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A Crítica
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‘Nós somos subestimados’, diz primeiro padre indígena do Brasil

Padre Justino organizou um livro que reúne estudos acadêmicos assinados por indígenas sobre culturas praticadas pelos povos tradicionais

Publicado em 07/02/2022 às 20h24 · Atualizado em 12/03/2022 às 12h22
‘Nós somos subestimados’, diz primeiro padre indígena do Brasil

Com uma fala marcante que transpira calma e mostra o sotaque indígena na língua portuguesa, o padre salesiano Justino Rezende é o entrevistado da semana de A CRÍTICA. Ele, que é doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), falou sobre a obra “Paneiro de Saberes: transbordando reflexões indígenas”, livro o qual é organizador, e comentou sobre o preconceito contra indígenas pesquisadores nas universidades.

Para além da conversa acadêmica, se debruçou sobre o desafio de conciliar o mundo de padre e indígena e a inclusão de culturais ancestrais da Amazônia na liturgia cristã. Por fim, analisou o cenário de terra arrasada onde vivem as populações indígenas durante a pandemia.

A entrevista completa abaixo:

O senhor participou da organização de um livro que está prestes a ser lançado. Qual o tema e como foi esse processo de trabalho?

Ano passado eu fui convidado pelos professores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) para fazer uma coletânea de resumos das dissertações de mestrado e doutorado. Então eu fui o organizador desse livro que foi denominado ‘Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas’. Idealizei esse título como um paneiro, um cesto grande. Isso está muito relacionado a uma festa de dabucuri [ritual milenar indígena] como uma oferta de saberes para os leitores, para a sociedade brasileira. Então o livro é como um paneiro, inclusive tem um na capa que contém as reflexividades de vários autores indígenas de muitos povos. De Roraima, do Rio Solimões, Rio Negro e mais.

Apesar de ainda não ter sido lançado oficialmente, já está disponível para compra, certo?

Está previsto para ser lançado oficialmente, embora já esteja a venda em alguns lugares. Foi divulgado já por esses dias pela editora Mil Folhas [para compra]. Mas nós temos o plano de marcar um evento em Manaus quando essa pandemia amenizar. Queremos fazer um evento de divulgação com a presença de mais autores para falarmos desse livro.

Quais temas são abordados nos resumos que fazem parte da obra?

Tem temas sobre educação trabalhados pelos indígenas do rio Solimões. Outro também muito interessante sobre a segurança. Os tikuna fizeram uma polícia indígena, deu até no jornal, então o artigo trabalha esse tema e achei interessantíssimo. Outro tema que gostei muito é um de Roraima, sobre a questão da mulher na sociedade indígena. O texto trabalha sobre a questão da violência, que mulher sofre com relação aos homens, e gostei principalmente porque muitas vezes se coloca a violência como algo vindo sempre de fora, do branco, mas esse trabalho vem mostrar que a violência interna também existe. A que vem dos próprios indígenas contra os parentes, dos maridos. E tem outros temas mais regionalizados do Rio Negro. Como a maioria dos autores selecionados para o livro são antropólogos e trabalham a questão cultural, existe essa perspectiva. O João Lima Barreto também está na obra e ele trata dos benzimentos como cura.

Recentemente o senhor defendeu sua tese de doutorado na Universidade Federal do Amazonas. Sobre o que escreveu e como está esse pós-defesa?

É um trabalho sobre a festa das frutas, cerimônias e discursos do povo tuyuka, o qual faço parte. É uma abordagem antropológica disso tudo. A tese é em três línguas, tuyuka, tucano e em português. O processo de construção foi muito bom porque sou desse povo, então participei muitas vezes das cerimônias. Agora a tese vai virar livro. O lançamento está previsto para junho desse ano.

Sobre esses estudos acadêmicos. Como o senhor avalia a recepção da universidade com pesquisadores indígenas?

As pesquisas indígenas e os trabalhos acadêmicos são temas novos com relação a uma visão tradicional da antropologia. Os nossos grandes antropólogos, pesquisadores não indígenas avançaram muito sobre temas indígenas. Porém, o conflito e dificuldades que tínhamos e temos é que como eles foram os primeiros a organizar nossos conhecimentos a nível acadêmico, parece que eles são os donos da verdade, não os indígenas.

Então esse é um ponto que sempre discutimos. Como nós, indígenas, somos subestimados por organizar o nosso conhecimento, mas é o trabalho que vamos fazendo também. Depois se avalia que nossos conhecimentos [de indígenas e não indígenas], um complementa o outro. Existem avanços aqui, os nossos antropólogos não indígenas foram até onde conseguiram ir, que também não daria mais para seguir porque eles não nasceram na cultura, muitas vezes não conhece as línguas, as tradições mesmo. E muitas coisas ficaram na clandestinidade. Por outro lado, nós indígenas temos limitações, como eu disse, se nós não nos envolvermos diretamente nas tradições, nas cerimônias, o trabalho deixa muito a desejar. Por isso é importante participarmos, entendermos melhor e os autores não indígenas nos ajudam muito porque os sábios, aqueles antigos [das aldeias ou comunidades], não estão mais [vivos], então nosso referencial é o que registraram os antropólogos da época e isso nos ajuda muito a gente avançar nesse campo acadêmico.

Uma das maneiras de incluir mais indígenas no campo universitário e outras minorias é a cota. Como o senhor avalia essa política para a pós-graduação?

