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Desafios da paternidade solo no Amazonas: histórias de amor e resiliência

Pais amazonenses mostram como cuidam dos filhos, sozinhos, e os obstáculos enfrentados para dar educação, amor, lazer e muito mais

Publicado em 13/08/2023 às 09h46
Desafios da paternidade solo no Amazonas: histórias de amor e resiliência
Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

O percentual de pais ausentes no Brasil vem crescendo desde 2018. E grande parte deste índice corresponde aos números da região Norte. Só no Amazonas, 32.041 crianças foram registradas só com o nome da mãe, de janeiro de 2018 a dezembro de 2022. Os dados são da Associação dos Notários e Registradores do Estado do Amazonas (Anoreg-AM).

Nadando contra esta maré, há exemplos de pais no Amazonas que estão presentes na vida dos filhos desde o nascimento. Ainda que poucos, eles também enfrentaram os desafios da paternidade solo.

O funcionário público José Galco Castro, de 59 anos, pai da Tammy Castro, de 27 anos, conta que sempre buscou ser o melhor pai de sua filha, após o divórcio com sua esposa.

“Éramos casados, porém depois que Tammy completou cinco anos, nos divorciamos e eu tive que cuidar da Tammy sozinho. Sempre tentei cuidar da Tammy da melhor forma possível. Tive que conciliar o trabalho com o cuidado dela. E para isso, ela sempre estudou nos horários em que eu estava trabalhando”, relembra.


Galco Castro é divorciado e mora sozinho com a filha Tammy (Foto: Divulgação)

Desafios da paternidade

Galco Castro conta ainda que um dos principais desafios na paternidade solo é  ter que cuidar sozinho de uma filha. E, às vezes, é alvo de preconceito que vem até de outros familiares.

“Sou pai divorciado. Muitas vezes as pessoas acham que isso pode atrapalhar a formação da criança. Tem aquele tabu de que a figura paterna não pode criar uma filha mulher (sic). Já sofri preconceito por isso. Pessoas falando que homem não consegue criar filha sozinho. E essas falas vieram até de parentes para você ter noção. Mas, vamos seguindo e demonstrando que isso não é verdade. É possível sim pais solos criarem filhos sozinhos”, ressaltou Castro.

Pai de dois

Outro exemplo de paternidade solo é o do psicólogo Alan John de Andrade, de 32 anos. Pai do Aliff Erick, de 19 anos, e do Théo Valentino, de 8 anos.

Alan conta que o Aliff, na verdade, é seu sobrinho e que passou a cuidar dele depois que seu irmão abriu mão de ser pai.

“Meu irmão e a mulher dele na época abriram mão e entregaram o Aliff para minha mãe. Eu ainda era adolscente quando isso aconteceu. Ele ficou morando com a minha mãe até os nove anos de idade, quando ele decidiu morar comigo”, conta Alan.

Logo após Aliff, apareceu Theo, filho de uma amiga de Alan que não pode cuidar de um bebê prematuro.

“Tinha uma amiga que me ajudava em casa e ela acabou engravidando e não poderia ficar com ele no momento. Foi então que ela perguntou se eu poderia cuidar dele pois ela sabia que o meu maior desejo era ser pai. O Théo ficou comigo desde o nascimento. Ele nasceu prematuro, foi para reanimação, para UTI e depois tudo isso ele conseguiu sair e  vir para casa morar comigo”, comentou.


(Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA)

Trabalho e família

Assim como Galco, o psicólogo precisou conciliar os estudos e trabalho com a paternidade solo. E, para isso, seus filhos passaram a estudar em escolas integrais.

“Enquanto eles estavam na escola, eu estava na faculdade e trabalhando. Sempre trabalhei autônomo, então tive o privilégio de sempre fazer o meu horário de trabalho que era sempre quando eles estavam na escola”, destacou Andrade.

O psicólogo ressalta que teve apoio de sua mãe, no cuidado dos filhos, principalmente do caçula.

“Tive ajuda da minha mãe quando Théo tinha dois anos. Ela passou um ano e meio me ajudando. Ela auxiliou na parte mais crítica da minha faculdade, pois eu precisava estudar bastante. Ela [a mãe] veio e passou um tempo, mas depois ela foi embora. E a gente continuou nesse ritmo, 7h entravam na escola, saíam às 17h. Enquanto isso, eu conciliava minha vida acadêmica e no trabalho”, destacou.

Blog: José Galco Castro, funcionário público, 59

Sou pai divorciado. Muitas vezes as pessoas acham que isso pode atrapalhar a formação da criança. Tem aquele tabu de que a figura paterna não pode criar uma filha mulher (sic). Já sofri preconceito por isso. Pessoas falando que homem não consegue criar filha sozinho. E essas falas vieram até de parentes, para você ter noção. Mas, vamos seguindo e demonstrando que isso não é verdade. É possível, sim, pais solos criarem filhos sozinhos.

 

Amor de pai

 

 Alan  John de Andrade, de 32 anos, ressalta que o amor de pai é essencial na criação dos filhos e, principalmente, demonstrar esse amor. Ainda que Aliff e Théo não sejam seus filhos legítimos, Alan conta que nunca deixou de demonstrar o amor paternal que sente por eles.

“Sempre busquei dar afeto aos meus filhos pois eu não fui criado com demonstrações de afeto. Quer dizer, eu não fui criado sem afeto, mas não tinha demonstração, sabe? E aí eu busquei dentro da minha família ter isso porque é muito importante. Não adianta só você demonstrar que você ama. Às vezes o amor precisa ser falado para o outro entender melhor. Então eu sempre tentei dentro da minha família fazer esse processo de fala de afeto para que o outro entenda e se sinta amado, se sinta importante, se sinta membro de tal família”, ressaltou o psicólogo