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A Crítica
Manaus

Em três anos, rede pública hospitalar registrou 32.127 motociclistas acidentados

Na primeira reportagem da série Manaus sobre Duas Rodas, dados da SES-AM retratam o dia a dia perigoso do trânsito na capital que mais produz motocicletas no Brasil; educação pode ser a saída

Publicado em 29/07/2023 às 13h59
Em três anos, rede pública hospitalar registrou 32.127 motociclistas acidentados
Foto: Márcio Silva

Em março deste ano, o motoboy Marco Antônio Mariano, 32, voltava para casa depois de um longo dia de expediente, quando passou em um cruzamento no bairro Planalto, zona Centro-Oeste. Ele aguardou o semáforo indicar a passagem e converteu a curva para adentrar à via. Porém, o condutor de um carro, que estava em alta velocidade, ignorou o sinal vermelho e colidiu contra o motociclista.

Foram dois meses de internação e múltiplas fraturas espalhadas pelo corpo. Nas fotos no hospital, as hastes de ferro na perna esquerda mostram a gravidade do acidente. Agora, para se locomover enquanto se recupera, Marco precisa do auxílio da cadeira de rodas ou de muletas.


Marco Antônio ficou internado por dois meses com múltiplas fraturas espalhadas pelo corpo. (Divulgação)

 

Mesmo após a liberação médica, ele está ciente de que precisará usar prótese para compensar a perda óssea da tíbia e da fíbia. As marcas da colisão, no entanto, vão além das cicatrizes espalhadas pelo corpo.

Sequelas físicas e psicológicas

“Eu me isolei de amigos e da família. Ainda estou tratando a depressão depois do acidente, com uma psicóloga. Ela disse que eu tive um trauma por conta da ‘batida’. À noite eu ainda acordo assustado quando penso no som do carro freando”, conta o motoboy que desde o acidente perdeu cerca de 20 quilos por conta dos problemas psicológicos.


Marco Antônio voltava para casa depois de um longo dia de expediente, quando o condutor de um carro, que estava em alta velocidade, ignorou o sinal vermelho e colidiu contra o motociclista. (Márcio Silva)

 

Marco Antônio é um dos pacientes registrados pelo Hospital-Pronto Socorro 28 de Agosto. Os números retratam o tamanho do problema. Nos primeiros seis meses do ano, 1.723 pessoas vítimas de acidentes de trânsito com motocicletas deram entrada na unidade hospitalar. Destas, 57 pessoas precisaram de internação. 

Em toda a rede pública, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), calcula que entre 2020 e 2023 foram 32.127 vítimas de acidentes envolvendo motocicletas. 

Em pleno ano de pico da Covid-19

As principais unidades hospitalares do estado registraram 8.852 pacientes atendidos. Em 2021 esse número subiu para 9.885 pacientes, mas no ano seguinte reduziu para 8.063. Neste ano, somente até o dia 25 de julho, o número chega a 5.327 pacientes, mostrando a tendência de alta. 

O Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (Immu) também demonstra preocupação com a quantidade de acidentes fatais com motocicletas. De janeiro ao dia 25 de julho de 2023, 64 pessoas morreram em sinistros envolvendo esse tipo de veículo, número 25% maior do que no mesmo período do ano anterior, quando 48 pessoas tinham perdido a vida.

Instrutor ressignifica perda do filho em acidente

A vivência nos atendimentos aos acidentados nas emergências de hospitais da capital amazonense foi um dos fatores que influenciaram o instrutor de trânsito, criador do curso de aperfeiçoamento para motoristas do Habilita Fácil, Raimundo Marques, a repassar conhecimento sobre direção.


Raimundo Marques criou o curso de aperfeiçoamento para motoristas do Habilita Fácil (Márcio Silva)

 

Ele, que atuou como técnico em enfermagem e chegou a ser mototaxista quando a profissão sequer era regularizada, perdeu um filho em um acidente de motocicleta. 

Excesso de velocidade, manobras arriscadas, uso de álcool são alguns fatores que para ele influenciam para o trânsito violento de Manaus. O instrutor, porém, enfatiza que a educação é de fundamental importância para que condutores em duas ou mais rodas e até pedestres possam conviver em harmonia. 

“As pessoas a princípio não se atentam para buscar o conhecimento e as consequências, ou seja, ele vai  de qualquer jeito (para o trânsito). Ele tem uma motocicleta, ele sobe e vai, e na verdade isso aí não deveria ter no trânsito hoje. O que se deveria ter no trânsito hoje? Vou pro transição, o que eu preciso fazer? Estudar trânsito”, ressaltou professor Marques, como é conhecido, que reforça algumas regras para quem dirige sobre duas rodas. 

1. Condutores de motocicletas, motonetas, cliclomotores só deverão circular nas vias utilizando capacete, com viseira ou óculos protetor. 

2. Segurar o guidão com as duas mãos.

3. Usar vestuário de proteção como botas, calça com tecido grosso, blusa e luva. 

Marques finaliza a fala enfatizando que os condutores devem ter responsabilidade por si e pelos demais, mas é essencial não colocar a vida nas mãos de outras pessoas e ser prudente. Na avaliação dele, o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) sempre vai precisar de atualizações, no entanto, com as regras atuais é totalmente possível construir um trânsito mais seguro. 


