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Sinais silenciosos: Especialista alerta para problemas de Ouvido, Nariz e Garganta em crianças

Otorrinolaringologista pediátrica explica como identificar precocemente condições que podem afetar o desenvolvimento e aprendizado infantil.

Publicado em 26/06/2025 às 17h18
Sinais silenciosos: Especialista alerta para problemas de Ouvido, Nariz e Garganta em crianças

A pequena Ana, de 5 anos, sempre foi considerada uma criança “distraída” pelos pais e professores. Na escola, frequentemente pedia para os colegas repetirem o que diziam, falava em tom mais alto que o normal e apresentava dificuldades de concentração durante as atividades.

 

O que a família não imaginava era que por trás desse comportamento estava um problema auditivo que, se não fosse identificado precocemente, poderia comprometer significativamente seu desenvolvimento acadêmico e social.

 

Casos como o de Ana são mais comuns do que se imagina. Segundo estudos científicos, os problemas otorrinolaringológicos – que envolvem ouvido, nariz e garganta – representam uma parcela significativa das consultas pediátricas e podem ter impacto considerável no desenvolvimento, aprendizado e qualidade de vida das crianças. No entanto, a identificação precoce desses problemas ainda representa um desafio tanto para famílias quanto para educadores.

 

“O que mais me preocupa na minha prática clínica é ver crianças que chegam ao consultório com problemas que poderiam ter sido identificados muito antes, evitando prejuízos no desenvolvimento”, explica a Dra. Renata Garrafa, otorrinolaringologista especialista em atendimento pediátrico. “Muitas vezes, sinais claros são interpretados como características de personalidade ou fases passageiras do desenvolvimento.”

O desafio da identificação precoce

Os problemas otorrinolaringológicos em crianças incluem uma ampla gama de condições: otites recorrentes, hipertrofia de amígdalas e adenoides, rinite alérgica, perda auditiva, distúrbios do equilíbrio e alterações na respiração. Embora sejam condições relativamente comuns, sua identificação precoce enfrenta obstáculos significativos.

 

O principal desafio reside na própria natureza da comunicação infantil. Crianças pequenas frequentemente não possuem vocabulário adequado para descrever sintomas como dor, pressão, zumbido ou tontura. Mesmo quando conseguem expressar algum desconforto, têm dificuldade em localizar precisamente a origem do problema. “Uma criança de 1-2 anos não vai chegar para os pais dizendo ‘estou com dor de ouvido’. Ela vai ficar irritada, chorar mais, ter dificuldade para dormir”, esclarece a Dra. Renata.

 

Além disso, crianças que convivem com sintomas crônicos – como audição reduzida ou respiração bucal – podem considerá-los normais, não os relatando espontaneamente. “É como se fosse o mundo delas. Uma criança que sempre teve dificuldade auditiva não sabe que existe outra forma de ouvir”, complementa a otorrino para crianças.

 

O impacto desses problemas no desenvolvimento infantil é mais significativo do que muitos pais imaginam. Pesquisas demonstram que crianças com alterações vestibulares, por exemplo, apresentam mais dificuldades escolares. Problemas auditivos podem causar atrasos no desenvolvimento da fala, enquanto a respiração bucal crônica pode afetar o desenvolvimento facial e causar problemas ortodônticos.

Sinais de Alerta que não devem ser ignorados

Durante nossa conversa, Dra. Renata Garrafa enfatiza a importância de pais e professores estarem atentos a sinais específicos que podem indicar problemas otorrinolaringológicos. “Existem comportamentos que são verdadeiros sinais de alerta, mas que frequentemente são atribuídos a outras causas”, alerta.

 

Relacionados à audição, os sinais incluem: criança que fala em volume alto constantemente, pede frequentemente para repetir o que foi dito, responde inadequadamente a perguntas, vira a cabeça para um lado específico ao escutar, apresenta desatenção seletiva ou atraso no desenvolvimento da fala. “Muitas vezes, uma criança considerada ‘desobediente’ na verdade não está ouvindo adequadamente as instruções”, explica a otorrino pediatra.

 

Quanto à respiração, os pais devem ficar atentos à respiração bucal persistente, ronco noturno, pausas respiratórias durante o sono, presença de baba no travesseiro pela manhã, olheiras pronunciadas e alterações na face, como alongamento facial ou lábios constantemente entreabertos. “O ronco em criança nunca é normal. É sempre um sinal de que algo está obstruindo a passagem do ar”, enfatiza a otorrino infantil.

 

Problemas de equilíbrio podem se manifestar através de quedas frequentes sem causa aparente, dificuldade em atividades que exigem equilíbrio, enjoo excessivo em veículos em movimento, desconforto em brinquedos giratórios ou dificuldades na coordenação motora. “Pais frequentemente atribuem quedas frequentes à ‘falta de jeito’ da criança, quando na verdade pode ser um problema vestibular”, observa a especialista.

 

Alterações na fala também são importantes indicadores: voz anasalada (fanhosa), dificuldade na pronúncia de determinados sons ou substituição sistemática de fonemas nasais podem indicar problemas nas vias aéreas superiores.

