescentes
Especialistas destacam relação entre o uso de vapes e o aumento nos casos de câncer de cabeça e pescoço; Brasil já soma quase 3 milhões de usuários
Aos 25 anos de idade, o assistente jurídico Lucas Santana aproveita os benefícios de ter parado de usar cigarro eletrônico, também conhecido como “vape”. Ele entrou na vida do “jovem por curiosidade” e também pela premissa (contrariada por médicos) de que é menos nocivo do que o cigarro tradicional. O uso era recreativo, em momentos de tempo livre, mas rapidamente os efeitos colaterais ficavam visíveis.
“Você começa a usar a nicotina para aliviar a tensão do dia a dia, estresse do trabalho, faculdade. Usa uma vez e percebe que o corpo relaxou um pouco, quando vê já usou por meses. Decidi parar quando percebi que ele aliviava temporariamente, mas depois vinha meio que dobrado. A ansiedade vinha mais forte”, comentou Santana.
O uso desse tipo de dispositivo está relacionado a casos de câncer de cabeça e pescoço. De 2018 a 2023, o número de usuários de vapes no Brasil saltou de 500 mil para 2,9 milhões, segundo dados do Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec).
A estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca) é de 39 mil novos casos por ano. No Amazonas, são esperados 340 novos casos de câncer de cabeça e pescoço neste ano, sendo 260 só em Manaus, com destaque para tumores de cavidade oral, laringe e tireoide.
Assistente Jurídico Lucas Santana parou de usar o vape e, hoje, sente os benefícios de ter parado de usar o cigarro eletrônico (Foto: Jeiza Russo/ A Crítica)
Julho Verde
Diante destes dados, o mês de julho ganha uma conotação de maior mobilização para os profissionais da saúde empenhados em reduzir os casos de câncer de pescoço e cabeça. A conscientização é a principal forma de evitar alta dos diagnósticos e os especialistas alertam que o acesso à informação é fundamental. O cirurgião de Cabeça e Pescoço, Jefferson Medeiros, lembrou que os materiais nocivos dos cigarros eletrônicos são velhos conhecidos de toda a comunidade médica.
“Tudo o que tem lá dentro [do vape], a gente já conhece. Nicotina, metais pesados, e outras substâncias que trazem problema para o corpo. Em muitos pacientes que usam, em cinco anos de uso diário, apresentam alterações pulmonares que a gente só via em pacientes que fumavam cigarro normal após 30 anos”, explicou.
Dr. Jefferson Medeiros é cirurgião de Cabeça e Pescoço alerta sobre os risco de câncer em decorrência do uso contínuo do dispositivo (Foto: Paulo Bindá/ A Crítica)
Como exatamente o vape atinge a região a ponto de poder acusar o câncer? Medeiros explicou que, na realidade, é bastante comum pensar apenas nos prejuízos causados ao pulmão, no entanto o mecanismo de mudança do corpo é praticamente o mesmo na região da cabeça e pescoço. O que ocorre é que as células passam por uma espécie de mutação para poder suportar os efeitos colaterais do vício. Nessa alteração que reside a chance de um câncer surgir.
“Imagina que as células da nossa boca sejam quadradas, mas não estão acostumadas com as substâncias que têm no vape. Para elas conseguirem sustentar isso, vão modificar de forma; quando você tem essa mudança, de repente, pode ter um start e essa célula virar um câncer”, disse.
Largar o vício é algo que pode ser difícil para muitas pessoas, mas é possível com ajuda e bastante foco. O assistente jurídico Lucas Santana, por exemplo, priorizou atividades físicas para passar o tempo e ter a “recompensa” química de prazer, dessa vez promovida por aquilo que estimula a saúde. Depois de alguns meses, o humor melhorou e também o corpo.
“Tomei a decisão de parar, não dá pra usar com menos frequência. A atividade física me ajudou, com certeza. A minha aparência melhorou, já não tenho mais aquela cara de cansado”, relatou.
Perfil dos usuários
É de extrema importância também entender quem são as pessoas com potencial para desenvolver a doença. É claro que existe um fator genético que influencia com bastante relevância o surgimento das células cancerígenas; porém, quando associamos o cigarro eletrônico fica claro que há um perfil dos usuários. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já realizou um estudo de abrangência global que indicou que 16% dos adolescentes entrevistados de até 13 anos já haviam usado o vape. O percentual sobre para 32% no caso da faixa etária de 15.
Adolescentes
No caso do Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgou que quase 17% dos adolescentes de 13 a 17 anos confirmaram que fizeram uso pelo menos uma vez. O pico de uso, com mais frequência, começa aos 14 anos. Outros estudos também sugerem que a procura pelo aparelho pode estar relacionada a problemas de saúde mental. Nestes casos, o vício seria a “válvula de escape” para crises como ansiedade ou mesmo depressão.
Aceleração dos malefícios
O doutor Jefferson Medeiros explicou que, por causa da maior quantidade de produtos tóxicos e nicotina no vape, ele acaba por acelerar os efeitos negativos do uso do tabaco, por exemplo.
Por causa disso, é importante estar alerta aos sinais de problemas de saúde graves: feridas na boca que não cicatrizam após duas semanas; dor persistente ao engolir; rouquidão ou mudança na voz por mais de 15 dias; caroços no pescoço e sangramentos sem causa aparente são os principais sintomas.
Com o diagnóstico precoce, as chances de que a doença não se desenvolva de forma expansiva diminuem na mesma proporção de que se aumentam as taxas de sucesso do tratamento; bem como de procedimentos cirúrgicos menos invasivos. No caso de qualquer um dos sintomas acima citados, é indispensável procurar um médico para os primeiros diagnóstico.
“No caso do câncer de cabeça e pescoço, a deformidade é visível. Quanto mais precoce eu tenho, chance maior de cura e menor deformidade. Se o paciente tem um câncer na língua, a gente precisa tirar um pedaço dela. Se o tumor for pequeno, o pedaço retirado também, mas já tive paciente que perdeu metade dela”, explicou.