Parteiras querem mais valorização e reconhecimento dos governos
Com 20 anos dedicados aos partos tradicionais, a indígena Kokama, Maria do Socorro relata desafios
Comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas geralmente são as localidades isoladas onde o acesso aos serviços públicos de saúde é limitado. Nestes locais, médicos, obstetras, enfermeiros e demais profissionais contam com um importante apoio para o cuidado da mulher quando está para dar à luz: as parteiras tradicionais.
No dia 16 de janeiro, a ministra da Saúde e primeira mulher a comandar a pasta, Nísia Trindade, instituiu novamente a Rede Cegonha. O programa é reconhecido internacionalmente por garantir atendimento de qualidade, seguro e humanizado para todas as mulheres no SUS, incluindo aquelas que são assistidas pelas parteiras.
Natural de Tefé, com 58 anos de idade sendo 20 anos dedicados aos partos tradicionais, a indígena do povo Kokama, Maria do Socorro Teles dos Santos, recebe o reconhecimento como uma chance das profissionais ganharem visibilidade.
“Para todas nós parteiras tradicionais foi muito importante esse reconhecimento pois nos dá autonomia. Precisamos ser mais vistas pelos governos federal e estadual. Desejamos que todas as instituições possam somar com a nossa luta, esse nosso trabalho que é uma dádiva de Deus”, celebrou a parteira indígena.
Maria Kokama conta ainda sobre as dificuldades que as comunidades indígenas enfrentam diariamente quando se trata de serviços básicos de saúde.
“Nós podemos fazer muito mais pelas mães e pelas crianças onde é difícil o acesso da saúde, em comunidades distantes. Acredito que os governantes devem olhar com carinho para nossa atividade”, acrescentou Kokama.
Com o reconhecimento da atividade, a pasta pode fornecer cursos de profissionalização para as parteiras tradicionais obterem mais conhecimento para dar continuidade a suas atividades, além de poder realizar os partos humanizados em maternidades, por exemplo.
“Queremos apoio para capacitar outras mulheres. Essa é a nossa tradição. Um conhecimento milenar que podemos passar para outras gerações. Com investimento em estrutura e materiais para acompanhar os partos normais conseguiremos fortalecer a atividade”, destacou a profissional.
Parto mais desafiador
A parteira indígena relembrou também o parto mais difícil que já realizou. Maria do Socorro conta que precisou ser firme para fazer com a mãe conseguisse dar à luz no meio rio Negro.
“Essa é uma história real. Eu estava indo fazer um parto na comunidade indígena, pegamos a mãezinha que já estava em trabalho de parto, e fomos para a cidade em uma canoa. Porém não deu tempo, e tivemos que fazer o parto na canoa mesmo. A felicidade que tive depois que o bebê nasceu, foi grande”, relembrou a parteira.
Acesso à saúde
O difícil acesso à saúde das mulheres gestantes ao atendimento durante o parte, foi um dos motivos do Instituto Mamirauá criar ações com objetivo de contribuir para aprimorar o trabalho de parteiras nas reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Anamã.
Segundo a coordenadora do Programa Qualidade de Vida, Maria Cecília Borges, o instituto trabalha com as parteiras tradicionais desde os anos 2000.
“Buscamos contribuir para melhorar a situação de saúde das mulheres que vivem nas áreas mais remotas e valorizar a atuação das parteiras. São realizadas promoção de encontros para troca de conhecimentos entre as parteiras; fortalecimento da organização e associativismo entre as parteiras tradicionais e apoio à integração das parteiras no serviço público”, descreveu Borges.
Na região do Médio Solimões, de acordo com Borges, aproximadamente 150 parteiras tradicionais atuam nas comunidades.
“A Associação Algodão Roxo tem feito um esforço de cadastramento de parteiras, junto com a Secretaria Estadual de Saúde (SES-AM). A parteira não necessariamente assiste ao parto. Algumas parteiras acompanham a gestação, pegam barriga, orientam a gestante, indicam remédios caseiros. Todas estas formas de cuidado são importantes. As parteiras mais idosas gostam de ser acompanhadas por parteiras mais novas, que se tornam aprendizes”, comentou Borges.