Sobre as cotas indígenas, é uma política que existe na Universidade Federal do Amazonas, eu estudei lá, e é algo importante. Começou também nos Estados Unidos e aqui no Brasil se fez mais visivelmente a partir do governo do presidente Lula, que ampliou mais a questão das cotas universitárias e nós indígenas temos avançado bastante. Não só indígenas, mas afrodescendentes, negros, as pessoas que não tiveram oportunidade. Houve um avanço considerável. Tivemos acesso à universidade e a diversos programas na graduação e na pós-graduação, embora tenhamos gerado uma insatisfação por parte de algumas pessoas que veem como se estivéssemos invadindo a universidade, tomando a vaga deles.

Partindo para a sua vida missionária. Que trabalhos como padre o senhor considera de maior relevância?

O que eu mais destaco como primeiro ponto na minha trajetória de padre indígena foi sobre a questão da catequese e liturgia. porque no ano de 1993 eu viajei para a Guatemala, aí conheci o trabalho dos salesianos que trabalham lá entre povos indígenas e que faziam um trabalho muito interessante voltado para as questões indígenas. Eram cantos na própria língua, com os próprios instrumentos musicais, questões de ritos, e tudo isso eles [os padres] também usavam e isso me marcou muito.

Então quando retornei parao Brasil, quando fui trabalhar em Iauaretê [povoado em São Gabriel da Cachoeira], quis fazer assim coisas novas, novas no sentido de valorização dos símbolos da nossa cultura para poder inserir a liturgia como instrumentos musicais, nos momentos das celebrações, tocar instrumento, no rito de entrada, nas oferendas, levar as ofertas. Depois também questão de músicas na língua tukano, que lá [em Iauaretê] se fala mais tukano, e aproveitei dos cantos que os antigos missionários fizeram e depois eu mesmo fiz vários por ocasião do ano 2000, e fiz várias músicas pra cantar na missa. Isso foi marcante para mim, isso fez com que eu me tornasse alguém que era padre indígena.

E como foi seu encontro com a religião até se tornar padre?

Foi no seminário, no centro vocacional salesiano em Manaus, em 1980. Eu tinha 19 anos, eu era aluno interno em Pari-Cachoeira [distrito no Alto Rio Negro], então lá os salesianos diziam que para quem quisesse ser padre tinha esse centro vocacional e eu pensava, porque os padres tentavam falar na língua tukano na evangelização e eu pensava comigo, “eu poderia ser padre para poder evangelizar na própria língua”. Religioso eu sempre fui. Entrei com nove anos no internato. A minha família também é católica. Meu pai era catequista, e minha mãe era mais tradicional. Ela não gostou muito de eu ter ido para o seminário, porque ela dizia que não foi para ser padre que ela me educou. Como meu avô, pai do meu pai, era mestre de cerimônias e rituais do povo tuyuka, então ele me preparou cerimonialmente para aquilo [para assumir a posição], para que eu como primeiro filho do meu pai, neto dele, fosse também como ele [mestre de cerimônias]. Eu que me desviei desse caminho. Por isso que minha mãe ficou chateada comigo, como também meu avô. Ele disse que ser padre era cultura do branco, vivia dizendo isso. Então ficaram chateados por isso.

O mundo na cultura indígena e dentro da religião católica é bem diferente. Como o senhor concilia esses dois espaços?

Eu vejo que desde o início tive medo dos salesianos por eu ser indígena e também receio de como os parentes iam me ver. Mas logo no começo, como missionário, me envolvi muito com as comunidades indígenas. Depois até com o movimento de luta por direitos indígenas. Isso fez com que eu rompesse com aquela estrutura fixa do católico. Desde criança eu não participava muito dos rituais do meu povo e quando me tornei padre isso mudou. De repente eu estava ali no meio dos indígenas, participando do ritual, das cerimônias, dançando com eles. Acho que ser padre me aproximou mais desse mundo. E os parentes me incluíam nesses eventos, embora tivessem receio que isso atrapalhasse a minha vida sacerdotal. Mas eles sempre diziam que faziam isso para que eu não perdesse a minha cultura, porque aquilo era o que meus avós também faziam e que eu sou tuyuka assim como eles.

Além de indígena, o senhor acompanha esse fio histórico dos povos tradicionais no Brasil. Olhando para todo esse contexto, o que a pandemia representa, hoje, para os indígenas?

Estava em Santa Isabel do Rio Negro (AM) quando começou a pandemia. Me veio a lembrança de como meus avós fugiram para o mato, correram o mais longe possível quando essa doença chegou. Logo depois faleceu o primeiro jovem indígena em Roraima. Essas são as minhas primeiras memórias, mas eu vejo que, avaliando de forma mais particular, essa pandemia acabou por nos incentivar a recuperar nossa cultura ainda mais.

Fazer o uso da nossa medicina tradicional, tanto de benzimentos como a utilização de plantas, raízes e folhas. Por outro lado mais político, foi um momento muito doloroso para a nossa história porque perdemos muitas lideranças, professores. Mexeu internamente com nossas culturas, nossas organizações. Vejo também que houve muito destaque para São Gabriel da Cachoeira, que é o município mais indígena do Brasil, mas outras regiões ficaram muito esquecidas. Falta muito a se fazer ao nível institucional, precisamos ser levados mais a sério pelos nossos governantes.

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