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Quem nasce em Manaus é? Dúvida entre “manauara” ou “manauense” divide opiniões

Para entender de onde surgiram essas palavras, a reportagem de A CRÍTICA conversou com especialistas no assunto, que explicaram as raízes históricas e linguísticas dos gentílicos “manauara” e “manauense”

Publicado em 17/03/2025 às 22h59 · Atualizado em 17/03/2025 às 23h33
Quem nasce em Manaus é? Dúvida entre “manauara” ou “manauense” divide opiniões
Foto: Reprodução

Quem nasce em Manaus é…? Ao responder, você ficou na dúvida entre “manauara” ou “manauense” ou falou um dos termos sem pestanejar? Acontece que essa questão divide opiniões, e há até quem já tenha sido corrigido ao escolher qualquer uma das duas opções. Isso porque a história por trás dessa diferença revela muito mais do que apenas uma questão gramatical, envolvendo também questões de identidade, cultura e até um certo orgulho regional.

Para entender de onde surgiram essas palavras, a reportagem de A CRÍTICA conversou com especialistas no assunto, que explicaram as raízes históricas e linguísticas dos gentílicos “manauara” e “manauense”. Os adjetivos gentílicos são usados para identificar as pessoas conforme a sua origem geográfica. Além disso, ouvimos também a opinião dos naturais de Manaus, que defenderam suas preferências.

Morador do bairro de Petrópolis, na Zona Sul de Manaus, o aposentado Marivaldo Souza, mais conhecido como ‘Seu Rashid’, de 64 anos, se sente privilegiado em poder ser chamado tanto de manauara quanto de manauense. Segundo ele, não há preferência, porque para ele é uma maravilha ter nascido em uma das poucas capitais brasileiras que possuem mais de um gentílico aceito.


Marivaldo Souza, o Seu Rashid, morador do bairro de Petrópolis, na Zona Sul de Manaus (Foto: Daniel Brandão)

“Eu gosto dos dois. Já pensou uma única cidade ser chamada de manauara e manauense? Eu acho que as duas palavras são verdadeiras e permanecem até o final dos tempos. O ser humano tem uma alta complexidade, e isso vai depender de cada pessoa de como quer ser chamado”, opinou seu Rashid.

E ele tem razão, pois Manaus está entre as cinco capitais brasileiras que possuem mais de um gentílico aceito. As outras capitais incluem: Salvador (BA), com soteropolitano ou salvadorense; São Luís (MA), com são-luisense ou ludovicence; Vitória (ES), com vitoriense ou capixaba; e Aracaju (SE), com aracajuano ou aracajuense.

Já a contadora e empreendedora Laís Teixeira, de 31 anos, moradora do bairro Coroado, na Zona Leste de Manaus, prefere ser chamada de manauara. Ela explica que prefere esse termo por questões de identificação e pertencimento com o significado por trás da palavra e de sua origem.

“Me considero manauara porque é o termo que mais se adequa a mim, foi o termo que eu usei para descrever minha origem sempre. Gosto daqui, me identifico com tudo daqui, gosto da nossa comida, do peixe, do açaí, o rio também é uma coisa que me marca com as suas águas, e o clima, apesar de imprevisível, o sol e a chuva, é uma parte de Manaus que é única”, destaca Laís.


Laís Teixeira, contadora e empreendedora de 31 anos, moradora do bairro Coroado (Foto: Junio Matos)

O que dizem os especialistas?

Do ponto de vista linguístico, o professor Renato Régis, mestre em Letras e Artes com ênfase em Etnolinguística, explica que, para a língua portuguesa, tanto “manauara” quanto “manauense” estão corretos. “Não tratamos de certo ou errado, mas de variações linguísticas que convivem no nosso vocabulário. Ambos os gentílicos existem, e têm origens distintas”, afirma Régis.

De acordo com o professor, “manauara” tem uma raiz indígena, derivada do tupi, e remete a uma ideia de origem e pertencimento. “Esse sufixo ‘ara’ carrega um valor de respeito à nossa herança indígena. É uma maneira de reafirmarmos nossas raízes, algo muito forte na nossa cultura”, destaca.


