Tradição que sustenta famílias em Manaus
Montados em frente de casa ou aos arredores, espaços são fonte de renda e oferecerem serviços diretamente à vizinhança
As tradicionais barracas instaladas em frente às casas ou nas proximidades representam mais do que comércio local. Elas sustentam negócios familiares que aliam empreendedorismo e conexão com a comunidade. Os espaços com comidas e guloseimas montados em mesas, atraem clientes e atendem diretamente às necessidades da vizinhança, além de gerar oportunidades na capital amazonense.
Transformar a casa em ponto de comércio é a realidade de muitos empreendedores em Manaus. É o caso da barraca “Sabores da Mamusca”, o negócio é a principal fonte de renda de uma família liderada por uma mãe solo. Há cinco anos, a barraca de dona Marinete Tavares Monteiro, de 66 anos, funciona no bairro Mutirão, na zona Leste, e oferece refeições completas, doces e salgados feitos com dedicação e receitas caseiras.
Mamusca começou no ramo da alimentação por necessidade para cuidar das filhas.
“Tudo começou com a venda de salgados para os vizinhos, depois surgiu a ideia de trabalhar em festivais. Já são mais de 27 anos no ramo”, conta. Hoje, com a ajuda de filhas e netas, as vendas podem movimentar até R$ 3 mil nos melhores finais de semana, com lucro médio mensal de até R$ 4 mil para ela, após o pagamento de funcionários e despesas diárias que chegam a R$ 800.
O empreendimento, que funciona de quinta a domingo, não é apenas uma fonte de renda, mas também uma terapia para a família. A filha de Mamusca, Glauria Monteiro, de 33 anos, enfrenta problemas de ansiedade. “Quando estou aqui, gasto energia, ajudo no que for preciso e consigo dormir bem. Isso também fortalece os laços com a mamãe, minha filha e irmãs”, afirma.
Além de sustentar a casa, o negócio tem inspirado as novas gerações. Uma das netas de Mamusca estuda gastronomia, impulsionada pela convivência com o preparo de alimentos e o exemplo da avó. Para Mamusca, o segredo está na união familiar e no amor pelo que faz. “Família que trabalha unida cresce unida. E para empreender, é preciso coragem, foco e muito amor”, conclui.
Resiliência e superação
O caminho até a consolidação da barraca da empreendedora Marinete foi marcado por desafios pessoais e de saúde. Após enfrentar um infarto e passar por um longo período de recuperação, Mamusca teve que pausar as atividades. “Fé foi o que me sustentou. Já enfrentei um câncer, perdi a visão do olho esquerdo por causa de um glaucoma, mas não desisti. Voltei ao trabalho porque esse negócio é meu alicerce”, relata. Mesmo em momentos difíceis, a barraca é como um projeto coletivo, contando com o suporte das filhas para continuar operando.
Hoje, seis pessoas, entre familiares e uma funcionária contratada, participam da produção e do atendimento. O pagamento dos colaboradores é feito com recursos provenientes do movimento diário. “Pago R$ 150 por dia para minha neta que ajuda no atendimento, e a funcionária recebe R$ 100 pela produção na cozinha. Apesar de ser um negócio familiar, faço questão de remunerar quem me ajuda”, explica Mamusca.
O papel na comunidade
Outro exemplo que destaca a importância das barracas como fonte de renda em Manaus é o empreendimento de Josiane Fróes, de 37 anos. O negócio começou como uma alternativa para complementar a renda da família durante um período difícil. Tudo teve início com seu pai, que montou uma barraca para vender tacacá em frente à casa durante um evento de Natal. “Os moradores gostaram e pediram para a gente continuar. Isso motivou a gente a transformar a barraca em algo mais estruturado”, relata Josiane. Hoje, a “Barraca da Josi” não apenas atende a comunidade local, mas também se tornou essencial para as despesas da casa, garantindo alimentos e o pagamento de contas básicas.
O empreendimento é sustentado pelo esforço conjunto da família. Josiane lidera as atividades, enquanto o pai prepara os churrasquinhos, e outros membros contribuem com a venda de sucos, bolos e refrigerantes. A barraca, que opera de quinta a domingo, atende a comunidade com preços acessíveis e produtos diversificados, como tacacá a R$ 20 e churrasquinho completo a R$ 12. Em noites movimentadas, o faturamento pode chegar a R$ 1.800. “Com isso, conseguimos abastecer a casa e ajudar meu irmão, que ficou acamado após uma cirurgia. Esse é o nosso jeito de nos mantermos unidos e superar as dificuldades”, afirma.
Para Josiane, a barraca representa mais do que um empreendimento, sendo também um ponto de apoio para moradores locais que colaboram com o comércio na comunidade. “Não é apenas vender, mas valorizar o espaço e garantir que ele continue sendo nosso e da vizinhança”, enfatiza.
O ambiente acolhedor e familiar conquistou clientes fieis, que valorizam não só os produtos, mas também a dedicação da família. “As pessoas chegam aqui e comentam como é bonito ver todo mundo trabalhando junto. Fazemos questão de oferecer alimentos de qualidade e um atendimento atencioso”, conta Josiane. Apesar de o faturamento não ser a principal fonte de renda da casa, ele é essencial para manter a estrutura familiar e enfrentar as despesas diárias. “A barraca nos ensinou que, com união e força de vontade, é possível transformar desafios em oportunidades”, conclui.