Manaus qua, 21 out
A Crítica
Geral

Manaus avança, mas expõe desigualdade

Apesar de promessas históricas de políticos para redução da desigualdade, capital continua a puxar para si crescimento

Publicado em 23/04/2026 às 09h35 · Atualizado em 23/04/2026 às 12h07
Manaus avança, mas expõe desigualdade
Foto: Dave Lonsdale/reprodução

A nova PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que Manaus acentuou, ao longo de 13 anos, a sua dominância sobre os outros 61 municípios do Amazonas. No período, a população do estado teve um acréscimo 625 mil pessoas, no entanto, mais da metade (386 mil) deste total ocorreu apenas na capital. Para especialistas ouvidos por A CRÍTICA, os dados populacionais ajudam a explicar como como a maior concentração de habitantes cria uma distorção sobre a destinação dos recursos e políticas públicas, priorizando onde está a maior quantidade de pessoas (e naturalmente de eleitores) em detrimento de outras localidades.

Os dados da PNAD Contínua mostram que, de 2012 para 2025, a população da capital cresceu de 1,918 milhão pessoas para 2,304 milhões, enquanto o número de habitantes do estado subiu de 3,5 milhões para 4,1 milhões. O IBGE também afirma que há certa tendência de manutenção dessa característica da cidade para os próximos anos, uma realidade com a qual muitos estão acostumados, mas que nem sempre foi assim.

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) César Augusto Queirós explica que essa concentração populacional é o resultado de um fenômeno histórico associado a escolhas políticas, econômicas e institucionais. Ele compreende como o início dessa densidade de habitantes o ciclo da borracha, a principal base de riquezas do estado entre 1870 e 1913, mas que o adubo dessa semente foi a instalação da Zona Franca de Manaus. “Para se ter uma ideia do tamanho do impacto da Zona Franca, basta a gente lembrar que na década de 70 a população da cidade girava em torno de 280 mil habitantes. Nos anos seguintes teve um boom muito significativo e hoje passa de 2 milhões; um crescimento em grande medida devido à imigração em função dos empregos gerados pela Zona Franca”, comentou.

No último ano, o Produto Interno Bruto (PIB) do Amazonas alcançou R$ 48,14 bilhões no 4º trimestre, 7% a mais do que no mesmo período de 2024 e contribuiu para o crescimento real da economia amazonense em 3,29%. Os dados do Governo do Amazonas mostram que os setores da indústria e serviços movimentaram R$ 39,24 bilhões no período. Manaus é responsável por cerca de 70% da geração deste PIB.

MANAUS QUE OFUSCA

O bairro Jorge Teixeira, na zona leste de Manaus, possui 133.448 habitantes de acordo com o IBGE. O município de Itacoatiara (segundo mais populoso no Amazonas) tem 103.598 habitantes. Esse é um exemplo prático do que o doutor em Geografia Humana e professor do Departamento de Geografia da Ufam, Marcos Castro, chama de efeito “ofuscador” que a capital do estado tem. Quando um bairro apenas abriga mais que uma cidade, e a segunda maior em população, não é surpresa que a atenção do poder público se concentre nele.

“Isso amplia a desigualdade entre Manaus e outros núcleos urbanos porque ela captura todo esforço orçamentário, político e s demais cidades do interior ficam nessa deficiência para o próprio desenvolvimento. Manaus é como se fosse uma grande luminária que brilha e ofusca os demais municípios”, afirmou.

O professor César Queirós acredita que esse fator contribui para um ciclo que favorece a densidade demográfica em Manaus. Os demais municípios, desamparados, ficam sem serviços públicos básicos como acesso à educação ou rede de atendimento médico de média e alta complexidade. O resultado é mais gente saindo do interior e buscando a capital como fonte de boas oportunidades.

Ele também lembra que desde o governo de Álvaro Maia o Estado já discutia estratégias para lidar com as levas migratórias em direção à Paris dos Trópicos. Nas discussões, a manutenção da mão de obra no interior e a ideia de barrar um inchaço populacional. Atualmente a classe política fala em turismo, mineração e bioeconomia como as alavancas para o desenvolvimento no interior.

Queirós, defende que os esforços sejam para potencializar as riquezas nativas desses municípios, mas para isso é preciso que o investimento se traduza em serviços públicos básicos eficazes. “A oferta de serviços públicos de rede urbana nos municípios do interior é essencial. Nesse sentido, a expansão do ensino universitário e técnico permite a formação de quadros a partir da qual as pessoas podem estudar no seu lugar de origem. É uma estratégia fundamental para se criar um corpo qualificado para gerar uma rede capaz de atender as demandas do interior”, disse.

 

Cidade sofre com falta de habitação

 

E quando o assunto são os que não têm onde morar, também se vê crescimento. Os dados da Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania (Semasc) mostram que nos três primeiros meses deste ano a quantidade de pessoas em situação de rua cresceu, em média 36% na comparação com 2025. Apenas em março, o total chegou a 3.448 homens e mulheres.

Marcos Castro destaca que embora a parcela mais pobre da população na cidade seja a mais contundentemente afetada por problemas socioambientais nem mesmo quem tem acúmulo de riquezas é blindado totalmente de experenciar essas mazelas. “São áreas que convivem com a chuva; e populações que vivem com medo de alagamentos e desbarrancamentos; é uma “geoansiededade”, um medo causado pela localização onde vivem. De alguma forma todos sofrem o problema de uma cidade com falta de drenagem, a cidade infarta. Muitas vias ficam inundadas com a chuva e aí niguém consegue passar; pode ser a Mercedez ou a bicicleta”, explica.

 

Capital vive os próprios problemas

 

Mas ainda que a capital concentre população e produção de riqueza, a cidade vive sua própria desigualdade histórica. Para Marcos Castro, essa riqueza não se traduz na “expressão espacial” da cidade, marcada pela desigualdade de uma população que, no mesmo espaço, abriga moradores de mansões e de “barracos”. Castro vai além e explica que os índices de prosperidade, como o PIB, criam uma ilusão de acessibilidade, de que esse motor que desenvolve e mantem a classe alta pode beneficiar a todos.

“Ocorreu uma migração de famílias que vinham em busca de uma oportunidade na metrópole Manaus. Ela se tornou uma ilusão de busca; muitas famílias vinham e se deparavam com a dura realidade de que não havia essa oportunidade para todos. Quando chegavam aqui na cidade elas iam enfileirar a massa da pobreza”, disse.

 

Expansão exige maior preparação

 

Manaus é a sexta cidade do país no ranking das mais ricas, ano após ano registra índices de crescimento econômico, de concentração populacional, mas também de dados que escancaram o problema da desigualdade. Esse cenário não afeta apenas o que as pessoas vestem, comem, ou como se locomovem, mas até mesmo as suas próprias vidas.

No primeiro bimestre de 2026, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) divulgou que a cidade é a capital nacional de áreas classificadas como de risco geológico entre as 1.803 mapeadas. Com 438 registros, ela fica na frente de Ouro Preto (MG), com 313 áreas; Nova Friburgo (RJ), com 254; e Brusque (SC), com 199 registros.

Nesses locais, em Manaus, vivem 112.104 pessoas residentes em 28.026 domicílios. Famílias que estão sujeitas a ocorrências como os deslizamentos, casos de erosão, alagamento ou inundação.

Leia também

Voltar para Geral