Sonho de estudar no exterior realizado
Arthur Charles deixou o Amazonas em busca de novas oportunidades e hoje cursa mestrado em Porto
Formado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), MBA em Direção de Arte pela Estácio de Sá e uma especialização em Marketing Digital pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), de São Paulo, o paraense com raízes no Amazonas, construídas durante o período em que morou em São Gabriel da Cachoeira e em Manaus, Arthur Charles Soares Corrêa, 30, alimentava o sonho de estudar em outra cidade, impulsionado pelo desejo de cursar cinema, que já rondava sua mente na época em que decidia para que curso prestaria o vestibular.
Mas, antes disso, ainda na infância e adolescência, ele, filho de pai ex-militar e motorista e de mãe desempregada, que cresceu no bairro Jorge Teixeira, na zona Leste de Manaus, enxergou na universidade uma chance de melhoria de vida, chegando a ser premiado no Intercom Norte como melhor projeto de telenovela.
“O que me deu a chance de conhecer o Rio de Janeiro pela primeira vez e os estúdios da Globo. Nos anos seguintes, também ganhei prêmios Intercom de melhor programa em áudio (podcast dramatizado), videoclipe e revista editorial”, conta.
TRAJETÓRIA NA ÁREA DE COMUNICAÇÃO EM MANAUS
Ainda como estudante, Arthur deu início à sua trajetória profissional, começando como estagiário na TV A Crítica, no programa Manhã no Ar.
“No início, minha função era simples: levar água, organizar roteiros, receber convidados. Aos poucos, cresci internamente: virei produtor de rede (enviando matérias para São Paulo, quando a emissora ainda era afiliada à Record), depois editor de texto e, por fim, passei dois anos como diretor do programa Magazine”, cita, frisando que foram oito anos de experiência na TV – intensos, árduos, mas fundamentais para aprender a contar histórias de forma visual.
Logo após, ele trabalhou no Governo do Amazonas, na Secretaria de Comunicação, como coordenador de redes sociais. “Foi um período em que aprendi muito sobre marketing digital, gestão de redes e adaptação de linguagem. Liderar a equipe foi uma experiência enriquecedora, principalmente por acompanhar a transição de uma comunicação institucional mais rígida para algo jovem, leve e inclusivo”, enfatizou.
DECISÃO DA MUDANÇA
Após ter construído uma trajetória profissional dentro da área de comunicação na capital amazonense, o cinema novamente falou mais alto junto com a vontade de mudar de cidade.
A primeira opção seria São Paulo. Mas o destino acabou levando o jornalista para o Porto, em Portugal, onde ele é, atualmente, mestrando em Ciências da Comunicação na Universidade do Porto.
“Sempre tive o sonho de estudar fora de Manaus, principalmente porque meu desejo inicial era cursar cinema, algo que não havia na cidade. Cogitei São Paulo, mas o destino acabou me levando a Portugal. Pesquisei várias universidades, dentro e fora do Brasil, e me inscrevi em algumas, incluindo a Universidade Federal de Minas Gerais e instituições na Espanha. A Universidade do Porto foi a primeira a me aceitar, e decidi que seria meu destino”, recorda o comunicólogo, que, sem recursos financeiros na época, não pensou duas vezes em vender seus pertences e abrir uma vaquinha online para a realização do seu sonho.
Já em Porto, ele diz que sua rotina inclui o trabalho como especialista em marketing digital de uma empresa de móveis e o estudo na Universidade. “Trabalho oito horas por dia e, durante o primeiro ano do mestrado, frequentava aulas à noite. Agora, no segundo ano, estou dedicado apenas à dissertação, o que me dá mais tempo para viajar e conhecer Portugal com calma”, comenta.
Para ele, o que mais lhe agradou em Porto foi a tranquilidade por ser considerada uma cidade global e bem posicionada, diferente do que estava habituado.
“A qualidade de vida é excelente, com muitos parques, áreas verdes e segurança. Para quem vem de Manaus, onde o índice de violência é maior, o contraste é enorme. Para quem visita, minha recomendação é simples: se perder pelas ruas históricas até chegar à Ribeira e assistir ao pôr do sol no Jardim do Morro. É um clichê, mas parece uma pintura dourada refletida nas construções antigas. É lindo”, dá a dica.
O mestrando em Ciências da Comunicação ressalta que sua maior dificuldade ao chegar no país português foi lidar com a cultura local. Já do Brasil, ele sente falta das comidas com ingredientes amazônicos.
“Em Portugal, as pessoas são mais fechadas, individualistas e ainda muito ligadas ao passado. Vindo do Brasil, onde tudo é maior, mais festivo e coletivo, precisei me acostumar a um ritmo diferente. No Brasil, sinto falta principalmente da comida: o tacacá, o vatapá e o tambaqui assado não têm substituto em lugar nenhum do mundo”, elogia.
XENOFOBIA E IMIGRAÇÃO
Além disso, ele fala que, embora se comente muito sobre a xenofobia em Portugal, especialmente em relação aos brasileiros, em alguns casos é verdade que sim, ela pode existir.
No entanto, ele observa que a xenofobia é um fenômeno crescente em todo o mundo, principalmente porque a imigração tem sido usada como pauta política pelas grandes potências.
“Já vivi situações difíceis e ouvi coisas ruins, mas penso que, antes de apontarmos o dedo, também precisamos olhar para o Brasil. Em Manaus, por exemplo, há xenofobia contra haitianos e venezuelanos; em São Paulo, contra nordestinos. Ou seja, enquanto sociedade, essa marca não é exclusiva dos europeus”, aponta, reforçando que, apesar disso, também encontrou em Portugal pessoas com um coração enorme, dispostas a ajudar, e que hoje considera como sua segunda família.
“Existe uma curiosidade genuína sobre nós, brasileiros: gostam da nossa cultura, vibram conosco. O que se percebe hoje em Portugal é, em grande parte, reflexo de políticas baseadas no discurso de ódio. Mas acredito que a forma de combater isso é criando pontes em vez de muros, fortalecendo a união entre povos em vez de fomentar a divisão”, analisa.