Tarumã pede socorro
Vazante expõe o montueiro de lixo e canos de esgoto que despejam todos os dias dejetos no rio tomado por flutuantes
O Rio Tarumã-Açú segue lentamente o caminho de outros cursos d’água em Manaus que foram sufocados pela poluição. À medida que a vazante avança, surge o lixo. Embarcações fantasmas são evidenciadas e as tubulações de esgoto são facilmente identificadas. Todos esses fatores, prejudiciais para a qualidade da água, são monitorados e os pesquisadores cobram uma ação efetiva para manter viva a maior bacia hidrográfica urbana da capital.
Subimos rio adentro em busca de respostas, saindo da Marina do Davi chegando próximo ao Igarapé da Bolívia. Ao longo do percurso, a tranquilidade das águas do Tarumã-Açú é interrompida a todo o momento pelo vai e vem das embarcações com moradores, turistas, trabalhadores e encomendas. A cidade flutuante está consolidada. Casas, estaleiros, bares, restaurantes e até salão de beleza. Tem de tudo por ali.
Esse potencial econômico, para o biólogo e doutor em ecologia e conservação e mestre em ciências florestais e ambientais, Rogério Fonseca, seria a chave para a preservação dos mananciais, pois o uso poderia ser facilmente conciliado com os cuidados com a água. A questão é que isso não tem acontecido.
“O Tarumã-Açú acabou sendo um espaço para múltiplos atores sociais na nossa cidade ter um espaço recreacional ali. Só que ao longo do tempo, principalmente do período anterior à Copa do Mundo, até o presente momento, a gente viu essa explosão de flutuantes”, disse.
Ocupações
Mas não são apenas as ocupações das águas que preocupam. A especulação imobiliária e as ocupações de terra explodem na região na Zona Oeste de Manaus. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que entre 2000 e 2010 (último dados disponível) a população no bairro Tarumã cresceu 285%, passando de 7.291 para 28.057. E o aumento expressivo no passado, ainda reflete o quadro dos últimos 13 anos. A área verde traiu diversas ocupações onde surgiram comunidades, inclusive já consolidadas como Parque Riachuelo, Parque São Pedro e Comunidade das Nações Indígenas.
A ocupação desordenada das áreas verdes levanta uma preocupação antiga: o descarte dos dejetos nos igarapés que compõem o corpo hídrico. O carpinteiro, Evandro Paiva, 58, mora em uma casa flutuante na margem direita do Tarumã-Açú há 30 anos e acompanhou a expansão das habitações e empreendimentos no local. Ele foi um dos primeiros a chegar, vindo da zona rural do Município de Manacapuru (distante 84 quilômetros de Manaus) em busca de oportunidades de empregos.
Evandro culpa o despejo do esgoto e do lixo das casas em terra firme pela redução da qualidade da água. “Esses condomínios jogam todo o esgoto para cá. Vem desde a ponte da Bolívia e destaboca aqui na Marina das Margens. Quando começa o inverno ninguém consegue andar com tanta garrafa pet que vem ali de cima, vem da cidade”, conta o carpinteiro.
Esgotos

(Foto: Márcio Silva)
Os esgotos são jogados no rio à luz do dia. Das imponentes casas envidraçadas na orla próxima à Marina do Tauá os canos expostos pela seca mostram o despejo de rejeitos domésticos direto no rio. Próximo à Marina do Davi flagramos inclusive a recente construção irregular de alguns poços artesianos. O lixo está por toda parte ocupando a faixa de areia que cresce conforme o avanço da vazante. A proporção do problema fica clara com a passagem da balsa da Prefeitura de Manaus abarrotada de resíduos exalando um odor de chorume.
Essa semana, em entrevista ao site Amazonas Atual, o próprio secretário estadual de Meio Ambiente, Eduardo Taveira, admitiu que a falta de saneamento básico é o principal fator de contaminação das águas do Tarumã. Tais afirmações, segundo a Sema, são feitas com base em estudos do Programa Qualiágua, executado em conjunto com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), apontando que a maior parte dos dejetos são provenientes da ausência de rede de esgoto no bairro Redenção, Zona Centro-Oeste de Manaus.
“Praticamente, toda a bacia do Igarapé do Gigante, que ocupa parte da Redenção, todos os dejetos vão in natura, sobrecarregando o Tarumã”, disse o secretário.
Esse processo de poluição é observado por Rogério Fonseca, que também é membro do Conselho Regional de Biologia da 6ª Região. Para ele, caso nada seja feito para controlar o processo de ocupação desordenada das áreas próximas aos afluentes, o Tarumã será “a próxima Zona Sul”, onde os rios e igarapés foram mortos para expansão residencial.
Tem que retirar?
O pesquisador cobra a estruturação do Plano da Bacia Hidrográfica. Segundo a Sema, o projeto matriz para a utilização do Tarumã, por enquanto, está em fase de finalização dos estudos para abertura do chamamento público. Para execução dos estudos, no entanto, seria necessário a retirada dos flutuantes, algo que Rogério discorda e afirma que esse estudo saíria até mais barato se fossem usados os estudo já disponíveis.
O biólogo afirma que é possível construir esse plano, com os dados de pesquisas acadêmicas já disponíveis e que foram desenvolvidas ao longo de décadas pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia (INPA), por exemplo.
Apesar do Tarumã ser uma das poucas bacias hidrográficas com um conselho gestor, para Rogério, a composição é pouco técnica, o que não colabora, segundo ele, para o alinhamento entre as partes interessadas na proteção da área.
“São duas unidades de conservação. Duas áreas de proteção ambiental que estão sobrepostas: uma da cidade, ou seja, do município, e outra do estado. Elas se sobrepõem umas às outras. A bacia hidrográfica é estadual, ou seja, nós temos um conselho de gestão da bacia hidrográfica também. Ou seja, tem triplo gerenciamento. Mesmo tendo três instituições gerenciando esse espaço, a gente percebe que claramente esse cachorro chamado Tarumã-Açú está morrendo de fome”, contextualizou o biólogo.