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A Crítica
Manaus

Em Manaus, rabino mostra preocupação com ‘normalização’ do nazismo: “Extremamente perigoso”

Representantes da comunidade judaica no AM repudiaram as manifestações favoráveis à criação e legalização de um partido nazista no Brasil. A reação se dá após manifestações de dois apresentadores de um deputado federal

Publicado em 11/02/2022 às 12h52 · Atualizado em 12/03/2022 às 13h10
Em Manaus, rabino mostra preocupação com ‘normalização’ do nazismo: “Extremamente perigoso”

*Colaborou Jefferson Ramos

“Extremamente perigoso e injustificável”. Estas foram as palavras do rabino Shaliach Roe Ícaro Moreno, da Comunidade Judaico Messiânica de Manaus, a respeito das declarações do apresentador Bruno “Monark” feitas no podcast Flow na segunda-feira, defendendo a legalização de partidos nazistas no Brasil. Esse episódio acarretou o cancelamento de contratos com patrocinadores e o seu desligamento do programa no qual era sócio-fundador. No mesmo programa, o deputado federal Kim Kataguiri disse que a Alemanha errou ao criminalizar o nazismo.

Além disso, no dia seguinte, o comentarista Adrilles Jorge também foi demitido da Jovem Pan após supostamente realizar uma saudação nazista durante o programa JP News. Em sua defesa, o comentarista negou a intenção do gesto nazista.

Para o rabino Shaliac Roe Ícaro Moreno, é desrespeitoso e criminoso essas declarações pois o nazismo causou um massacre de judeus e de outros povos. “Não é necessariamente um debate de ideias. Mas a nossa preocupação está dentro de um quadro extremamente perigoso. Algo que desde a Segunda Guerra Mundial se mostrou ser acima de uma ideologia porque ela pesa como uma espécie de crença criminosa contra o povo de Israel, o povo judeu. Tivemos o Holocausto em que seis milhões de pessoas foram assassinadas. E não foram só judeus, também ciganos, pessoas de outros credos”, disse..

Responsabilidade

Shaliach Roe acrescentou que é lamentável as declarações virem de Adrilles e Bruno por serem comunicadores e formadores de opinião.

“Lamentamos muito porque eles tem procurado justificar o injustificável, não é? Quem ocupa os meios de comunicação deve ter extrema responsabilidade com o que diz, com o que fala e obviamente a gente sente profundamente essa discriminação. Nazismo significa primeiramente, um ódio racial. Odiar um povo por odiar. Um povo que só abençoou e vem abençoando a humanidade. Seja através da fé, da religião, da ciência e da própria Shalom, na paz mundial que o povo judeu busca”, acrescentou.

O rabino ressaltou que a existência de um partido nazista no país ou em qualquer outro lugar é uma violação aos direitos humanos universais.

“Óbvio para que nós é impraticável comungar a legalização de nazistas em qualquer perspectiva não só no Brasil, mas na América Latina e em qualquer parte do mundo. Um partido nazista pressupõe exatamente não a luta contra uma visão judaica mas é uma determinação contra a existência do povo judeu que é um povo que é uma nação. Para nós fere a declaração universal de direitos humanos e a qualquer possibilidade de respeito à vida humana”, ressaltou.

A Promotoria de Direitos Humanos do Ministério Público de São Paulo abriu inquérito para investigar suspeita de apologia ao nazismo feita podcaster.

Investigação

Após diversas representações ao Ministério Público Federal (MPF), o procurador-geral da República, Augusto Aras, determinou, na terça-feira, a abertura de uma investigação para apurar a prática de eventual crime de apologia ao nazismo pelo deputado federal Kim Kataguiri (DEM/SP) e pelo ex-apresentador do Flow Podcat, Bruno Monteiro Aiub, o Monark.

