Povos indígenas de Barcelos projetam Centro de Culturas para preservar saberes e línguas
I Encontro do CCIB reuniu representantes de 23 povos do Rio Negro e discutiu a criação de espaço voltado à troca de conhecimentos ancestrais e resistência cultural
Os povos indígenas de Barcelos (a 399,82 quilômetros de Manaus), na região do Alto Rio Negro, querem ter um centro onde possam vivenciar e compartilhar seus jeitos de ser no mundo. Após nove meses de conversas em torno da proposta, a Associação Indígena do município (Asiba) colocou na rua um dos resultados do processo preparatório: o I Encontro do Centro de Culturas Indígenas, realizado nos dias 28 e 29 de agosto, na sede do município.
Participaram representantes de cinco comunidades indígenas (dados da Asiba) e convidados externos, pesquisadores, professores. A construção do projeto do CCIB conta com a participação de representantes de 23 povos originários do rio Negro e representantes de outras etnias como Macuxi, Ticuna, Hixkaryana.
Durante os dois dias, entre rituais e debates, a ideia do Centro de Culturas Indígenas (CCIB) passeou entre os participantes que, de acordo com a presidente da Asiba, Marilene Gervasio Reis, do povo Baré, foi recebida entre alegria e desejo de ver concretizado um sonho. “O centro cultural será um espaço de troca de conhecimento ancestral e da nossa resistência”, disse Marilene Reis. A cultura é o principal mecanismo para aproximar os que estão distantes, promover conhecimento e reencontros, acrescentou.
Centro cultural será um espaço de troca de conhecimento ancestral e resistência (Divulgação)
O encontro propiciou criar um ambiente aberto com participação direta onde o projeto do CCIB ficou conhecido. Já existe um terreno disponível e a disposição da Prefeitura de Barcelos em contribuir com a finalização técnica da obra. O pós-encontro, para a Asiba é de mobilizações a fim de reunir recursos necessários à concretização do projeto.
Ter um espaço próprio onde possam se encontrar e disseminar as línguas e as culturas dos povos indígenas da região embala a determinação da direção da Asiba. “É lá que nós vamos fazer as nossas danças, nossas comidas, nossos cantos e poder conversar e ensinar as nossas línguas”, enumera Marilene Reis.
População indígena
O Estado do Amazonas tem uma população indígena estimada em 490.935 (dados do IBGE- agosto de 2023, com base no Censo de 2022). Essa população representa 29% do total dos indígenas do Brasil, a capital, Manaus, detém o maior número de indígenas vivendo nas capitais do país. Hoje, 62,3% dos indígenas vivem em áreas urbanas (305.866) e 37,7% em áreas rurais (185.069) no Amazonas.
Os números reforçam a luta da Asiba na perspectiva de atrair as juventudes indígenas e animá-las a mergulhar em suas culturas. “A gente vê nos eventos pouca participação dos jovens. O que a gente precisa fazer? Onde eles estão? O que eles estão fazendo? Acreditamos que o centro é uma entre tantas iniciativas para trazer os jovens indígenas as nossas culturas e se sentirem importantes ao reencontrá-las, descobrir a beleza dessas culturas e a importância de resistirmos por meio deles. A gente sente que estamos perdendo os jovens e vamos lutar para isso não acontecer”, disseram Marilene Reis e Ismael Tariano.
Importância do centro
Mestre em cultura, o professor Ismael Moreira, Tariano, convidado pela Asiba, destacou a importância do centro para a educação indígena e a educação escolar indígena. “Então, são as famílias ensinando a língua aos seus filhos, oralmente, porque hoje em dia está cada vez mais difícil esse ensinamento”.