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Viúva de Bruno Pereira cobra retratação de Bolsonaro por “declarações absurdas” sobre o indigenista

A antropóloga Beatriz Matos fez duras críticas à conduta do Governo Federal durante depoimento à Comissão Temporária sobre a Criminalidade na Região Norte, ocorrida na manhã desta quinta-feira (14)

Publicado em 14/07/2022 às 15h25 · Atualizado em 14/07/2022 às 18h40
Viúva de Bruno Pereira cobra retratação de Bolsonaro por “declarações absurdas” sobre o indigenista
Foto: Reprodução/Internet

A antropóloga Beatriz Matos, viúva do indigenista Bruno Pereira, assassinado no Vale do Javari (AM) ao lado do jornalista britânico Dom Phillips, fez diversas denúncias durante  audiência pública da Comissão Temporária sobre a Criminalidade na Região Norte ocorrida no final da manhã desta quinta-feira (14). 

Um dos pontos destacados pela viúva à Comissão foi a demora da ação dos órgãos de segurança pública nas buscas por Dom e Bruno na Amazônia. O desaparecimento do indigenista e do jornalista havia sido divulgado na segunda-feira, 6 de junho, pela Associação Indígena do Vale do Javari (Univaja) e pelo Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato. No entanto, somente dois dias após o comunicado, o poder público iniciou as buscas.


Beatriz Matos participou de audiência pública com o líder indígena e ex-coordenador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Jader Marubo (de azul) (Foto: Agência Senado)

“Desde o primeiro momento a Univaja esteve lá presente e o poder público começou a atuar efetivamente só a partir da quarta feira, então é importante que a gente apure essa demora na ação efetiva do poder público de segurança”, destacou.

Beatriz também criticou o modo como o Brasil vem tratando os povos indígenas da Amazônia e destacou a importância do trabalho de Bruno e Dom no Vale do Javari.

“O trabalho de cuidar da terra, cuidar dos territórios que os povos indígenas exercem tem sido cada vez menos respeitado. E o trabalho que o Bruno vinha fazendo junto com a Univaja é muito voltado para que se garanta as condições de vida desses povos isolados”, comentou ela.

“E é isso que o mundo tem reconhecido, a luta do Bruno e do Dom tem sido reconhecida mundialmente porque estamos tendo cada vez mais consciência global dessa luta, enquanto o nosso país, não. Nosso país tem criminalizado esse tipo de ação dos povos indigenas”.


Beatriz e Bruno, juntos em momento de descontração (Foto: Arquivo pessoal)

Pedido de retratação

Beatriz Matos ressaltou que as famílias de Bruno e Dom não tiveram nenhum tipo de apoio por parte da esfera federal. Ela pediu também uma retratação por parte do presidente da República, Jair Bolsonaro, que segundo ela fez declarações equivocadas sobre a atuação do indigenista e do jornalista britânico pela região. 

“Eu gostaria que o presidente do Brasil, o vice- presidente do Brasil e o presidente da Funai se retratassem em relação às declarações absurdas que eles fizeram concernente ao trabalho do Bruno e do Dom e do Univaja”, declarou.

“A família não recebeu uma palavra de condolência. No funeral do Bruno tinha representante municipal, estadual, e não tinha do Governo Federal, a gente não teve nenhum apoio e o Bruno foi um funcionário público dedicado, hiper comprometido com o trabalho dele. É indignante a falta de apoio que a gente teve da esfera federal desse país, a gente viu a manifestação do primeiro ministro britânico, enfim, eu gostaria de uma retratação”.

Por fim, outro ponto destacado por Beatriz Matos é a falta de políticas públicas voltadas à segurança dos povos indígenas da região do Javari. A renovação de terras para os povos isolados que possuem restrição de uso também foi outro pedido da antropóloga, que chamou a atenção da Comissão para um plano de ação voltado à problemática. 

“Mais de um mês do acontecimento e a gente não tem a execução de um plano emergencial para segurança do Vale do Javari, os funcionários da Funai estão desprotegidos, os próprios indígenas estão desprotegidos. O lugar é deles e eles não podem nem transitar com segurança e o absurdo disso é inominável. É garantir essa segurança estrutural, que o estado esteja presente através de ações, de manejo do pirarucu para essas população ribeirinha não sejam cooptadas pelo tráfico, para que se tenham alternativas sem ter que invadir a terra indígena”, finalizou ela, que pediu para que o crime contra Bruno e Dom não ficasse impune.


Região do Vale do Javari, em Atalaia do Norte (Foto: Divulgação)

Comissão 

Esta é a quarta reunião do colegiado. A audiência pública interativa tem a finalidade de obter informações sobre a crescente criminalidade na região do Vale do Javari e sobre a atuação da Fundação Nacional do Índio (Funai). Para isso, os integrantes vão ouvir as famílias das vítimas e fiscalizar as ações do governo em relação aos casos. O líder indígena e ex-coordenador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) Jader Marubo também foi ouvido pelo colegiado. A comissão é presidida pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que fez o convite a Marubo.

Leia mais: Eliesio Marubo se reúne com deputados do partido Democrata, em Washington D.C

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