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Rabdomiólise: feirantes do Amazonas vivem queda dramática nas vendas de peixes

Apesar de não haver recomendação oficial para suspensão de consumo, a venda de peixes caiu bastante desde o surgimento do surto de rabdomiólise no Estado

Publicado em 11/09/2021 às 12h56 · Atualizado em 09/03/2022 às 00h37
Rabdomiólise: feirantes do Amazonas vivem queda dramática nas vendas de peixes
Foto: Carlos Filho, 46, que é vendedor de peixe no Distrito de Cacau Pirera há três anos, relatou na prática a queda nas vendas: "Eu fazia 500 ou 600 reais e hoje eu nem faço 200 reais" Foto: Gilson Mello

A venda de peixes caiu ao menos 80% nos últimos dias, é o que apontam os vendedores de feiras como a Manaus Moderna, no Centro da capital e a localizada no início do Distrito de Cacau Pirêra, no município de Iranduba.

A causa para a diminuição das vendas do pescado, pacu, tambaqui e outros peixes é atribuído ao surto de rabdomiólise, hoje, notificado em dez municípios do Amazonas conforme a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Drª Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP).

“As vendas caíram no mínimo 80%. Eu tenho trabalhado com peixe miúdo como pescado, pacu, mas o meu ramo é trabalhar com tambaqui. Como está devagar a venda, eu comprei os peixes miúdos por que eu acredito que tem saído mais. As pessoas gostam de peixes mais baratos, então eles são os mais em conta”, disse o comerciante Jailson Alves, 39.

“Antes eu vendia dez peixes por dia e agora, só consigo vender um ou dois e tem dia que nem vende”, comentou ainda.

Orleilson Araújo é vendedor de peixes desde os nove anos e nunca tinha visto algo deste tipo. Ele está otimista que as vendas voltem ao ritmo que eram. “Eu vendia de 30 a 40 peixes por dia. Agora, o máximo que eu vendo são oito peixes ao dia. E essa queda não é só aqui na nossa feira não, isso é em todas as feiras de Manaus”, reclamou.

Orleilson relata surpresa com a, segundo ele, inédita queda nas vendas dos peixes. Foto: Gilson Mello

“Isso foi por causa da doença, as pessoas estão com medo e enquanto não saber o que aconteceu, vamos continuar desse jeito. Eu creio que vamos sair dessa, porque peixe é algo que todo mundo gosta”.

Poucas horas para o horário do almoço e os vendedores do Distrito de Cacau Pirêra, no município de Iranduba, não haviam vendido sequer um peixe. Exemplo disso era a quantidade de alimento em cima dos carrinhos de mão, onde eles vendiam o pescado e outras espécies.

“Está com dois dias que eu não vendo nenhum tambaqui. Estamos vendendo o almoço para comprar a janta. Os clientes não aparecem e é só gasto com gelo”, ressaltou José Perrone, de 49 anos. A expectativa dele e de outros trabalhadores é que a origem do problema seja investigada pelos órgãos competentes e logo, logo, possam retornar as boas vendas.

Para José Perrone, resolução do problema da rabdomiólise é a única solução para retomada das vendas. Fotos: Gilson Mello

“A gente espera que encontrem logo de onde vem essa doença, enquanto isso, as pessoas não vêm e não compram. Todos os meus tambaquis são de cativeiro”, pontou. “Inventaram isso aí (o surto da doença) e as pessoas pararam de comprar peixe, nós vivemos disso aqui. Eu fazia 500 ou 600 reais e hoje eu nem faço 200 reais”, lamentou Carlos Filho, 46, que é vendedor de peixe no Distrito de Cacau Pirera há três anos.

Não há recomendação para suspensão do consumo

No final do mês passado, o infectologista da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), Antonio Magela, disse não haver indicação para a suspensão do consumo de peixes no Estado do Amazonas, por causa dos casos de rabdomiólise em investigação.

A Fundação de Vigilância em Saúde Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) notificou, até às 15 desta sexta-feira (10), 61 casos suspeitos de rabdomiólise em dez municípios do Amazonas. Os casos estão em investigação e possivelmente estão relacionados à ingestão de peixes.

Foto: Gilson Mello

“O importante é entender que se formos comparar o nível de consumo de peixe com o número de casos, a gente vê que é uma relação mínima, porém, não menos preocupante. Qualquer situação que coloque em risco a saúde das pessoas deve ser avaliada com cuidado, as pessoas devem ser tratadas da maneira mais adequada possível e temos que ter preocupação também com o aspecto econômico e nutricional”, disse o infectologista.

Nesse mesmo sentido, a coordenadora do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS/FVS-RCP), Liane Souza, afirma que não há indicação para suspender o consumo. “Nós não podemos proibir que as pessoas consumam peixes. Uma vez que o peixe é o alimento principal do amazonense”, disse a coordenadora.

Vale destacar que a FVS-RCP segue investigando o surto e foi criado um grupo de trabalho para mapear e investigar as regiões com notificações pela força-tarefa do Governo do Amazonas. Na quinta-feira, uma reunião virtual foi realizada com especialistas de diversas instituições da esfera estadual, da força-tarefa do Governo do Amazonas, para identificar causas e formas de combate.

E as instituições definiram a criação de um grupo de trabalho para mapear e investigar as regiões onde estão os municípios notificadores de casos suspeitos de rabdomiólise. Outra reunião sobre o assunto ocorreu na sexta-feira (10).

Além da FVS-RCP, participam da força-tarefa a secretaria de Estado de Saúde (SES-AM); Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD); Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Amazonas (Adaf); Secretaria de Estado da Produção Rural (Sepror), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária e Superintendência Federal de Agricultura no Amazonas, do Ministério da Agricultura; e Ministério da Saúde.

A Venda Não Está Proibida

Sobre a venda de peixes nas feiras de Manaus, a Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento, Centro e Comércio Informal (Semacc), informou que após a constatação, ou não, da contaminação do pescado pela Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto, a Semacc irá verificar, junto aos órgãos competentes, que medidas adotar para garantir a segurança alimentar da população. “Até então, a venda do pescado em Manaus não está proibida”, finalizou o Executivo Municipal, em nota.

Rabdomiólise

A rabdomiólise é uma síndrome clínico-laboratorial que decorre da lesão muscular com a liberação de substâncias intracelulares para a circulação sanguínea.

Ocorre normalmente em pessoas saudáveis, na sequência de traumatismos, atividade física excessiva, crises convulsivas, consumo de álcool e outras drogas, infecções e ingestão de alimentos contaminados, que incluem o pescado. O quadro clínico da doença pode incluir elevações assintomáticas das enzimas musculares séricas (creatinina-fosfoquinase – CPK).

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