Após perder perna em acidente, jovem pretende se tornar paratleta, no AM
Após um ano de tratamento, Janderson Maciel Viegas pôde dar os primeiros passos com uma prótese e se dedica a ajudar outras pessoas que vivem drama semelhante
No dia 10 de julho de 2011 a vida de Janderson Maciel Viegas, 21, mudou. A carona para casa com um motorista embriagado terminou com um grave acidente, que deixou o rapaz em coma por cinco dias e resultou na amputação da perna direita, após sete cirurgias que o deixaram entre a vida e a morte.
Para qualquer jovem de 20 anos no primeiro ano da faculdade, ter uma perna amputada e um prognóstico de que poderia nunca mais voltar a andar, seria uma tragédia. Mas Janderson fez dessa fatídica data um recomeço. E esta semana, após completar um ano de vida (nova), ele deu seus primeiros passos, depois de 12 longos meses de tratamento diário.
As mãos, trêmulas pelo esforço para equilibrar o peso do corpo sobre as barras, contrastavam com o sorriso, que ele não conseguia esconder. “Nem eu mesmo acreditava que teria forças para superar todas essas barreiras”, revela.
A recuperação de Janderson chama a atenção, também, da família e da fisioterapeuta do rapaz, Luciana Carvalho, porque o caso era grave. “A infecção obrigou a amputar a perna direita, e a esquerda teve seis fraturas e rompimento dos ligamentos do joelho. Foram 11 cirurgias e um ano de tratamento para que ele pudesse dar os primeiros passos”, contou Luciana.
Predestinado
Mas nem mesmo os 30 dias internado no hospital – 20 deles na UTI – e as mudanças que se seguiram, de largar o emprego e a faculdade a mudar do apartamento em que morava, no terceiro andar, tiraram dele a vontade de fazer a diferença.
“Eu tive medo que minha vida mudasse para pior. Mas o acidente, as cirurgias, tudo tinha que acontecer. As mudanças aconteceram, mas para melhor. O que a maioria vê como uma tragédia, me abriu portas e deu a oportunidade de realizar sonhos”, conta.
São esses sonhos que o levam, cinco dias por semana, à clínica de fisioterapia Clifran, na rua Monsenhor Coutinho, no Centro de Manaus, onde passa a tarde inteira repetindo, incansavelmente, os mesmos movimentos, dia após dia. Um deles é ajudar outras pessoas a superar traumas como o que ele viveu. “Tenho um sonho de ser palestrante, falar para os outros que passam por isso que os limites não existem. Fui escolhido para fazer a diferença”.
Hoje palestrante com ‘agenda lotada’, Janderson coleciona seguidores que acompanham sua rotina de tratamento pelas redes sociais, e se tornam amigos. “Eu sabia que sofreria preconceito, mas tenho algo importante a dizer, principalmente, aos jovens. Já cheguei até aqui, agora quero ir mais longe. Superar limites significa jamais pensar que é o fim”.
Conto de fadas real
Internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mantido em coma induzido, Janderson pensou ter tido a visão de uma mulher, vestida de branco, olhando para ele ali, preso em uma cama de hospital.
Dias depois, já com a consciência recuperada, teve uma surpresa: não era uma visão, mas sim a mulher que viria a ser sua namorada, Jéssica Melo. Ali nascia uma relação especial, que já dura mais de um ano.
“Quando o acidente aconteceu, eu já conhecia a Jéssica, mas ainda não namorávamos. Até queria ter ido naquele domingo à casa dela, pedir a mão dela em namoro, mas não tive tempo. Saber que ela ‘invadiu’ a UTI só para me ver me deixou surpreso e muito feliz”, lembra.
Jéssica foi ousada. Vestida de branco, arrumou um jaleco e conseguiu burlar a fiscalização do hospital e entrar na UTI, área restrita para os familiares.
“Minha mãe disse que ela foi algumas vezes me ver, enquanto eu estava em coma. Quando saí do hospital, conversei com ela e disse que eu teria dias, e talvez até anos difíceis pela frente, mas ela disse que queria passar por tudo isso comigo. E estamos juntos desde então”, contou Janderson.
Apesar das circunstâncias em que o namoro começou, o relacionamento é promissor. “Para mim, é mulher para a vida toda”.
Sonho paraolímpico
Janderson Viegas não deve parar nos primeiros passos. Os sonhos dele vão muito além: Até as Paraolimpíadas de 2016. Apaixonado por natação desde a infância, o rapaz busca no esporte mais um incentivo para seguir os planos que o acaso tinha para ele. A meta, segundo ele, é ser um campeão paraolímpico.
“Sempre gostei de natação, e acho que tenho boas chances de me profissionalizar e representar o Brasil nos Jogos Olímpicos. Quero trazer uma medalha em 2016”, revelou.
Para isso, ele já começa a se preparar no próximo mês, treinando com outros portadores de necessidades especiais na Vila Olímpica, no bairro Dom Pedro, Zona Centro-Oeste de Manaus. Ele sabe que o desafio é grande, mas diz que nada vai o tirar desse caminho. “De todas as formas que você pensa que vai ser a sua vida no futuro, ela jamais será como você imagina. Nós precisamos nos adaptar e seguir lutando”, disse.
Para atingir todos esses sonhos, Janderson conta com o apoio de uma equipe que inclui a mãe, a namorada, a fisioterapeuta Luciana Carvalho e o primo Felipe Maciel, 25, fiel escudeiro.
Investimentos
O tratamento a que Janderson precisa se submeter é complexo, cansativo e caro. Até agora, com internações, cirurgias e a compra da prótese de fibra de carbono, a família já gastou R$ 25 mil. E deve investir ainda mais na carreira de atleta do rapaz, que tem poucos patrocinadores. Quem quiser patrocinar a carreira de Janderson ou contratar suas palestras pode contatá-lo pelo telefone 9212-4119.