Comentário de Luiz Antônio Nascimento, sociólogo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam):

“O neonazismo é uma das posições mais nefastas que um ser humano pode defender. Porque o neonazismo defende a eliminação dos outros, dos que são diferentes dele. A eliminação não foi só dos judeus, foi do negros, homossexuais, ciganos. Quando dizemos não ao neonazismo é dizer sim à proteção das pessoas pelo o que elas são, pela diferença delas.

Há uma tentativa miserável, porque não está baseada na história, de associar, por exemplo, os comunistas e os nazistas. As pessoas precisam entender que na história quem enfrentou e destruiu os nazistas foram os comunistas. Quem liberou a Europa do nazifascismo foram os comunistas russos. Isso a gente não pode ignorar sob pena de a gente achar que está tudo bem.

Em nenhum lugar do mundo, o partido comunista defende a eliminação do outro. Já os nazistas defendem a eliminação do outro: dos negros, pobres, gays e indígenas.

Esse fenômeno neonazista é espalhado pelo mundo todo. Eles são articulados e no Brasil quem assumiu a tarefa de garantir a execução desse projeto é o presidente da República e os seus filhos sob a governança intelectual do Olavo de Carvalho, que morreu há duas semanas.”

Análise de Marcelo Seráfico, professor do departamento de Ciências Sociais da Ufam

“A existência desses grupos neonazistas e fascistas não é novidade no Brasil. Isso é uma constante dentro da história da República, uma história já relativamente longa que vem desde a década de 30 e, portanto, não há novidade deste ponto de vista. A novidade é que mais recentemente, aí um fenômeno mais mundial, esses grupos que estou fazendo referência, conseguiram transformar essa convicções, crenças e postulados em pautas públicas.

Esses grupos trouxeram de volta para o debate político as suas teses e agora chegam a esse ponto de defender a possibilidade de organização política formal, portanto dentro da estrutura do Estado Democrático de Direito. A defesa dessas teses nazistas por grupos da sociedade civil é uma coisa mundial.

Agora ainda é necessário saber se existe uma defesa da organização político-partidária desses grupos. Nos lugares em que isso acontece a reação é muito forte. Por exemplo, na Alemanha, há uma reação muito forte e na França do mesmo jeito, ainda que esses grupos consigam, digamos assim, ocupar parte do cenário político partidário. O PSL no Brasil era um espaço político para manifestação de parte desse grupo. Não era que todo mundo do PSL era nazista ou fascista que não é assim que eles se apresentam, mas defendem esses ideiais.”

Comitê israelita repudia declarações

O presidente do Comitê Israelita do Amazonas (Ciam), David Vidal Israel, manifestou por meio de nota, repúdio às declarações em prol do nazismo.

“Condenamos veemente as suas palavras pois acreditamos que o mal não pode ser normalizado. O nazismo exterminou de forma industrial, cruel e desumana mais de seis milhões de judeus, ciganos, testemunhas de Jeová, deficientes e outras minorias consideradas por eles inferiores. Essa ideologia não pode em nenhuma hipótese ter a sua legalização defendida”, descreveu.

O presidente do Ciam destacou que os judeus vivem na Amazônia há mais de 200 anos e a convivência sempre foi pacífica e harmoniosa.

“Desfrutamos com todos os nossos irmãos nestas terras, sejam eles católicos, mulçulmanos, evangélicos, de religião de matriz africana ou indígenas. Ao longo deste tempo sempre respeitamos e fomos respeitados”, disse.

Davi Israel ressaltou que a liberdade de expressão é limitada e termina quando pessoas, movimentos, partidos ou governos pregam gratuitamente a intolerância e ódio contra qualquer grupo ou minoria.

“A defesa do nazismo deve ser considerada imoral, criminosa, no caso do Brasil e de muitos outros países do mundo. A formação de um partido nazista é ilegal e, portanto, qualquer um que defenda essa ideia deve ser considerado fora da lei, responsabilizado e punido de forma rigorosa, e claro dentro do processo legal”, finalizou o presidente.