Marquise quer colocar Aterro do Amazonas em funcionamento
O modelo é similar ao Aterro Municipal de Caucaia, em Fortaleza, e recebeu investimento superior a R$ 200 milhões
A Marquise Ambiental pretende ativar o Centro de Tratamento e Transformação de Resíduos do Amazonas. A empresa investiu mais de R$ 200 milhões no projeto como alternativa ao aterro controlado municipal, que tem funcionamento autorizado apenas até 2028.
O aterro projetado para Manaus está localizado na BR-174. Segundo a Marquise, caso entre em operação, poderá abastecer 170 mil residências com gás natural extraído do chorume dos resíduos descartados na área. Além disso, o centro de tratamento tem capacidade para purificar 250 mil litros de água para reuso industrial, utilizando o mesmo sistema adotado na unidade de Fortaleza.

Chorume ()
A reportagem do jornal A Crítica visitou o Aterro de Caucaia, onde todo o resíduo de Fortaleza e Caucaia é descartado e tratado. O plano da Marquise é replicar esse processo em Manaus.
Atualmente, a unidade de Caucaia é referência no tratamento de resíduos sólidos. Além disso, responde por 15% da produção de gás natural do estado do Ceará, obtido a partir do resíduo. O aterro também gera adubo orgânico e mais de duas mil mudas de plantas nativas por mês para reflorestamento.
A Marquise informou que a decisão de investir no aterro do Amazonas surgiu após as determinações para fechamento do aterro municipal de Manaus (o único do estado) em 2023. Inicialmente, o prazo de funcionamento foi estendido até 2024 e, posteriormente, em decisão do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), até 2028. Nos demais municípios do estado, os resíduos ainda são descartados em lixões a céu aberto ou queimados.
O diretor comercial da Marquise, Thiago Levy, destacou que a empresa considera o Amazonas uma região estratégica para aprimorar o tratamento de resíduos.
“Esse investimento veio pois sabemos que, em Manaus, o resíduo concentrado nessa região representa 70% do gerado no Amazonas como um todo. Então, se você resolve o resíduo desta região, resolve 70% do problema do estado. O Amazonas deixaria de ser o que menos destina de forma adequada e passaria a ser o que melhor destina”, afirmou.
Para viabilizar esse planejamento, a Marquise e a Tumpex Coleta de Lixo precisaram manter três cooperativas definidas pela prefeitura como parte do contrato de coleta na capital.
Transição Energética
Thiago Levy também ressaltou a importância de Manaus para questões ambientais. Durante sua apresentação, afirmou que a unidade da cidade poderá produzir mais de 80 mil metros cúbicos de biometano (um gás obtido a partir da purificação do biogás, gerado na decomposição de resíduos orgânicos).
Segundo o diretor comercial, antes da implantação do aterro de Caucaia, o biogás não era aproveitado, assim como ocorre atualmente em Manaus.
“Antes, se confinava os resíduos e os gases eram queimados. Agora, existe uma destinação e captação”, explicou.
Levy também afirmou que o aterro poderá gerar adubo, água e energia.
“Manaus é o primeiro aterro que queremos fazer os dois”, destacou.
No Ceará, a captação de gás já é uma realidade. A GNR Fortaleza se destaca como a primeira usina de tratamento de biogás do Norte e Nordeste. O empreendimento, fruto de uma parceria entre a Marquise Ambiental e a Ecometano, está localizado no Aterro de Caucaia. A planta possui um sistema de tratamento de gás natural renovável e já atingiu a capacidade de produção de 100 mil m³ de biometano por dia, tornando-se a segunda maior unidade do gênero no Brasil.
A GNR representa 31% da produção de biometano no país. Levy explicou que, para viabilizar a produção desse gás em Manaus, é essencial que o aterro entre em funcionamento.
“Começamos a colocar resíduo e ele só começa a produzir biometano suficiente para construir uma usina depois de três anos. Mas, desde o início, já conseguimos usar o biogás para produzir energia.”
Sobre a distribuição, informou que já existem negociações com a Companhia de Gás do Amazonas (Cigás) para interligar o gás do aterro aos dois gasodutos de Manaus.
Legislação ambiental
O aterro foi projetado para operar entre 15 e 20 anos, seguindo as diretrizes dos órgãos ambientais. Levy destacou que a legislação do Amazonas é uma das mais rigorosas em proteção ambiental.
“Em Manaus, usamos manta dupla (para cobrir o solo). Essa manta dupla é utilizada somente para materiais perigosos. Ou seja, Manaus está com altíssimo padrão”, ressaltou.
A Marquise também implementou medidas para a proteção da fauna local.
“Nunca tivemos que cumprir tanta legislação como em Manaus. Tivemos que colocar, inclusive, uma passarela para a passagem do Sauim-de-Coleira”, revelou.
Purificação de água
Outro processo destacado pela empresa é a transformação do chorume em água pura. Embora não seja potável por não conter sais minerais, pode ser utilizada para limpeza, banho e fins industriais. Essa alternativa poderia tornar o consumo das fábricas do Polo Industrial de Manaus (PIM) mais sustentável.
No aterro do Ceará, são purificados mil litros de água por dia.

Transformação e purificação da agua ()
COP 30
O Amazonas tem um papel relevante nas discussões sobre mudanças climáticas. Thiago Levy afirmou que, com a COP-30, o estado poderia se tornar um modelo de destinação correta de resíduos, já que a maior parte da produção está concentrada em Manaus.
“O Amazonas tem uma transição energética, especialmente quando trocou toda a energia gerada pela queima de diesel para a queima de gás natural. Com isso, já contribuiu bastante. Mas, obviamente, existem outros avanços a serem conquistados, sendo o principal deles o tratamento de resíduos. Seria um ganho para o estado e também para a Prefeitura de Manaus apresentar isso na COP-30.”
O diretor apontou que a principal dificuldade para colocar o aterro em operação no estado é de ordem política.
“Existe uma tratativa formal oferecendo o equipamento, mas há todo um procedimento legal que as gestões municipais precisam estabelecer. Lá tem um aterro que funcionou até os anos 2000 como lixão, e somente as partes superiores foram impermeabilizadas. Mas ele continua sem tratamento de chorume e sem captação de gás.”
Levy destacou que a decisão de fechar o atual aterro se deve ao fato de ser um modelo ultrapassado.
“Ninguém está acusando a gestão municipal de não ter um equipamento adequado. Ela tem um equipamento que serviu por um tempo com um propósito específico, mas que é ultrapassado e não atende mais às legislações atuais.”
Para viabilizar a operação do novo aterro, a Marquise precisa adotar um modelo similar ao de Fortaleza, no qual a destinação municipal dos resíduos ocorre diretamente para o aterro. Dessa forma, o investimento retorna ao longo dos anos de funcionamento do equipamento.