Parintins como você nunca viu: a sossegada comunidade do Maranhão
Comunidade a 40 minutos de lancha da sede do município é perfeita para turista que quer desacelerar
Faltando 12 dias para o grande espetáculo do Festival de Parintins, quando a ilha se veste de vermelho e azul e o ritmo do boi-bumbá ecoa pelos quatro cantos da cidade, há um outro convite sendo feito. Um convite para atravessar o rio, desacelerar o olhar e descobrir que Parintins, que fica a cerca de 370 km de Manaus, vai muito além do seu principal espetáculo.
A aproximadamente 40 minutos de lancha da sede do município, a comunidade do Maranhão é um desses lugares, onde o tempo segue o ritmo da natureza. Ali, entre rios, paisagens e histórias, o passeio deixa de ser apenas visita e passa a ser experiência.
Com cerca de 143 famílias e mais de 600 moradores, o Maranhão é uma comunidade que nasceu da travessia. O próprio nome carrega na memória um dos primeiros moradores do local, um maranhense que fez dali seu lar. Também remete à geografia: um braço de rio que abraça a comunidade como um gesto de acolhimento e morada.
A rotina é desenhada pelas águas, pelo cultivo da terra e pela coletividade. É um lugar onde se planta, colhe, cozinha, constrói e compartilha. E é justamente essa dinâmica que transforma o Maranhão em um destino singular para quem busca o turismo de experiência.
Pousada da Peta
No coração da comunidade, o Restaurante e Pousada da Peta se consolidou como uma das principais portas de entrada para quem deseja conhecer o Maranhão de dentro para fora. Fundado em 2013, o espaço nasceu de um gesto simples: um almoço entre amigos e a vontade do casal de anfitriões, Perpétua Muniz de Souza, de 57 anos, e Marcelo Rodrigues de Oliveira, de 47 anos, de transformar o lugar em um espaço de acolhimento e descanso.
Com uma ampla área arborizada e um píer que convida à contemplação de uma bela paisagem, o espaço também dispõe de um redário, local projetado especialmente para a instalação de redes de descanso para quem deseja desfrutar de um ambiente aberto e aconchegante.
A culinária é um dos grandes destaques, preparada com ingredientes cultivados ou pescados na própria região. Entre os sabores, estão a galinha caipira (especialidade da casa), o pato no tucupi, peixe assado, doce de cupuaçu (fruta nativa da região). O visitante também é convidado a experimentar o tradicional café da tarde, com destaque para a tapioca com tucumã e o fritinho de crueira.
Além das refeições, o visitante vive experiências que ampliam o contato com a natureza e a cultura local. São trilhas, banhos de igarapé, pesca esportiva e passeios guiados pelos próprios anfitriões.

Restaurante e Pousada da Peta oferece redário, passeios guiados pela floresta e comida deliciosa (Foto: Sidney Simas) ()
Base Comunitária
O turismo de base comunitária nasce do cotidiano e se constrói em conjunto com quem vive ali. É nas casas de farinha que esse movimento ganha forma e cheiro: a mandioca, colhida da própria terra, atravessa um processo paciente até se transformar em farinha, beiju e outros alimentos.
Ao visitante que chega, as portas estão abertas. Lá ele encontra mãos em trabalho. Redes sendo tecidas fio a fio. A experiência está no processo, em acompanhar o preparo do beiju, em ouvir quem vive da mandioca, em perceber como tudo se conecta.
O turismo também circula como sustento. Fortalece a comunidade, movimenta a economia local e valoriza a agricultura familiar. As trocas acontecem dentro do próprio território, criando uma rede onde todos participam e se beneficiam. É um ciclo contínuo, uma cadeia produtiva que se mantém de forma sustentável.
Para quem chega, a surpresa não está apenas nas paisagens, mas nas histórias que elas guardam. Logo o visitante descobre que o Maranhão é o pacote completo daquilo que pode te surpreender.
Praia de Itaracuera
Seguindo pelas águas da região, a Praia de Itaracuera ou Tauacuera, nome possivelmente de origem indígena ligado ao termo tupi “tauá”, que remete a “aldeia”, “povoado” ou “acampamento” , surge como um respiro visual.
É um cenário que não exige pressa. Lá o visitante entende que contemplar também é uma forma de conhecer. O som das águas e a imensidão do horizonte constroem uma experiência sensorial que dificilmente se traduz em texto e fotografia, para entender é preciso estar.
Localizada na região do rio Uaicurapá, a extensa área de formação de areia quartzosa, responsável pelo tom claro e pela textura fina, se consolida como um dos cenários naturais mais marcantes de Parintins. Ela aparece principalmente no período da vazante, entre os meses de agosto e fevereiro.
Encontro das Águas
Se o mundo reconhece o encontro das águas entre os rios Negro e Solimões, poucos sabem que, nas proximidades do Maranhão, outro fenômeno também impressiona. Ali, os rios Uaicurapá e Paraná do Ramos se encontram, criando um contraste de cores e movimentos que reforça a grandiosidade da região.
O encontro entre esses rios não é por acaso. O Uaicurapá segue com águas claras, mais leves e com pouca carga de sedimentos. Já o Paraná do Ramos corre diferente: é um rio de águas barrentas, marcadas pela presença de matéria orgânica.
Nesse ponto de encontro, fatores como densidade, temperatura, volume de sedimentos e velocidade da corrente fazem toda a diferença. O Paraná do Ramos avança mais rápido e mais pesado; o Uaicurapá, mais leve, segue em outro ritmo.
É por isso que as águas não se misturam de imediato. Elas caminham juntas, lado a lado, mantendo suas cores bem definidas por um trecho considerável. Um fenômeno que chama atenção de quem passa.
Entre agosto e dezembro, o cenário fica ainda mais evidente. Nesse período, as condições dos rios favorecem a formação de um contraste mais nítido, deixando o encontro das águas ainda mais marcado aos olhos.
Navio Encantado
Na região do Uaicurapá, há relatos que atravessam gerações. Moradores mais antigos contam que, em determinadas noites, luzes surgiam sobre um suposto navio que cruzava o rio. A embarcação, descrita como intensamente iluminada, aparecia no caminho de ribeirinhos que seguiam rumo à cidade. Mas, ao se aproximar de qualquer outra canoa ou barco, as luzes se apagavam de repente, e o banzeiro, que antes denunciava sua presença, simplesmente cessava.
A história, segundo os próprios comunitários, remonta ao período da Cabanagem. Dizem que, naquela época, muita gente fugia para o interior da mata levando ouro e outros bens, numa tentativa de escapar dos conflitos. É nesse passado que o imaginário do navio ganha força.
O enredo também ecoa na cultura popular. Na composição do artista Ronaldo Barbosa, a toada “Pesadelo dos Navegantes” entoa parte do medo de um conto navegador, transformando o mistério em narrativa cantada.
Como em tantas comunidades na região amazônica, o Maranhão é feito dessas histórias que caminham entre o que foi vivido e o que se conta. Há quem garanta já ter visto o navio cruzando silencioso, surgindo e desaparecendo sem deixar vestígios.“A história trabalha com a oralidade, ela não é só um documento formal escrito. A pessoas contam, e te convidam a mergulhar nas memórias delas”, explica a historiadora Larice Butel.