Pais devem ter cuidados com o uso exagerado da internet pelas crianças
Profissionais aconselham que a forma mais eficaz é não proibir o uso da web, mas monitorar e restringir
Em meio aos episódios recentes de violência causadas por crianças e adolescentes em todo o país, cresceu a preocupação de pais e responsáveis do que seus filhos acessam na internet. Profissionais relatam que a forma mais eficaz é não proibir o uso da internet pelos filhos, mas monitorar e restringir – quando necessário – o que as crianças e adolescentes fazem no mundo virtual.
A assistente jurídica Jéssica Caroline, de 31 anos, mãe de Enzo, de 7 anos, e Íris de 2 anos, acompanha o dia a dia dos filhos, principalmente do mais velho que já tem celular próprio.
A amazonense conta que viu a necessidade de restringir o acesso após ver seu filho entrando em “reels” (vídeos curtos do Instagram) ou passando em telas que não eram apropriadas para a idade dele.
“Após dois meses com celular próprio eu percebi a necessidade de restringir algumas redes sociais para ele como meio dele permanecer assistirmos programas e aplicativos que fossem de acordo com a idade dele. No quarto dos meus filhos tem uma televisão, mas ela não tem antena e nem acesso à televisão aberta, só tem os aplicativos de streaming que configurei a faixa etária nos próprios aplicativos”, destacou Caroline.

Jéssica Caroline é uma mãe atenta ao uso da internet por seus filhos Enzo, de 7 anos, e Íris de 2 anos (Foto: Acervo pessoal)
Monitoramento por aplicativo
A mãe de Enzo conta ainda que usa um aplicativo que permite monitorar e restringir o conteúdo que seu filho possa acessar, além de bloquear sites de busca que julgou impróprios para sua idade.
“No celular inteiro eu o uso o aplicativo My Family Link. Lá eu posso restringir o conteúdo e aplicativos, inclusive ele não tem liberado sites de busca. Ele vê as coisas e acessa conforme eu permito”, comentou Caroline.
Evitando traumas
Caroline relembra que quando Enzo era mais novo, várias crianças estavam sendo expostas a vídeos assustadores e por conta disso, resolveu bloquear o acesso a certos conteúdos.
“Quando Enzo tinha 4 anos, ele assistia os desenhos no YouTube e foi justamente na época que uma cena de ferros estava assustando as crianças e com isso aqui em casa essa rede foi proibida e só está acessando filmes e desenhos que previamente eu dou autorização para que não ocorra mais esses imprevistos”, comentou a mãe.
Prevenção à intoxicação digital
Com o objetivo de prevenir a intoxicação digital de crianças e adolescentes, a Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) criou um guia de orientações de como usar as redes sociais e se prevenir a estes malefícios. A cartilha foi criada pelo Projeto Defensoria Pública Digital, coordenado pelo defensor público Marcelo da Costa Pinheiro.
“Esse projeto é uma procura constante para responder quais são os impactos que essas novas tecnologias vem causando naquela população que procura pelos serviços da Defensoria. Como a gente sabe, é a população mais humilde e caren te no Estado”, comentou Marcelo Pinheiro.
Segundo o defensor, o papel do órgão é tentar dar um local de voz à população considerada “analfabeta digital”.
“Tenta entrar numa posição de dar um local de voz na construção dessas novas tecnologias e na correção das já existentes. Para aquele público que, em regra, a sociedade invisibiliza. As pessoas que não tem participação na construção dessas novas tecnologias”, destacou o defensor.
Marcelo Pinheiro aponta ainda que o termo “intoxicação digital” utilizado na cartilha foi construído após o levantamento de dados e opiniões de profissionais de diversas áreas, como médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, dentre outros. Dentre os principais sintomas observados pelos especialistas, destacaram-se: falta de atenção, dispersão no pensamento, obesidade, problemas oftalmológicos, problemas com a sociabilidade, mudanças de comportamento, agressividade, dentre outros.
Sistema
Além disso, o coordenador do Projeto Defensoria Pública Digital, Marcelo da Costa Pinheiro, está construindo um sistema para levantar dados de “vulnerabilidade digital” com base nos relatos da população que vem buscar os serviços do órgão.
Até o momento, foram reunidos mais de 2 mil registros, sendo que destes, mais mil pessoas não sabem manusear tecnologias. Outro dado interessante é que 719 não tem acesso a dispositivo eletrônico móvel ou internet; 106 pessoas com algum tipo de deficiência relataram dificuldade de acesso às tecnologias; 58 pessoas foram vítimas de problemas decorrentes à desinformação (fake news), dentre outros dados.