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A Crítica
Manaus

Fumaça em Manaus reduz vendas e afeta trabalhadores do lazer

Fotógrafos esportivos e comerciantes relatam queda no faturamento após queimadas afastarem frequentadores de parques e espaços públicos.

Publicado em 26/10/2026 às 13h52
Fumaça em Manaus reduz vendas e afeta trabalhadores do lazer
O fotógrafo esportivo Kassio Melo relata que profissionais do segmento chegaram a acumular perdas de até 50% no faturamento devido ao cancelamento de eventos e à redução do movimento em espaços públicos. F Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

Em 2026, durante um período de forte atuação do El Niño, o Amazonas enfrenta uma combinação de estiagem, queimadas e episódios recorrentes de fumaça. O fenômeno climático está entre os mais intensos registrados desde 1950 e tem contribuído para um cenário de calor, seca e maior risco de fogo na região.

Enquanto queimadas e incêndios avançam sobre diferentes áreas da floresta, uma ameaça silenciosa chega às cidades: a fumaça. Em Manaus, o céu encoberto, a redução da visibilidade e a piora na qualidade do ar alteram a rotina da população e também afetam quem depende da circulação de pessoas em espaços públicos.

À primeira vista, a fumaça parece atingir principalmente a saúde e a rotina dos amazonenses. Mas, para quem depende do movimento de corredores, ciclistas e frequentadores de parques e praças, cada alerta sobre a qualidade do ar representa menos clientes e menos dinheiro no fim do mês. Em meio ao problema, trabalhadores que encontraram no esporte e no lazer ao ar livre sua principal fonte de renda enfrentam um cenário de incerteza, marcado por cancelamentos, espaços vazios e faturamento em queda.

A fumaça das queimadas afetou a rotina de quem pratica atividades físicas ao ar livre em Manaus, afastando frequentadores de parques e espaços esportivos. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

FOTOGRAFIA ESPORTIVA AFETADA

A crise ambiental também impactou diretamente a fotografia esportiva. Há três anos tendo a atividade como fonte de renda exclusiva, o fotógrafo Kassio Melo, de 42 anos, relata que os profissionais do segmento acumularam perdas de até 50% no faturamento devido ao cancelamento de eventos e à diminuição da presença de atletas e frequentadores nos espaços públicos.

“O trabalho da fotografia esportiva foi bem impactado com isso, porque nós vivemos de captar as pessoas fazendo esporte e a grande maioria da população faz esporte em áreas abertas. As pessoas não vinham para correr, as faixas eram fechadas. Então, automaticamente, a gente perdia a oportunidade de fazer venda de fotos”, contou Kassio.

Com a fumaça encobrindo a capital e a qualidade do ar em níveis preocupantes, autoridades municipais e órgãos ambientais cancelaram eventos e atividades ao ar livre, além de fechar temporariamente espaços esportivos e faixas liberadas. Paralelamente, a população foi orientada a suspender a prática de exercícios físicos em áreas abertas.

Fotógrafos esportivos enfrentaram queda na procura por registros de atletas durante o período de piora da qualidade do ar em Manaus. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

FUMAÇA E QUALIDADE DO AR

A fumaça das queimadas está associada à presença de material particulado fino, como o PM2,5, que pode penetrar profundamente no sistema respiratório. Em outubro, dados oficiais registraram episódios de concentração de poluentes acima dos níveis recomendados para a saúde em Manaus.

No Passeio do Mindu, um dos principais espaços de lazer e prática esportiva da Zona Centro-Sul de Manaus, a barista Anne Gabrielly Ribeiro, de 19 anos, também sentiu os efeitos da crise ambiental na rotina de trabalho. Funcionária de uma loja de smoothies, ela relata que o movimento de frequentadores caiu à medida que a fumaça se intensificou e afastou corredores, skatistas e usuários das quadras poliesportivas.

Anne Gabrielly Ribeiro relata que a fumaça chegou a provocar mal-estar entre funcionários e prejudicou o movimento de clientes na loja onde trabalha. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
“Nós sentimos bastante, querendo ou não. Como trabalhamos em um espaço aberto, passou a vir menos pessoas. Chegou num ponto em que a fumaça era tanta e a qualidade tão ruim que passamos a distribuir máscaras para os clientes e outras pessoas. Houveram dias que os funcionários passaram mal. Eu mesma fiquei, tendo de ficar um dia sem trabalhar”, detalhou Anne.
A barista Anne Gabrielly Ribeiro conta que o movimento na loja onde trabalha, no Passeio do Mindu, diminuiu com o avanço da fumaça, que afastou frequentadores do espaço. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

MENOS CLIENTES

Na Ponta Negra, um dos espaços públicos mais frequentados de Manaus e palco da Faixa Liberada às quartas-feiras e aos domingos, o empresário Caio Lobato, de 39 anos, sentiu os impactos da crise ambiental no próprio negócio. Com o cancelamento de eventos e atividades esportivas, a procura pelo aluguel de patinetes e triciclos caiu significativamente.

