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Número de mortes de pessoas trans aumenta no Brasil Kaio Victor Ramos/Divulgação Lucas Vasconce

A CRÍTICA mostra trajetória de duas mulheres trans na luta pelos direitos da comunidade LGBTQIA+ no AM

Publicado em 06/04/2025 às 19h42
Número de  mortes de pessoas  trans  aumenta no Brasil  Kaio Victor Ramos/Divulgação  Lucas Vasconce
Foto: Kaio Victor Ramos/Divulgação

 No ano de 2023, o Brasil registrou uma média alarmante de 12 assassinatos de pessoas trans por mês, conforme levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra), divulgado na 7ª edição do Dossiê: Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras. Esse número cresceu um caso por mês em relação ao ano anterior, culminando em 145 homicídios registrados em 2022, dos quais cinco foram cometidos contra pessoas trans defensoras de direitos humanos. 

Esses dados ressaltam a importância do Dia Internacional da Visibilidade Trans, celebrado em 31 de março, como uma data não apenas de reflexão, mas também de luta pela vida e pelos direitos da população trans. 

Em meio a esse cenário desafiador, a equipe de reportagem de A CRÍTICA destacou a trajetória de duas mulheres trans que se tornaram referências na luta pelos direitos da comunidade LGBTQIA+ no Amazonas: Andira Angeli e Joyce Gomes. Ambas têm se destacado por suas vozes firmes e pela determinação em promover mudanças significativas em um ambiente ainda repleto de desafios. 

Joyce Gomes, assistente social e co-fundadora da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Estado do Amazonas (Assotram), compartilha sua visão sobre a militância.

“Enquanto uma pessoa trans tem coisas que a gente não pode fugir. A militância, para muitas de nós, não é apenas militância, é também uma oportunidade de lutar, não só pela nossa vida, mas também pela vida dos nossos pares.” 

Para Joyce, essa luta não é apenas uma questão de direitos, mas uma necessidade de sobrevivência. Ela explica que “isso inicia muito cedo, desde quando aflora as nossas identidades”, destacando que a militância é uma resposta a um ambiente que muitas vezes marginaliza e silencia as vozes trans.

 Mudanças na Lei

Joyce também reflete sobre os avanços que ocorreram ao longo dos anos, especialmente após 2011, quando houve mudanças significativas no Judiciário em relação aos direitos da popula ção LGBTQIA+. “Houve, sim, muitos avanços, principalmente com a questão do provimento 73, da retificação de nome e gênero, que foi um fator fundamental, que garante ali o direito ao básico, que é o direito ao nome”, afirma. 

Contudo, ela não hesita em apontar que, apesar dos progressos, os dados de violência direcionados à população trans são alarmantes. “Os dados estão aí para provar isso. A LGBTfobia é uma realidade, e a população trans é a que mais sofre essa violência.” 

A Assotram, segundo Joyce, surgiu da necessidade de dar voz à comunidade trans, que muitas vezes se sente à margem dos movimentos LGBT convencionais.

“A gente sabia que existiam outros movimentos LGBT, mas que tampouco tinham pessoas trans ali à frente, falando das nossas vivências”, conta. As pautas da associação são abrangentes e vão além do aspecto identitário: “A gente tenta atuar de uma maneira mais transversal possível, né? Saúde, educação, advoca-se, mercado de trabalho.” Joyce enfatiza que ser uma pessoa trans não exime a luta por direitos em outras esferas.

 Ao refletir sobre o Dia Internacional da Visibilidade Trans, Joyce deixa uma mensagem importante.

“Toda data afirmativa são pedagógicas, elas vêm exatamente para trazer à luz todas essas questões.” Ela acredita que é fundamental destacar tanto as necessidades quanto os avanços conquistados pela comunidade trans ao longo dos anos. “Hoje a gente tem um número maior de pessoas trans no mercado de trabalho formal, que começou, que voltou a estudar, que começou a ingressar no nível superior”, destaca, enfatizando a importância de visibilidade e exemplos positivos.

 


Andira Angelin é vice-presidente da Casa Miga, um espaço de acolhimento de pessoas LGBTQIA+ (Acervo Pessoal)

 

 

Espaço acolhedor

 Andira Angeli, vice-presidente da Casa Miga, um espaço de acolhimento para pessoas LGBTQIA+ em Manaus, também reflete sobre sua trajetória. 

“Minha trajetória começa na Casa Miga, como acolhida. Ali eu tive a oportunidade de conviver com pessoas trans, de estar cercada da minha comunidade”, diz Andira, ressaltando a importância do contato com lideranças que já atuavam na luta pelos direitos. 

“Estando perto de pessoas que já eram lideranças, eu pude ir aprendendo sobre esse contexto do movimento social, que é de muita luta e resistência”, afirma. Andira, no entanto, também observa as dificuldades enfrentadas: “Percebo que temos muitas dificuldades relacionadas às lacunas do próprio poder público que acabamos tendo que suprir.” Ela destaca que, apesar de alguns avanços nas discussões sobre direitos para a comunidade trans, ainda há muito a ser feito. 

“Houve avanços mínimos, ainda estamos em discussões tão basilares no que diz respeito a direitos humanos em relação às pessoas trans: uso do nome, pronomes, banheiros, acesso à educação básica”, explica. Andira aponta que a presença de pessoas trans em espaços institucionais é uma luta constante: “Acabamos sendo associados a essas pautas que distraem a gente do fato de que ainda temos pouca voz nos espaços institucionais e nas tomadas de decisão.

”A Casa Miga, criada em 2018, surgiu da necessidade de acolher pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade. “O acolhimento é um exemplo disso. Pra além do acolhimento, a Casa oferece uma gama de serviços voltados à formação profissional”, explica Andira

 

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