Como a saúde pública amazonense lida com recuperação de dependentes químicos
Seja em Centros de Atenção ou em comunidades de recuperação, a possibilidade de se livrar do álcool e outras drogas representa uma nova chance para as famílias amazonenses
Atualmente, mil e quinhentas pessoas recebem acompanhamento ativo no Centro de Atenção Psicossocial III Álcool e outras Drogas Dr. Afrânio Soares, em Manaus. Esses pacientes acometidos pela dependência do álcool e das drogas recebem acolhimento, atendimento e são acompanhados ativamente por uma equipe multidisciplinar composta por assistente social, médico clínico, médico psiquiatra, educador físico, enfermeiro, terapeuta ocupacional, psicólogo, farmacêutico, entre outros. Vale lembrar que o primeiro atendimento às pessoas com consumo abusivo e prejudicial de álcool deve ser realizado em uma Unidade Básica de Saúde (UBS).
A enfermeira e Mestre em Saúde Mental e Atenção Psicossocial da Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas, Lívia Lima, explica como identificar quando essas pessoas precisam de tratamento e ainda destaca os desafios que enfrenta o paciente que precisa da ajuda.
“A mudança repentina de comportamento é o principal sinal de alerta para perceber que alguém próximo a você está fazendo uso abusivo de alguma substância. Como por exemplo: isolamento social, agressividade ou companhias diferentes como o de costume”, conta ela.
Foto: Arquivo/AC
“Os desafios para tratamento desses usuários são multifatoriais. Um dos principais é o desejo do indivíduo em querer parar de usar álcool ou outras drogas. E, além disso, existem questões do estigma e do preconceito advindos da sociedade que impedem a pessoa de buscar ajuda”.
A rede pública estadual na capital oferta atendimento ambulatorial na Policlínica Governador Gilberto Mestrinho para prevenção de recaídas. O acesso é via Sistema Nacional de Regulação (Sisreg), por encaminhamento de uma Unidade Básica de Saúde (UBS).
Nos casos que necessitem de internação, o Centro de Reabilitação em Dependência Química (CRDQ) Ismael Abdel Aziz realiza o acolhimento como último recurso de tratamento do alcoolismo, com os pacientes sendo encaminhados por médicos, seguindo critérios da regulação. Os casos graves com quadro de intoxicação ou crise de abstinência recebem atendimento em unidades como Serviços e Unidades de Pronto Atendimento (SPAs e UPAs).
CRDQ Ismael Abdel Aziz. Foto: SES-AM
Já no interior, existe CAPS AD em Manacapuru e um em implantação em Parintins. Nos municípios onde não há CAPS AD, esse atendimento é realizado nos CAPS que possuem atendimento geral em Saúde Mental. Na capital, consta nos registros do Centro de Atenção Psicossocial III Álcool e outras Drogas Dr. Afrânio Soares o acolhimento inicial de 7.720 pacientes, desde sua inauguração, em 2015, até hoje.
A gerente da Rede de Atenção Psicossocial da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), psicóloga Efthimia Haidos, conta que a grande dificuldade neste tipo de tratamento refere-se às próprias características dos problemas associados ao uso abusivo de álcool e outras drogas, “uma vez que se trata de um transtorno relacionado a diversos fatores, como questões biológicas, psíquicas e sociais, como a marginalidade, a desigualdade social e a pobreza extrema, as quais são fatores que podem desencadear diversos sofrimentos psíquicos, incluindo o uso abusivo de álcool e outras drogas. Sendo assim o cuidado e as discussões acerca do tema precisam ser multidisciplinares e intersetoriais”.
No ano de 2021, as unidades sobre a Gestão Estadual no município de Manaus realizaram 1.650 atendimentos a pessoas com problemas decorrentes ao uso de álcool e outras drogas. A saber, o CRDQ realizou no ano de 2021, 496 atendimentos e a Policlínica Governador Gilberto Mestrinho, 1.154 atendimentos, entre atendimento médico e de equipe Multiprofissional.
Como funciona o tratamento na capital
A Rede de Atenção Psicossocial – RAPS – instituída pela portaria MS/GS n° 3088/2011, destina-se ao cuidado das pessoas com sofrimento mental e relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Assim, o cuidado a esse público se faz em todos os pontos da rede de saúde, desde a atenção primária até os pontos especializados.
O CAPSad insere-se no ponto de atenção especializada dentro dessa rede de cuidados e destina-se ao atendimento voluntário de pessoas que se encontram em uso abusivo e problemático de álcool e outras drogas, de forma grave. Outras demandas relacionadas a álcool e outras drogas, porém, de intensidade leve e moderada podem ser assistidas por meio dos estabelecimentos de saúde que compõem a APS. Assim, o local do atendimento vai depender de como o paciente encontra-se no momento, podendo iniciar o tratamento na rede especializada e ter a continuidade do acompanhamento na APS, por exemplo.
O CAPSad, enquanto ponto de atenção especializada, possui uma equipe multidisciplinar, composta por assistente social, médico clínico, médico psiquiatra, educador físico, enfermeiro, terapeuta ocupacional, psicólogo, farmacêutico, entre outros. Nos CAPS, a pessoa passa por acolhimento (atendimento inicial) para definir o tipo de acompanhamento mais adequado. A partir daí, é construído juntamente com o paciente e/ou familiar o Projeto Terapêutico Singular (PTS) no qual constará a frequência e as atividades terapêuticas realizadas.
O atendimento poderá ser individual ou em grupo. Independentemente da complexidade do problema, os serviços dos CAPS preveem um plano de ação personalizado que tem como objetivo a melhora dos sintomas, com a possibilidade de ser encaminhado para outras unidades de saúde do SUS, conforme necessidade. Dentre as atividades desenvolvidas nos CAPS, podemos citar: acolhimentos diários, atendimentos individuais e em grupo, oficinas terapêuticas, avaliação biopsicossocial, acompanhamento psicossocial, atenção farmacêutica, orientação social, atividades de reinserção psicossocial. O acolhimento inicial de novos pacientes ocorre de segunda a sexta-feira, entre 7h e 16h, sem a necessidade de agendamento prévio ou encaminhamento para acesso ao serviço.