Delegada traça perfil de abusadores e estupradores em Manaus
De abusadores intrafamiliares a estupradores de rua: a titular da Delegacia da Criança e Adolescente, Joyce Coelho, descreveu para A CRÍTICA como é o comportamento desses criminosos na capital amazonense
De janeiro a outubro de 2020, Manaus foi cenário de 354 casos de estupro que envolveram crianças e adolescentes com a faixa etária entre 0 e 17 anos, do sexo feminino, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM). A delegada Joyce Coelho, titular da Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), alertou a sociedade, em entrevista ao A CRÍTICA, que uma grande incidência de casos acontece dentro da família das vítimas.
De acordo com Coelho, os tipos de criminosos mais comuns, com os quais as equipes da Depca lidam, são três: abusadores intrafamiliares, estupradores de rua e divulgadores de conteúdo erótico ou pornográfico de crianças ou adolescentes.
Abusadores intrafamiliares
A delegada aponta que esse tipo de caso é mais comum do que os que envolvem estupradores de rua. Os criminosos estão presentes dentro do seio familiar das vítimas e ocupam uma posição hierárquica superior à delas, dentro da estrutura da família, como pais, padrastos e tios.
“Os criminosos desse tipo têm um perfil sedutor, muitas vezes são o tio ou o padrinho da criança, que acaba seduzindo aquela vítima, que ainda não tem sua personalidade formada, e, muitas vezes, não tem nem noção do que é sexo”, disse.
A depender da idade, é possível que as vítimas não tenham sequer a capacidade de compreender que foram vítimas de um crime sexual. “É comum presenciarmos o relato de crianças de 10 a 11 anos, que afirmam terem entendido que foram vítimas desse tipo de ato somente depois de presenciarem uma palestra escolar ou estudarem o aparelho reprodutor”.
Alguns abusadores intrafamiliares enganam crianças e adolescentes por meio do oferecimento de algo em troca do ato sexual, como doces, que são utilizados, por eles, para impedirem que as vítimas denunciem o crime. “As crianças, na maioria das vezes, acabam aceitando, por medo ou confusão. Alguns criminosos pedem para que as vítimas não contem para os pais, sobre os atos sexuais, afirmando, que, caso elas o façam, a mãe as baterá, ou coisa do tipo. Há várias artimanhas que os abusadores usam para conseguirem praticar o crime várias vezes”, ressaltou.
Estupradores de rua
Coelho afirmou que esses crimes costumam ser de difícil resolução, devido à escassez de meios de se obter provas materiais do crime. “Me recordo de um caso no qual não havia uma câmera de segurança próxima ao local do crime. A vítima não conhecia o agressor. Nesse tipo de casos, precisamos de uma pista para poder achar o estuprador fugitivo, que, pode-se ter certeza, voltará a cometer o mesmo tipo de crime”.
Em novembro de 2019, equipes da Depca prenderam o morador de rua George Soares da Silva Júnior, 25, acusado de estuprar uma adolescente de 16 anos, no prédio desativado da Santa Casa de Misericórdia, situada no Centro, zona Sul de Manaus. Segundo a SSP-AM, George, na ocasião do crime, abordou a adolescente, que estava indo à escola, e, em posse de uma barra de ferro, obrigou a vítima a entrar no prédio abandonado. George foi preso na Feira da Manaus Moderna.
Divulgadores de conteúdo erótico
Conforme Coelho, menores de idade não podem, sob ameaça de punição legal, ser expostos em conteúdos eróticos ou pornográficos.
“Não se pode compartilhar fotos de cunho sexual ou íntimo, por exemplo. Essas imagens ou vídeos, inclusive, acabam por alimentar redes de pedofilia na internet. Esse mercado é atrativo para muita gente. Esse tipo de exposição pode levar a um estupro de vulnerável”, afirmou.
Conforme a delegada, o princípio básico do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) impõe um conceito de proteção integral da criança, que não pode ser exposta aos efeitos nem de violência física, como em uma conjunção carnal, nem de violência psicológica gerada, por exemplo, pela divulgação de fotos íntimas.
Em agosto de 2020, a Polícia Civil (PC) investigou os pais de uma criança do sexo feminino, que “viralizou” nas redes sociais depois de ser gravada dançando funk em cima de um carro, no bairro Novo Aleixo, na zona Norte de Manaus.
Além dos casos mencionados, a Depca lida com outros tipos de crimes, como: assédios sexuais, corrupção de menores, exploração sexual, favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual, tráfico de pessoas, violência sexual mediante fraude, dentre outros.
Sofrimento psicológico presente nos casos
Estupro, na tipologia criminal, enquadra-se tanto nos casos em que há conjunção carnal, quanto nos em que ocorrem somente toques. Coelho destacou, que, nos crimes de violência intrafamiliar, há vítimas que se culpam pela violência ocorrida. Como se trata de casos de abuso que acontecem dentro do seio familiar, a tristeza gerada no quadro psicológico das vítimas é acompanhada de confusão. “Ao mesmo tempo em que as crianças amam a pessoa que as está abusando, elas também sofrem devido ao dano causado. Normalmente, as vítimas procuram a delegacia após abusos crônicos, que duram anos”.
A titular da Depca alertou a sociedade aos sinais exteriores que as vítimas apresentam, no decorrer do período de abuso. Muitas, segundo ela, começam a desenvolver quadros de depressão, pensamentos suicidas ou automutilação. Há casos em que ocorrem mudanças de comportamento.
“Algumas vítimas afirmam que se mutilam como forma de aliviar, externamente, uma dor sentida por dentro. É preciso prestar atenção quando uma criança extrovertida tornar-se introvertida, ou quando uma adolescente começa a apresentar uma grande queda no rendimento escolar”, disse.