Professor Renato Régis, mestre em Letras e Artes com ênfase em Etnolinguística (Foto: Divulgação)

Já o “manauense”, embora tenha o mesmo significado, possui uma origem europeia e é um termo mais técnico, com base nas convenções da gramática normativa portuguesa. Régis comenta que, em contextos formais, como concursos públicos e documentos oficiais, é mais comum o uso de “manauense”, por seguir a norma culta da língua.

O professor de Língua Portuguesa, Edson Botelho, também compartilhou a sua perspectiva sobre a diferença entre “manauara” e “manauense”. Ele também afirma que ambos os termos são corretos e fazem parte do vocabulário popular e formal. Botelho segue a mesma visão de que ambos os gentílicos são válidos e afirma que costuma usar os dois, destacando que “não há como discutir pela origem da palavra. Ambos têm seu valor na língua”.

“Há pessoas que falam que manauara é quem nasce em Manaus e manauense é quem vive, porém, nós temos que examinar isso com muita calma. ‘Manauara’ deriva do tupi. O sufixo ‘ara’ significa ‘origem’ e essa palavra ganhou popularidade em 1970 com o crescimento populacional de nossa cidade. Agora, nós temos também o ‘manauense’, que deriva do latim, língua que deu origem a nossa. Esse gentílico usa a convenção linguística de sufixos ‘ense’, usados em outros gentílicos como paraense, amazonense, que estão corretos”, explica o especialista.


Edson Botelho, professor de Língua Portuguesa (Foto: Junio Matos)

O debate sobre os gentílicos “manauara” e “manauense” também ganhou força nas redes sociais recentemente, após um vídeo publicado no TikTok gerar discussão sobre a suposta diferença entre os termos. Na gravação, um agente do Centro de Atendimento ao Turista (CAT) explica a questão, mas com uma interpretação que não condiz exatamente com o que dizem especialistas.

Em resposta à reportagem, o CAT esclareceu que a fala do agente reflete uma opinião pessoal e que a instituição não tem um posicionamento oficial sobre a diferenciação entre os gentílicos. Como apontado por linguistas e historiadores, tanto “manauara” quanto “manauense” são termos corretos e aceitos, cada um com sua origem e contexto de uso.

A visão histórica

O historiador Daniel Sales explica que os registros históricos costumam surgir anos após serem consagrados pelo povo com a popularização de algo, a exemplo dos termos manauara e manauense. Segundo ele, os registros em periódicos, documentos oficiais ou similares nos levam ao uso do termo “manauense”, sendo utilizado na época do Ciclo da Borracha.

Já o termo “manauara”, mesmo que já fosse usado à mesma época por vários cidadãos, segundo o historiador, demorou um tempo a mais para ser grafado em registros históricos. De acordo com Sales, somente na década de 1940 é que houve a maior incidência desse gentílico, sendo ainda mais utilizado a partir da implantação da Zona Franca de Manaus, em 1967.

Sales destaca que o termo “manauara” também passou a ser cada vez mais utilizado em manifestações culturais, como música, arte e eventos regionais. Para ele, isso é um reflexo do desejo da população de resgatar sua identidade e cultura, já que esse termo passou a ser utilizado pelos próprios moradores como forma de reafirmar suas raízes e cultura.


Daniel Sales, historiador (Foto: Jeiza Russo)

“Já houve um maior uso do ‘gentílico cultural’ (além do ‘Baré’), para que se fizesse mais conhecido a ancestralidade indígena mais latente ao resto do Brasil – uma identificação de pertencimento. Ao ‘manauense’ – neste novo ciclo – resta a formalidade; ao ‘manauara’ a identidade mais pujante. Como os ciclos se repetem, esta é a atual situação. Lembremos que a capital do Amazonas já foi grafada como ‘Manáos’, (não ‘Manaós’), ‘Manaos’, ‘Manáus’, e finalmente: ‘Manaus’”, concluiu.

Agora que já sabemos que ambos os termos estão corretos e cada um tem o seu significado e seu lugar na história da capital amazonense, me conta aí: Qual termo você prefere? Já foi corrigido por usar algum deles?

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