“Eu percebi que a fumaça prejudicou bastante, porque as pessoas evitavam sair de casa, seja para passear, seja para se exercitar. Deixaram inclusive de trazerem seus filhos para brincarem. Isso gera um impacto direto no nosso trabalho, com o aluguel de patinetes e triciclos. Houve uma queda brusca no número de aluguéis por dia”, revelou Caio.

O empresário Caio Lobato afirma que a fumaça e o cancelamento de atividades esportivas reduziram a procura pelo aluguel de patinetes e triciclos na Ponta Negra. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

SAÚDE EM PRIMEIRO LUGAR

Apesar da queda no faturamento e das dificuldades enfrentadas durante os períodos mais críticos da fumaça, trabalhadores e empreendedores compreendem a necessidade das restrições impostas pelas autoridades. Para eles, o cancelamento de eventos, a suspensão de atividades esportivas e as recomendações para evitar exercícios ao ar livre representam medidas essenciais para proteger a saúde da população.

“Quanto a essa medida da restrição, acredito que seja ideal porque realmente prejudica muito a saúde das crianças e das pessoas. A gente está aqui porque realmente dependemos do nosso trabalho, mas vejo como correta a restrição. E aí agora com as chuvas, vai começar a melhorar e vamos voltar a ter a nossa vida normal de novo”, assegurou o empresário Caio Lobato.

O cancelamento de eventos e a redução da circulação de pessoas afetaram o aluguel de patinetes e outros brinquedos elétricos na Ponta Negra, em Manaus. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

À medida que a fumaça perde intensidade e os indicadores de qualidade do ar apresentam melhora, os espaços públicos de Manaus voltam a registrar maior circulação de pessoas. O cenário tem contribuído para uma recuperação gradual das atividades ligadas ao esporte e ao lazer.

“Sinto que nossa situação amenizou bastante. Lembro que quando eu acordava, eu sentia o cheiro da fumaça dentro do meu quarto e nesses últimos dias eu não estou sentindo mais. Aqui na loja, antes nós fazíamos até 25 vendas. Hoje o número está baixo, mas com a qualidade do ar melhorando, as pessoas estão começando a vir de volta”, assegurou Anne Gabrielly.

Apesar dos prejuízos acumulados durante os períodos mais críticos da crise ambiental, a percepção entre os trabalhadores é de que o pior ficou para trás. Aos poucos, parques, praças e espaços esportivos voltam a receber frequentadores, alimentando a esperança de retomada econômica para quem viu a renda diminuir em meio à fumaça que encobriu Manaus.

“Boa parte das vendas foi bem afetada em relação a isso, mas a população fez o correto de se isolar, porque até nós mesmos, no trabalho ou na rua, sentimos a fumaça, respirava e vinha aquele incômodo. Houve alguns momentos que não saímos para fotografar e o correto mesmo é se resguardar. Hoje nós estamos vendo o retorno das faixas, a expectativa é boa e a gente vai voltar a vender novamente”, finalizou Kassio Melo.


PONTOS — A fumaça chega, a rotina muda

Ar péssimo

Manaus chegou a registrar 200 µg/m³ de PM2,5 em 8 de outubro. Acima de 125 µg/m³, a concentração é classificada como “péssima” na escala de qualidade do ar. Agência Brasil.

99 µg/m³ em um dia

Em 8 de outubro, a média diária de PM2,5 registrada pela estação da Fiocruz em Manaus chegou a 99 µg/m³, mais de seis vezes o valor diário de 15 µg/m³ recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Serviços e Informações do Brasil.

+10,5% nos atendimentos

A rede municipal registrou 5.452 atendimentos por doenças respiratórias em setembro, contra 4.934 em agosto. A Semsa, porém, não atribui diretamente o aumento à exposição à fumaça. CNN Brasil.

3.240 focos no Amazonas

Entre 1º e 22 de setembro, foram registrados 3.240 focos de calor no Estado, contra 942 no mesmo período de 2025, segundo dados do Inpe reunidos pelo MPC-AM.

O que isso significa?

Além dos efeitos sobre a saúde, a piora da qualidade do ar reduz a circulação de pessoas em parques, praças e espaços esportivos — justamente onde trabalham os personagens desta reportagem.