De “nada consta” a filha registrada
Dayna Bezerra transforma dor em afeto com reconhecimento de paternidade socioafetiva
Por mais de três décadas, o campo “pai” na certidão de nascimento da publicitária Dayna Bezerra trazia apenas uma expressão: “nada consta”. Como milhares de crianças no Amazonas, ela cresceu sem o nome do pai no documento e sem a presença dele na vida.
Essa realidade, que afeta profundamente a formação emocional de tantas pessoas, é refletida em números alarmantes. Desde 2020, mais de 41 mil crianças foram registradas apenas com o nome da mãe no Amazonas, segundo o Portal da Transparência do Registro Civil. Em 2023, foram 9.319 casos, e até maio de 2025, já são mais de 2.400 registros nessa condição. O Amazonas figura entre os estados com maior proporção de registros sem paternidade reconhecida.
Mas a história de Dayna tomou um rumo inesperado e profundamente comovente.
Dayna cresceu com a mãe, uma mulher batalhadora que nunca se casou. Apesar do carinho e da presença constante nas datas comemorativas, como o Dia dos Pais, a ausência de uma figura paterna sempre pesou.
(Foto: Arquivo pessoal)
“Eu enxergava a paternidade como trauma, dor e vergonha. De ser diferente e não ter isso na minha vida”, relembra.
Quando tudo mudou?
A virada veio quando sua mãe, já na maturidade, conheceu Bento, um ex-militar, durante uma temporada em Fortaleza (CE). O relacionamento evoluiu rápido, e logo veio o casamento. Dayna, inicialmente receosa, viajou para participar da cerimônia religiosa em 2023, e foi surpreendida.
“Ele me recebeu de braços abertos, já dizendo que me considerava como filha. Foi mágico.”
O vínculo entre Dayna e Bento cresceu com gestos simples: ele a ensinou a fazer feijoada, elogiava sua carreira em publicidade com orgulho e passou a defender a enteada nas pequenas discussões domésticas. Mesmo morando em bairros diferentes de Manaus, criaram uma rotina de encontros mensais, como o dia de cortar o cabelo de Bento, que virou um ritual de afeto.
“Estou vivendo uma fase nova da minha vida, que nunca pensei que teria. É mágico e incrível.”
Em um momento de intimidade, Bento fez um pedido que emocionou Dayna: queria registrá-la oficialmente como filha. Ela, que sabia quem era o pai biológico e que ele nunca quis fazer parte de sua vida, viu naquele gesto uma escolha carregada de amor.
“Ele não me viu nascer, não me viu crescer, mas me escolheu. Isso vale muito.”
O processo foi rápido e tranquilo. Com testemunhas e fotos que comprovavam o vínculo afetivo, Dayna recebeu uma nova certidão de nascimento com o nome de Bento. E mais: decidiu adotar o sobrenome dele.
“Ele é uma pessoa muito importante pra mim. Faço questão de carregar o nome dele.”
A história de Dayna é um exemplo poderoso de que paternidade vai muito além da genética. Em um estado onde milhares de crianças crescem sem o nome do pai na certidão, o reconhecimento socioafetivo surge como uma alternativa legítima e transformadora.
(Foto: Arquivo pessoal)
“Hoje eu vejo a paternidade como amor. E não é o biológico que define isso, e sim o cuidado, o sentimento, o afeto.”
O chamado de pai
Com a voz embargada de tanta emoção, Bento revelou o que o tocou profundamente e o fez tomar a decisão de querer ser pai de Dayna.
“O que mais me tocou foi quando eu via as fotos dela de criança. Ela parecia desconsolada perto das outras crianças. Eu cheguei a chorar. Dava pra ver o sentimento dela, a solidão. A necessidade que ela tinha de um pai. Era esse o sentimento que ela expressava na fotografia. A falta de um pai, enquanto as outras crianças tinham e ela não.”
Foi esse olhar atento, sensível e amoroso que transformou a vida de Dayna e fez de Bento um presente nas datas comemorativas e nas fotografias da publicitária.