Toadas esquentam rivalidade entre bois
Os temas das toadas são aqueles que mais deixam os bois chateados
Com um linguajar tipicamente regional, as toadas de desafio deste ano servem para esquentar ainda mais a disputa entre os bumbás Garantido e Caprichoso, elevando os brios das duas torcidas dentro e fora da arena. Com ingredientes que fazem raiva dos dois lados, elas também trazem boas doses de humor em suas letras.
O autor da toada “Mas quando já!”, Mencius Melo, explica que a ideia foi reunir o máximo de informações que deixassem a torcida do contrário com raiva. Para isso, ele tratou de lembrar que o Boi Garantido é pentacampeão, título que o Touro Negro ainda não conquistou. Para apimentar, mexeu com a Nação Azulada ao destacar o fato de que “pelo lado de lá” o Boi Caprichoso tem dificuldade em entrar em um consenso sobre quem é o seu fundador. “Ao mesmo tempo em que ironiza, a toada provoca o contrário, fazendo com que eles se batam todos pelo lado de lá”, brinca Mencius Melo.
No lado Azul, o compositor Rozinaldo Carneiro explica que eles foram resgatar um antigo personagem conhecido em Parintins por conta de seus causos, para “tirar onda” com o contrário. “Trata-se de um antigo bordão que circulava pela cidade. Todo mundo que contava muita mentira era chamado de Petchê”, explica Rozinaldo, autor da toada “Aplica, Petchê!” ao lado de Alder Oliveira. O compositor destaca que o trabalho também é recheado de provocações, como a polêmica envolvendo a idade do fundador do Boi Garantido, Lindolfo Monteverde. “Em 1913 o teu mestre era um garoto”, diz trecho da toada. Uma pequena mostra de que a briga pela festa do centenário, ano que vem, promete ser uma das mais disputadas do Festival Folclórico de Parintins.
Resgate
Os compositores concordam com uma coisa: é preciso resgatar as toadas de desafio na festa dos Bois. “Todo ano deveriam ter muitas. Trata-se de um ingrediente que mexe com os brios das torcidas, instiga as galeras. Se não fosse isso, o festival já tinha acabado”, opina Rozinaldo.
Mencius Melo acredita que as toadas de desafio dão força ao espetáculo de arena dos bumbás. Além disso, ajuda a difundir o linguajar típico da região e aproximar os amazonenses com a realidade do interior. “É preciso levar a nossa identidade para o resto do País”, afirma Mencius. “O importante é trazer o linguajar caboco para as toadas”, defende Rozinaldo.
O petchê original
O personagem que inspirou a toada “Aplica, Petchê!”, Carlos Marinho Farias, 44, vive hoje em Manaus. A história dessa verdadeira figura típica regional teve início ainda na adolescência. Ele conta que tinha vergonha de dizer que vinha de uma família humilde. Filho da lavadeira Maria Farias e do carvoeiro Carlos Ribeiro, o jovem Carlos começou a espalhar suas primeiras mentiras. “Eu tinha vergonha, os meu vizinhos eram de classe média e o único filho de pessoas humildes era eu. Como era bonitão na época, dizia que era filho de vereador, de prefeito e de outras autoridades”, lembra. Seus causos logo foram ganhando fama. Por onde passava as pessoas o reconheciam. “Aplica Petchê, gritavam quando me viam passar”, relembra. Ele afirma não se importar com as brincadeiras, só não gosta quando tentam transmitir para os outros a imagem de que ele é “maligno”. “As brincadeiras fazem parte, mas tem gente que não sabe o que diz”, destaca Carlos Marinho, que trabalha atualmente como artista plástico.