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A Crítica
Manaus

Amazônia em som: o ritmo da identidade baré

Beiradão, Música Popular Amazonense e Rock Amazônico traduzem a diversidade e a força criativa dos artistas que constroem a alma musical de Manaus.

Publicado em 24/10/2025 às 19h01
Amazônia em som: o ritmo da identidade baré
Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA

A diversidade cultural de Manaus torna a cidade única. Um dos maiores símbolos dessa identidade vem do interior: o Beiradão. Surgiu nas festas de comunidades ribeirinhas por volta de 1970 e ganhou força na capital nos anos 1980. O nome faz referência à sua origem “às margens dos rios”, ou, na “beira”. A sonoridade envolvente é a mistura da lambada, cúmbia, merengue, salsa e forró, marcada pela presença do saxofone e da guitarra. O saxofonista Teixeira de Manaus (1944 – 2024) é considerado o maior precursor do ritmo.

Roberto Rios, 64 anos, o Pop do Beiradão, atua há 40 anos como músico e produtor musical. Fundador do Instituto Beiradão voltado para o resgate da cultura e artistas que atuam com o gênero, no ano passado, ele recebeu o título de “Mestre do Saber” e “Fazer Cultural nas Artes na defesa do Beiradão”.

“No curto tempo, o Beiradão vai ser um ritmo grandioso igual ao arrocha e à seresta em Manaus. É preciso que o poder público veja com carinho os artistas, apoie e divulgue”, disse.

Com mais de trinta músicas autorais, Rios começou em grupo formado por amigos chamado de “Movimento Beiradão”, com ensaios no quarto da própria irmã.
“Antigamente o beiradão era apenas o sax e com a guitarrada. O nosso Beiradão, de agora, é mais cantado. Continua com o sax, a guitarra, percussão e o teclado. São indispensáveis”, pontuou.
“Muita gente pensa que o Beiradão é só na beira do rio. Nasceu lá e veio para a cidade. Agora é um gênero musical”, acrescentou.

Curiosidade

O Beiradão é Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Amazonas desde 2023, por meio da Lei 6.448. O dia 3 de outubro foi instituído pela Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) como o Dia Estadual do Beiradão, conforme Lei nº 6.797 de 22 de março de 2024. A data faz referência ao aniversário do saxofonista Chico Caju, considerado um dos expoentes da música de Beiradão. Natural de Manaquiri, Caju faleceu em 2022 aos 78 anos de causas naturais.

 

Amazonês

Há 28 anos em Manaus, o cantor Nicolas Junior coloca nos versos das composições características da cidade e do povo, em um verdadeiro “amazonês” da Música Popular Amazonense (MPA). Ele é de Terra Santa, interior do Pará, mas escolheu a capital do Amazonas para fincar raízes. Ao chegar aqui, se encantou pela “receptividade e acolhida das pessoas”.

“É um povo muito acolhedor. Me senti em casa desde que cheguei”, disse Junior.


Nicolas Junior explora nas músicas autorais os aspectos da cidade ()

 

Nicolas considera o álbum “A Divina Comédia Cabocla”, lançado em 2002, em parceria com Joaquim Marinho e Aldisio Filgueiras, “um olhar crítico e bem-humorado sobre Manaus”.

“A tônica do meu trabalho foi sempre explorar os aspectos da cidade, culinária, sociedade, culturais, sociológicos. Sempre com uma pitada de bom-humor. A primeira música que aconteceu do meu trabalho ‘Geisislaine’, uma personagem que passeia pela cidade. Depois veio o ‘Amazonês’ que fala da linguagem, neologismos e a língua local. E depois veio ‘Feira da Panair’ que fala sobre a diversidade dos peixes”, pontuou.

O cantor é grato por todas as oportunidades conquistadas na cidade.

“É maravilhoso trabalhar com a música em Manaus. Eu sou eternamente grato a Manaus por tudo o que me deu. Cheguei aqui sem nada e Manaus me deu todas as oportunidades que precisava para me firmar como artista, como deu para um montão de gente que veio em busca de melhoria de vida, emprego e aqui constituiu família e deu contribuição para a sociedade. Eu amo esse lugar por muitas coisas”, declarou Nicolas.

 


Rock Amazônico

A fusão entre o rock alternativo e a sonoridade amazônica faz do trabalho da banda Batuc Banzeiro, formada pelo trio de manauaras Amada Procópio (bateria e percussão), Bruno Mattos (multi-instrumentista) e Nando Montenegro (voz e violão), uma verdadeira ode à vivência manauara traduzida nas músicas do grupo.

“Independente de gênero ou sonoridade, somos manauaras fazendo música. A produção manauara e amazonense é muito plural e se dá através de conexões muito diversas”, declarou Montenegro.


Batuc Banzeiro é formada pelo trio de manauaras Amada, Bruno e Nando ()

 

As ideias do escritor Milton Hatoun integram a concepção do trabalho da banda.

“Manaus é uma cidade ilhada. A dualidade entre concreto e floresta, entre rios e ruas que cortam a cidade nos serve de ponto de partida conceitual para o nosso trabalho. Musicalmente, nossa produção até aqui tem mesclado nossas influências de rock alternativo com nossas vivências e pesquisas de ritmos amazônicos no geral, seja do interior do Amazonas quanto de outros estados”, disse Mattos.

A Batuc Banzeiro tem dois álbuns, um homônimo e o “Calor de Sombra e Sol”. Para o grupo, é preciso fortalecer produções autorais.

“Manaus tem um cenário musical muito plural. É possível encontrar música para todos os gostos. Mas, em termos de música autoral, percebemos que há muito trabalho a ser feito. Todo o circuito precisa ser fortalecido, a formação de artistas e produtores, apoio a suas produções, a criação de possibilidades de circulação em festivais, eventos e mais espaços culturais que acolham esses trabalhos”, finalizaram Montenegro e Mattos.