(Márcio Silva)

 

“O Brasil tem muita lei e pouca prática. Então, eu acredito que hoje, se nós pudéssemos fazer uso do que já temos, diminuiria muito a questão dos acidentes, porque é uma questão de consciência pessoal. Quando perdi meu filho no trânsito, eu passei a ter mais cuidado com isso. Eu passei a ver mais como fazer para diminuir.  Eu já dei aula para pessoas sem cobrar só que ela precisava entender como dirigir com segurança”, declarou Marques. 

Responsabilidade para conduzir com segurança

O gerente da controladoria de trânsito do Departamento de Trânsito do Amazonas (Detran-AM), Wendell Dantas Marques, concorda que a imprudência é a principal vilã do trânsito. Segundo ele, embora a habilitação na categoria A deixe a pessoa apta a conduzir uma motocicleta, é preciso que o próprio motociclista e a sociedade tenha responsabilidade para um tráfego mais seguro.

Além disso, ele lembra que o próprio Detran-AM oferta cursos de aperfeiçoamento para condutores, alguns de forma gratuita. Wendell reforça a necessidade de uso dos equipamentos de segurança como o capacete para quem conduz e para o carona, a atenção ao limite de passageiros de duas pessoas, manobras perigosas, respeito ao limite de velocidade e não uso do corredor pelos motociclistas quando os demais veículos estiverem em movimento.

“Não podemos dizer que o motociclista é o vilão no trânsito. Ele faz parte do trânsito como todos nós. Nós estamos no trânsito diariamente, então essa responsabilidade no trânsito é compartilhada entre os órgãos de trânsito, pedestres, condutores, motociclistas. Porém, o motociclista precisa ter consciência de que ele é uma parte frágil no trânsito. A partir do momento que nós, motociclistas, utilizarmos de maneira defensiva a nossa motocicleta esse número alarmante vai diminuir”, assegura o gerente.

Honda promove educação para o trânsito

Uma das saídas para promover um trânsito mais harmonioso, segundo o coordenador do Centro Educacional de Trânsito Honda (CETH), Marcos Frazão, é o aprimoramento da pilotagem de motociclistas e a educação no trânsito. Situações corriqueiras do dia a dia podem ser corrigidas com um conhecimento mais aprofundado sobre a condução das motocicletas. 

Pensando nisso, a Moto Honda da Amazônia – empresa situada no Polo Industrial de Manaus – há 13 anos criou CETH. No complexo de treinamentos, motociclistas profissionais e não profissionais, instituições públicas e privadas e alunos da rede pública e privada de ensino têm acesso a aulas práticas e teóricas que promovem a conscientização e direção defensiva. Em pistas que simulam direntes vias, professores especialistas na condução dos veículos de duas rodas mostram como o condutor pode previnir acidentes. 

“A autoescola capacita o futuro habilitado às condições de transito para tirar a habilitação. Eles vão treinar um pouco de habilitação, um pouco de habilidade com a motocicleta, mas as técnicas de pilotagem são aprofundadas aqui. A forma correta de sentar numa motocicleta, a forma correta de alcançar os comandos da motocicleta, a forma correta de fazer uma manobra de curva, a aceleração, a desaceleração e tudo isso é o pacote de instruções que é o conjunto de pilotagem”, afirma o coordenador do Centro.

Frota de motos cresceu nos últimos anos

A frota de motocicletas cresceu cerca de 25% nos últimos 5 anos. Em fevereiro de 2019, ano pré-pandemia, eram 201.156 motocicletas registradas em Manaus, número que passou para 270.306 veículos no mesmo mês em 2023, último dado registrado no portal Siga Amazonas. O número equivale a 13% da população manauara, estimada em 2.063.547 pessoas, segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


Entre os anos de 2013 e 2022, o número de motocicletas em Manaus quase dobrou, passando de 170.880 para 325.685. (Márcio Silva)

 

A capital é ainda detentora de um dos maiores polos de Duas Rodas do mundo. A projeção da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), é de que 1.560.000 unidades devem ser fabricadas na Zona Franca de Manaus (ZFM) até o fim de 2023, a melhor marca desde 2014. 

Um levantamento da Abraciclo aponta o Amazonas como o segundo estado que mais habilitou condutores na categoria A. Entre os anos de 2013 e 2022, o número quase dobrou, passando de 170.880 para 325.685. 

O Amazonas, segundo o gerente da controladoria de trânsito do Detran-AM, é o estado que mais emplaca veículos mensalmente no Brasil, com uma média de 5 mil veículos novos registrados no Detran-AM. Deste total, em torno de 95% são veículos registrados em Manaus.

“Algumas pessoas estão migrando, saindo dos seus veículos de quatro rodas e adquirindo uma motocicleta. Temos o maior polo industrial de duas rodas do país e isso faz com que a facilidade de adquirir esse veículo, o parcelamento e até mesmo a facilidade de condução e mobilidade, faz com que as pessoas passem a conduzir motocicletas”, disse Wendell.