Trabalhadores de serviços essenciais relatam como o crime organizado substituiu o Poder Público
Facções criminosas hoje impõem regras, controlam territórios e expulsam a soberania do Poder Público sob o silêncio de quem deveria enfrentá-las
Por trás do cartão-postal da floresta, do fluxo turístico e da pujança da Zona Franca, uma guerra silenciosa redesenha o mapa de Manaus. Não se trata apenas de tráfico; trata-se de governança. Facções criminosas hoje impõem regras, controlam territórios e expulsam a soberania do Poder Público sob o silêncio de quem deveria enfrentá-las.
“Irmão, é melhor tu sair fora. Tá rodando muito por aqui.” A frase, dita com frieza por um homem armado, não saiu de um roteiro de filme policial. Foi ouvida por um prestador de serviço essencial, em plena luz do dia, enquanto tentava fazer seu trabalho no bairro Novo Aleixo, zona Norte da capital amazonense. Ele não discutiu. Comunicou a chefia, deixou o local e seguiu o protocolo: área vermelha, serviço não realizado.
Mas o que os relatórios internos, lidos de forma isolada não dizem e o que A CRÍTICA releva é que esse tipo de abordagem se tornou rotina em alguns locais da cidade. Técnicos de internet, entregadores, agentes de saúde, motoristas por aplicativos e vários outros trabalhadores convivem com ameaças, armas apontadas e ordens diretas de criminosos que controlam o território como se fossem prefeitos de fato. Em bairros como Santa Luzia, Colônia Antônio Aleixo, Jorge Teixeira, Compensa, Tarumã e o próprio Novo Aleixo, o Poder Público é um visitante indesejado.
A reportagem ouviu, sob anonimato, trabalhadores de empresas de serviços essenciais que atuam em Manaus. Os relatos são unânimes, há regiões da cidade onde só se entra com autorização informal de quem manda e quem manda não usa crachá, mas fuzil.
“Tem lugar que a gente só entra se for escoltado por alguém da comunidade. E mesmo assim, com medo. Já vi colega ser espancado, já vi arma na cara de técnico só porque ele estava com uniforme de empresa”, conta um instalador de internet que atua na zona Leste.
“Vamos circulando, quem quiser internet que ligue a partir das 8h da manhã. Essa hora vai chamar atenção da polícia”, ouviu o funcionário sob ameaça armada.
A prática que parece inofensiva é o chamado toque de recolher, maneira que os criminosos encontraram de manter o controle do território para proteger os negócios ilícitos.
As empresas que prestam serviços nessas áreas evitam o confronto direto. Quando um funcionário é ameaçado, o caso raramente vira boletim de ocorrência. Em vez disso, o episódio é registrado internamente como “área de risco” ou “área vermelha”. A linguagem burocrática esconde a realidade: o crime organizado está vencendo.
“Eles não querem se indispor com ninguém. Preferem fingir que não viram. E a gente que se vire”, desabafa um funcionário.
Atlas da Violência
Os números confirmam o que os relatos já denunciam. Segundo o Atlas da Violência de 2025, Manaus registrou 984 homicídios estimados em 2023, tornando-se a quarta capital mais violenta do país. O estado do Amazonas encerrou o ano com a segunda maior taxa de homicídios da Região Norte, cerca de 37,3 por 100 mil habitantes.
A pesquisa aponta que essa escalada de violência e crimes contra a vida está diretamente ligada à atuação de grandes facções criminosas nacionais, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), cuja disputa por territórios e rotas de tráfico alimenta os conflitos armados tanto em áreas urbanas quanto rurais. A fragmentação desses grupos intensifica a dinâmica de violência e consolida o poder paralelo nas periferias.

Presença ostensiva nas ruas contrasta com o domínio territorial das facções nos becos e vielas (Foto: Divulgação)
Omissão e o justiçamento
Mas é importante enfatizar que a presença das facções não se limita à repressão. Elas oferecem “segurança”, resolvem conflitos locais, impõem toques de recolher e até distribuem cestas básicas. Dessa maneira, tentam conquistar a comunidade, oferecendo uma suposta proteção e mantendo a periferia do seu lado. O poder paralelo se fortalece onde o Poder Público não chega ou finge não ver.
Para a socióloga e advogada Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz e mestre em Filosofia do Direito, esse fenômeno crescente em todo Brasil é resultado direto da omissão do poder público.
“A ausência de serviços públicos, a falta de regulação e de presença qualificada do Estado abre brechas para que o crime organizado se aproprie dessas funções. E isso tem um efeito perverso: a comunidade passa a depender do crime para sobreviver e, em troca, é coagida a obedecer.”
Segundo ela, essa dinâmica vai além da assistência informal. O crime assume o papel de justiça no território. É o chamado justiçamento. “Trata-se de uma forma de governança criminal em que as facções julgam, punem e impõem regras. Isso fortalece uma tirania local, enfraquece ainda mais o poder público e gera descrédito nas instituições. É um ciclo que se retroalimenta, quando não se confia na justiça oficial, recorre-se à justiça do crime.”
Narcocultura e identidade
Da mesma forma que o estado do Rio de Janeiro, o Amazonas parece também não saber como enfrentar essa guerra contra o domínio das facções. Em muitas áreas, quem dita as regras veste bermuda, chinelo e carrega um rádio na cintura.
O domínio das facções e a Narcocultura não se resume às armas apontadas ou às ordens de intimidação. Há uma lógica cultural por trás desse poder paralelo, que molda comportamentos e cria uma forma de autoridade dando outras frentes para a narcocultura. É nesse ponto que o especialista em Segurança Pública Allison Carvalho ajuda a compreender o fenômeno.
“A narcocultura ocupa o espaço de poder e autoridade que deveria ser do Estado. Ela impõe normas, cria regras e atrai jovens que não encontram oportunidades no mercado formal. O crime passa a ser visto como alternativa de sobrevivência e até como identidade.”
A análise de Carvalho mostra que não se trata apenas de violência, mas de uma estrutura cultural enraizada. Facções oferecem proteção, distribuem cestas básicas e resolvem conflitos locais. O resultado é um poder paralelo, onde o crime não apenas controla bens e serviços, mas também a vida social e política das comunidades.
“O fortalecimento dessa cultura interna cria um poder de difícil erradicação. O Estado falha, e o crime ocupa o espaço com violência, cooptação e manipulação cultural”, conclui o especialista.
Sem entrevista
Procurada sobre a questão das facções, a Polícia Civil do AM respondeu, por meio de nota, que não pode conceder entrevista sobre o assunto.