Setor produtivo pede cautela no fim da 6×1
Representantes de entidades patronais não se colocam contra a proposta, mas defendem negociação antes de qualquer decisão
Representantes empresariais defendem cautela no debate do fim da escala 6×1, que ganhou tração no início de 2025 e deve ser um dos temas centrais nas eleições de 2026.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, avaliou que a discussão tem um apelo social “indiscutível e legítimo, mas precisa ser analisado com extremo rigor técnico para não transformar em um remédio que agrave o processo de desindustrialização do país”.
“No setor industrial, especialmente em polos de alta complexidade e produção contínua, a operação exige uma coordenação precisa de turnos. Uma transição forçada ou abrupta impõe um aumento imediato nos custos operacionais e na necessidade de contratações adicionais apenas para cobrir as lacunas das novas escalas, o que pressiona severamente as margens de lucro e compromete o fluxo de caixa das empresas, especialmente as de pequeno e médio porte que dão suporte à cadeia produtiva”, disse.
O presidente da Fieam também ressaltou que é preciso cuidado com o argumento de que a mudança na escala aumentaria a produtividade do trabalhador, especialmente na indústria, onde esse ganho raramente é linear. A mudança, segundo ele, poderia beneficiar mais os setores criativos ou de serviços, mas “na linha de produção a produtividade está diretamente vinculada ao ritmo das máquinas, economia@acritica.com
à logística e à infraestrutura tecnológica disponível”.
“Sem um investimento massivo e prévio em automação que compense a menor disponibilidade da mão de obra humana, o resultado mais provável não será o aumento da eficiência, mas sim o encarecimento do produto final para o consumidor e a perda de competitividade frente aos produtos importados, gerando um impacto inflacionário que prejudica o próprio trabalhador”, avaliou.
CONTRAPARTIDAS
Antonio Silva classificou que, apesar do apoio declarado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao fim da escala 6×1, a medida poderá ser temerária se for implementada “sem um plano de transição muito mais robusto e, sobretudo, sem contrapartidas que desonerem a folha de pagamento”.
Para ele, a economia nacional ainda convive com custos elevados e gargalos estruturais.
Jornada de trabalho
Empresariado local pede cautela no debate sobre o fim da escala 6×1 em análise no Congresso. A presidência da Fieam avalia que o tema tem apelo social legítimo, mas precisa ser analisado com rigor técnico para não agravar a desindustrialização do país.
Somar isso a uma eventual mudança profunda na jornada de trabalho pode, de maneira imediata, “estimular a informalidade e desincentivar novos investimentos no setor produtivo”.
“O caminho para o bem-estar social deve, obrigatoriamente, passar pelo fortalecimento da segurança jurídica e pelo aumento real da eficiência sistêmica da nossa economia, sob o risco de comprometer a sustentabilidade do parque industrial a longo prazo”, concluiu.
Diretor da CNC defende acordo coletivo
Na semana passada, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) participou de uma audiência pública na Câmara dos Deputados para discutir os impactos da eventual revisão da escala de trabalho.
O diretor da CNC e presidente em exercício da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de São Paulo (Fecomércio-SP), Ivo Dall’Acqua Junior, reiterou que as mudanças devem ser fruto de convenções e acordos coletivos, respeitando a realidade de cada setor.
O representante da CNC lembrou que diversos setores já praticam jornadas específicas, fruto de negociação coletiva, como é o caso da saúde com o modelo 12×36, e que legislações rígidas e generalizadas podem fragilizar a autonomia sindical e gerar impactos pesados para micro e pequenas empresas.
“Romper esses arranjos pode gerar desequilíbrios, quebrar rotinas de funcionamento e aumentar custos operacionais”, afirmou.
‘No Japão, a carga é 40 horas semanais, aqui é 44’
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas (Sindmetal-AM), Valdemir Santana, que também preside a Central Única dos Trabalhadores (CUT) no estado, classificou como vergonhoso o fato de o Brasil ainda possuir em lei uma jornada de trabalho de 44 horas.
Segundo ele, o país é o único da América Latina que ainda possui esse teto.
“Você pega uma empresa na Coreia e no Japão, a carga lá é 40 horas semanais e aqui no Brasil é 44 horas, isso é vergonhoso. A saúde [do trabalhador] tem que ser prioridade, isso que o governo Lula falou é verdade. Todo mundo tem que reduzir o trabalho, porque a eficiência nas fábricas melhorou há muito tempo”, disse.
Santana ressaltou que a proposta é defendida há muitos anos pela CUT e destacou a aprovação de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) no Senado, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), que diminui a carga de trabalho para 40 horas já em seu primeiro ano e reduz gradualmente até 36 horas, o equivalente a seis horas diárias de trabalho.
“A última vez que se reduziu a jornada de trabalho no Brasil foi em 1988. Na época, as empresas faziam uma moto em 52 segundos, agora é em 15 segundos, uma TV era 43 segundos, agora é 4 segundos. Isso significa que a produtividade no Brasil melhorou muito e, coincidentemente, a atividade efetiva começou a prejudicar a saúde do trabalhador”, completou.