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Por que as apostas ilegais ainda resistem no Brasil

Em um país onde transferências instantâneas já fazem parte da rotina, a velocidade e a facilidade para movimentar dinheiro podem estar entre elas.

Publicado em 17/08/2026 às 13h03
Por que as apostas ilegais ainda resistem no Brasil
Foto: Divulgação

Mais de um ano após a entrada em vigor da regulamentação das apostas online no Brasil, uma parcela expressiva dos apostadores continua recorrendo a plataformas não autorizadas.

Entre 38% e 44% das apostas online no país ainda ocorrem fora do mercado regulado, segundo estudo divulgado em 11 de agosto pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR). A faixa é inferior à estimativa anterior, de 41% a 51%, sinal de que a regulamentação e as medidas de fiscalização vêm surtindo efeito. Ainda assim, os números mostram que o mercado clandestino continua relevante.

O levantamento foi realizado pela LCA Consultores com base em pesquisa do Instituto Locomotiva encomendada pelo IBJR. Foram entrevistados 2.291 apostadores em todo o país em maio de 2026.

Nos três meses anteriores à pesquisa, 48% dos entrevistados disseram ter utilizado sites sem o domínio regulamentado “.bet.br”. Outros 53% afirmaram ter apostado em plataformas que não exigiam reconhecimento facial, uma das medidas de identificação adotadas pelo mercado regulado.

Os meios de pagamento ajudam a explicar parte dessa resistência.

Quase um em cada quatro entrevistados, 23%, afirmou ter usado criptoativos para apostar nos três meses anteriores. Outros 37% disseram ter utilizado cartões de crédito. Nenhuma dessas formas de pagamento é permitida no mercado federal regulamentado.

Regras diferentes para movimentar dinheiro

O mercado nacional regulamentado de apostas entrou em vigor em 1º de janeiro de 2025. Empresas que oferecem apostas de quota fixa e jogos online autorizados precisam de licença da Secretaria de Prêmios e Apostas, a SPA, e os operadores autorizados em âmbito federal utilizam o domínio “.bet.br”.

Até julho, 85 empresas estavam autorizadas pela SPA a operar no país.

As regras vão além de licenciamento e tributação. Operadores regulados precisam identificar os clientes, aplicar mecanismos de jogo responsável e cumprir exigências relacionadas a limites, autoexclusão e reconhecimento facial.

Também existem restrições sobre como o dinheiro pode entrar e sair das contas dos apostadores.

As plataformas autorizadas podem receber transferências via Pix ou débito em conta registrada em nome do próprio cliente. Cartões de crédito e criptoativos são proibidos.

A diferença ganha importância em um país onde as transferências instantâneas passaram a fazer parte da rotina financeira.

Lançado pelo Banco Central em 2020, o Pix alcançou quase 170 milhões de usuários até seu quinto aniversário, em 2025. No último trimestre de 2024, o sistema já respondia por 47% de todas as transações de pagamento sem uso de dinheiro em espécie.

Para milhões de brasileiros, esperar horas ou dias para movimentar dinheiro deixou de ser normal.

A pesquisa do IBJR não mostra que o uso do Pix leve diretamente consumidores a procurar cassinos com criptomoedas. Mas ela revela um mercado em que uma parcela relevante dos apostadores utiliza justamente formas de pagamento proibidas entre operadores licenciados.A rapidez dos saques virou um diferencial

Fora do mercado regulado brasileiro, criptomoedas oferecem aos operadores outra maneira de competir pela velocidade dos pagamentos.

Bitcoin, stablecoins como USDT e outros ativos digitais podem ser transferidos sem depender das redes convencionais de cartões e bancos. Isso não significa que todo saque em criptomoeda seja imediato. Cassinos podem exigir verificação de identidade, revisar solicitações e aplicar períodos internos de processamento.

Depois da aprovação do saque, porém, os criptoativos podem reduzir alguns dos atrasos associados às redes bancárias tradicionais.

