Expedição revela impacto da seca histórica e da moratória da piracatinga em botos do Amazonas
Levantamentos feitos pelos cientistas da ONG Sea Shepherd Brasil e do Inpa servem como estimativa em estudos que buscam responder algumas perguntas sobre a saúde dos botos
O barco de pesquisa segue lentamente a 10 quilômetros por hora. Um grupo de cientistas vai na proa e o outro segue na popa, enquanto o restante se divide na análise dos cenários da saúde populacional dos botos no andar debaixo. Utilizando binóculos, eles acompanham as espécies ameaçadas de extinção: tucuxi e boto-cor-de-rosa (vermelho). Os que são avistados são logo catalogados.
Na última quinta-feira (5), a Sea Shepherd Brasil completou sua quinta expedição, que realizou um levantamento inédito de uma fração dos botos que passam pelo médio-Solimões e lagos no Amazonas, para servir como estimativa em estudos que buscam responder algumas perguntas, entre elas: como a seca histórica de 2023 atingiu as espécies, e se a moratória da piracatinga tem gerado os efeitos de preservação esperados.
Desta vez, foram avistados 642 botos vermelhos (boto cor-de-rosa) e 1804 tucuxis. O número se refere aos avistamentos catalogados e não pode ser considerado a população total.
“Se eles [botos] desaparecem da bacia amazônica, desaparecem do mundo”, é o que costuma falar a professora Dra. Vera da Silva, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e uma das principais referências em estudos sobre o cenário dos botos na Amazônia.
Desde 2021, a equipe da Sea Shepherd Brasil realiza pesquisas de campo com o foco nas espécies Inia geoffrensis e Sotalia fluviatilis.
Equipe
Desta vez, a expedição contou com um total de 10 cientistas experientes em técnicas de monitoramento e outras investigações, incluindo a Dra. Sannie Brum, especialista em Ictio e pesca amazônica, e líder do Inpa na operação embarcada, além de uma tripulação total de 22 pessoas. O barco de pesquisa, onde os ambientalistas permaneceram por cerca de 3 semanas, percorreu mais de mil quilômetros pelos rios amazônicos, incluindo o Solimões, lagos Tefé e Coari, Manacapuru, Badajós, e na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

(Foto: Divulgação/Sea Shepherd)
Sabe-se que além da pesca ilegal, poluição e perda de habitat, a maior ameaça aos botos tem sido definitivamente sua morte para uso como isca na pesca de um peixe bagre chamado piracatinga. Mas, desta vez, as preocupações da expedição se estendem a uma nova ameaça que se apresenta com a intensificação das mudanças climáticas.

(Foto: Divulgação/Sea Shepherd)
A seca extrema
Pela primeira vez, os estudiosos puderam ler de maneira aprofundada os dois lagos onde ocorreu a crise climática de 2023, quando a Amazônia registrou uma seca extrema.
Em uma contagem do Instituto Mamirauá e da Universidade Federal do Amazonas – Campus Coari, a seca histórica matou milhares de peixes e cerca de 330 botos. 121 mortes no lago de Coari e 209 mortes no lago Tefé.
“Não significa que foi somente nesses lagos, essa ocorrência pode ter seguido em outros lagos no entorno”, explica Nathalie Gil.
No mesmo local onde ocorreram as mortes, a embarcação percorreu 137 km do lago Tefé, onde pôde identificar 124 botos, 99 tucuxis, cerca de 9 botos e 7 tucuxis a cada 10 km. Já no lago Coari, foram navegados 127,6 km, nos quais se avistaram 53 botos e 162 tucuxis, cerca de 4,15 botos e 13 tucuxis a cada 10 km. Uma fêmea tucuxi grávida foi encontrada morta.
Campanhas
A Sea Shepherd Brasil liderou campanhas contra a liberação da pesca, conseguindo uma vitória significativa: a permanência indefinida da moratória. A ONG coletou mais de 75 mil assinaturas em uma petição pelo fim da pesca da piracatinga. No entanto, a eficácia dessa medida permanece incerta devido à pesca ilegal persistente e à falta de fiscalização adequada, afirma a organização.
Ações humanas em botos
Segundo dados da Dra. Waleska Gravena, professora da UFAM de Coari, somente em Coari, 17 golfinhos de rio, ou 22% dos animais analisados, tiveram algum tipo de marcas de interação humana, desde perfurações com arpão, dilacerações ou marcas de redes. Com o nível dos lagos muito baixos, os animais estavam mais vulneráveis, enroscando-se facilmente em redes de pesca ou ainda sendo alvos da pesca ilegal. Esta realidade também se estendeu aos peixes-boi da região.
“Por 4 anos, estivemos focados em entender como o boto estava ameaçado pela ação humana, dentre outros fatores, principalmente pela caça do animal para ser usado como isca. Com a vitória da proibição permanente da pesca da piracatinga, vem também uma nova ameaça, talvez a mais fatal de todas: a morte dos animais por ações naturais, que serão cada vez mais frequentes, e também pela interação forçada com humanos em rios mais estreitos, devido à seca extrema”, destaca Nathalie Gil.
Além do monitoramento, a expedição também contou com pesquisa de microplásticos nos rios Amazônicos, uma parceria com a Universidade Federal do Pará, além de visitas de educação ambiental em comunidades locais, engajamento com municípios, e coleta de resíduos na cidade de Anori para logística reversa.