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A Crítica
Manaus

‘Cracolândias’ se espalham pelos bairros de  Manaus

Usuários de drogas e comércio de entorpecentes expõem o avanço desse problema social em vários pontos da cidade

Publicado em 02/08/2025 às 08h49
‘Cracolândias’  se espalham pelos bairros de  Manaus
Foto: Paulo Bindá

“Comecei a usar pedra com 13 anos e entrei nessa por curiosidade”, afirmou Mário (nome fictício), de 44 anos, usuário de crack que consome entorpecentes debaixo de árvores em um dos vários pontos de “cracolândia” ao longo do Igarapé do Franco, na avenida Brasil, nos bairros Vila da Prata, São Jorge e Compensa, zona Oeste de Manaus. Além dessa região, a capital também conta com uma avanço de pessoas em situação de rua e pontos de drogas nas Praças da Matriz, Remédios, rua José Clemente e Miranda Leão, no Centro Histórico.

Mário destaca que nunca foi forçado a usar drogas e que consome o crack fumado em latas ou piteiras, por pura diversão.

“Tenho casa, tenho filhos, mas às vezes passo de três a quatro dias fora e longe da minha família. Tem gente por aqui que não tem onde morar e vive ao longo da avenida Brasil, em barracos improvisados. Já tentei sair disso, mas sempre acabo voltando”, relatou o usuário, que também admitiu que já cometeu furtos e roubos pelas ruas de Manaus para sustentar o vício.

Segundo o coronel da Polícia Militar do Amazonas (PMAM) e especialista em segurança pública, Amadeu Soares, as cracolândias de Manaus representam uma ocupação territorial promovida pelo crime organizado. De acordo com ele, a ausência do poder público facilita a tomada de áreas por usuários e traficantes, que passam a explorar comercialmente essas regiões.

“Eles começam pela droga, geralmente o crack, que causa dependência muito rapidamente. A partir daí, dominam toda a área. Os imóveis se desvalorizam, são comprados por preços baixos e depois usados para exploração comercial. Isso precisa ser combatido com firmeza. Não basta apenas reprimir. É necessário reprimir e ocupar, porque onde o Estado não atua, o crime ocupa”, afirmou o coronel, que já foi secretário de Segurança Pública do Amazonas.

Pesadelo sem fim

Moradores e comerciantes de ruas como Leovegildo Coelho, Sérgio Pessoa e Miranda Leão, no Centro Histórico de Manaus, relatam viver um pesadelo diário com a presença da cracolândia na Praça dos Remédios. Uma comerciante de 56 anos, que preferiu não se identificar, por medo de represálias, descreveu a situação:

“Eles usam drogas de manhã, à tarde e à noite. Fazem necessidades na rua, nas calçadas, pedem dinheiro para as pessoas e o comércio fica desvalorizado. Estamos sem segurança aqui nessa parte do Centro”, desabafou.

Na manhã de quinta-feira (31), a reportagem de A CRÍTICA esteve in loco nas principais cracolândias da cidade e constatou a presença de barracos improvisados, pessoas em situação de rua e mesmo mães, idosas e crianças. Apesar da presença de policiais militares da 24ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom), os usuários e demais indivíduos em vulnerabilidade social não se intimidavam com a força policial.

Além da Praça dos Remédios, a equipe de reportagem flagrou um usuário em estado de euforia ao consumir drogas na avenida Lourenço Braga e na rua Miranda Leão, ambas no Centro. Também foi observada a venda de entorpecentes nas primeiras horas do dia na rua José Clemente.

De acordo com o delegado Marcelo Martins, titular do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), as cracolândias são um problema que ultrapassa a esfera da segurança pública. “É uma questão que envolve segurança, saúde, assistência social e planejamento urbano. Exige a atuação conjunta de vários órgãos e esferas de governo. A segurança pública sozinha não resolve”, afirmou.

Detenções

Nos últimos 11 anos, 8.115 pessoas foram presas ou detidas no Amazonas por posse e uso de entorpecentes, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025.  O documento também mostra que, entre 2023 e 2024, o Estado apresentou uma redução de 53% nesse tipo de crime. Nacionalmente, os registros de posse e uso de drogas caíram 26% em 2024 em relação a 2023, onde foram 131.238 ocorrências no ano passado, contra 176.364 no anterior.