“O Brasil é um caso particularmente interessante porque o consumidor já se acostumou a uma economia de pagamentos instantâneos”, disse Gavin Lucas, da GamblersPro.com, site global de comparação de cassinos online com dinheiro real, focado em opções de saque rápido. “Para quem usa o Pix todos os dias, esperar vários dias úteis por um saque pode parecer excessivamente demorado. Os cassinos offshore que trabalham com criptomoedas acabam competindo também com essa expectativa de velocidade.”

A rapidez dos saques vem se tornando um diferencial competitivo entre cassinos online, ao lado de bônus, variedade de jogos e opções de depósito.

Para os reguladores, o problema é que parte dessas transações pode ocorrer fora dos canais financeiros nacionais.

O Brasil pode impor regras a bancos, instituições de pagamento e empresas que operam dentro do sistema financeiro doméstico. Transações em criptoativos envolvendo plataformas estrangeiras e carteiras externas, por outro lado, podem ser mais difíceis de interromper pelos mecanismos tradicionais.

Em junho, o governo avançou nesse sentido ao regulamentar novas medidas para isolar financeiramente operadores ilegais. Regras anteriores já impediam instituições financeiras e empresas de pagamento brasileiras de processar transações ligadas à oferta irregular de apostas de quota fixa.

Um mercado menor, mas ainda significativo

Os dados mais recentes indicam que a estratégia brasileira está reduzindo a participação das plataformas ilegais.

Tomando o ponto médio das estimativas apresentadas nos dois estudos do IBJR, a mudança fica mais clara. O intervalo anterior, de 41% a 51%, tinha ponto médio de 46%. No levantamento mais recente, a faixa de 38% a 44% tem ponto médio de 41%.

Isso representa uma queda de 5 pontos percentuais, ou cerca de 11% em relação ao ponto médio anterior.

É uma redução relevante em pouco mais de um ano, mas ainda deixa uma parcela considerável das apostas brasileiras fora do ambiente regulado.

Os hábitos relatados pelos entrevistados mostram a dimensão do desafio. Quase metade havia utilizado algum site sem o domínio “.bet.br”; 23% disseram ter apostado com criptoativos; e 37%, com cartão de crédito.

Esses percentuais não podem ser somados, já que o mesmo apostador pode aparecer em mais de um grupo. Ainda assim, mostram que o uso de plataformas e métodos de pagamento associados ao mercado irregular não está restrito a uma pequena minoria.

Ao mesmo tempo, o setor regulamentado ganhou peso econômico. As empresas autorizadas precisam cumprir requisitos de capital, pagar taxas de licença e recolher impostos e outras contribuições previstas pela legislação.

Na prática, dois ambientes funcionam lado a lado: um setor regulado, sujeito às regras brasileiras, e um mercado offshore capaz de oferecer produtos e meios de pagamento que os operadores licenciados não podem disponibilizar.

O desafio vai além do bloqueio de sites

As criptomoedas são apenas uma parte do problema.

Operadores ilegais podem trocar de domínio, utilizar sites-espelho e continuar alcançando consumidores por canais digitais. Também podem funcionar com menos mecanismos de proteção ao apostador do que as plataformas reguladas.

A pesquisa de maio mostrou que 53% dos entrevistados haviam utilizado recentemente sites que não exigiam reconhecimento facial. Ao mesmo tempo, 77% concordaram total ou parcialmente que plataformas ilegais são mais perigosas por não seguirem padrões de jogo responsável.

Para as autoridades, o desafio é que o consumidor pode reconhecer os riscos de uma plataforma irregular e ainda assim optar por utilizá-la.

Facilidade de pagamento, disponibilidade de produtos, promoções e velocidade dos saques podem pesar nessa decisão.

A experiência brasileira mostra que o bloqueio de sites, isoladamente, dificilmente eliminará as apostas ilegais. A queda na participação estimada do mercado clandestino indica que a regulamentação está conseguindo atrair usuários para plataformas licenciadas, mas os números também mostram que uma parcela relevante dos apostadores ainda transita entre os dois ambientes.

O próximo desafio, portanto, não é criar um mercado regulado, mas reduzir as vantagens práticas que ainda levam consumidores às plataformas offshore. Em um país onde transferências instantâneas já fazem parte da rotina, a velocidade e a facilidade para movimentar dinheiro podem estar entre elas.

 

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