Desmistificando crenças populares

Um dos maiores obstáculos para a identificação precoce de problemas otorrinolaringológicos são os mitos e crenças culturais arraigados. “O maior mito que encontro no consultório é a ideia de que ‘vai passar com a idade'”, revela Dra. Renata. “Embora algumas condições realmente melhorem com o crescimento, outras podem se agravar ou causar sequelas permanentes se não forem tratadas adequadamente.”

 

A crença de que “todas as crianças têm otite” é outro equívoco comum. Embora as otites sejam frequentes na infância devido às características anatômicas, otites recorrentes – mais de quatro episódios por ano – podem indicar problemas subjacentes que necessitam investigação especializada. “Não é normal uma criança ter otite todo mês. Isso pode indicar problemas imunológicos, alérgicos ou anatômicos que precisam ser investigados”, esclarece.

 

O ronco infantil é frequentemente normalizado pelos pais, que acreditam ser apenas uma característica individual da criança. “Ronco em criança sempre indica obstrução das vias aéreas superiores. Pode ser adenoide aumentada, amígdalas hipertróficas ou outras causas, mas nunca é normal”, alerta a especialista. O ronco pode estar associado à síndrome da apneia obstrutiva do sono, que pode causar problemas de crescimento, dificuldades de aprendizado e alterações comportamentais.

 

Outro mito comum é atribuir atrasos na fala exclusivamente à “preguiça” da criança ou à superproteção familiar. “Sempre que há atraso significativo na fala, é fundamental investigar a audição. Uma criança que não ouve adequadamente não desenvolve a fala normalmente”, explica Dra. Renata.

O papel dos professores e o ambiente escolar

O ambiente escolar oferece uma oportunidade única para identificação de problemas otorrinolaringológicos, já que permite a observação da criança em situações de interação social e aprendizado. No entanto, professores enfrentam desafios específicos nessa identificação.

 

“Professores frequentemente são os primeiros a notar que algo não está certo, mas nem sempre sabem interpretar os sinais”, observa Dra. Renata. Salas de aula numerosas dificultam a observação individualizada, enquanto o ambiente frequentemente ruidoso pode mascarar dificuldades auditivas leves a moderadas.

 

Sintomas como desatenção, dificuldade de compreensão ou baixo rendimento escolar são frequentemente interpretados como problemas de aprendizagem ou comportamentais, quando na verdade podem ter origem otorrinolaringológica. “Uma criança que não consegue se concentrar pode ter um problema auditivo que a impede de acompanhar as explicações adequadamente”, exemplifica a especialista.

 

A comunicação efetiva entre escola e família é fundamental para o encaminhamento adequado de suspeitas. “Quando um professor observa sinais de alerta, é importante que comunique aos pais de forma clara e orientativa, sugerindo uma avaliação especializada”, recomenda Dra. Renata Garrafa.

Quando procurar ajuda especializada

A decisão de procurar um otorrinolaringologista pediátrico deve ser baseada na persistência e intensidade dos sintomas, bem como em seu impacto no desenvolvimento da criança. “Não existe uma regra rígida, mas qualquer sintoma que persista por mais de duas semanas ou que interfira nas atividades diárias da criança merece investigação”, orienta a otorrino.

 

O pediatra desempenha um papel fundamental como primeiro ponto de contato, realizando avaliações iniciais e encaminhamentos quando necessário. No entanto, algumas situações requerem avaliação especializada direta: ronco persistente, suspeita de perda auditiva, otites recorrentes, respiração bucal crônica, atraso significativo na fala ou alterações do equilíbrio.

 

“O ideal é que a avaliação seja feita o quanto antes. Quanto mais precoce o diagnóstico, melhores são as possibilidades de tratamento e menor o impacto no desenvolvimento”, enfatiza a especialista. Exames como audiometria, nasofibroscopia e, em alguns casos, exames de imagem podem ser necessários para um diagnóstico preciso.

Orientações práticas para os pais

Dra. Renata Garrafa oferece orientações práticas para pais preocupados com possíveis problemas otorrinolaringológicos em seus filhos. “O primeiro passo é a observação atenta e sistemática. Mantenham um diário dos sintomas, anotando quando ocorrem, sua intensidade e possíveis fatores desencadeantes.”

 

É importante criar um ambiente favorável à comunicação com a criança, perguntando sobre desconfortos de forma simples e direta. “Perguntem se o ouvido dói, se conseguem ouvir bem, se o nariz está entupido. Usem linguagem adequada à idade da criança”, sugere.

 

A prevenção também é fundamental. Manter a vacinação em dia, evitar exposição ao fumo, controlar alergias ambientais e manter boa higiene nasal são medidas importantes. “Ensinar a criança a assoar o nariz corretamente, uma narina de cada vez, pode prevenir muitos problemas”, acrescenta a especialista.

 

A mensagem final da especialista é clara: “Confiem na intuição de vocês, pais. Se acham que algo não está certo, procurem ajuda. É melhor uma consulta desnecessária do que um problema não diagnosticado.” A atenção aos sinais silenciosos pode fazer toda a diferença no futuro de uma criança, garantindo que ela tenha todas as condições para se desenvolver plenamente e alcançar seu potencial máximo.

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