Larvas de insetos e mandioca viram ração sustentável e barata
Alimentação tem potencial para produção industrial em larga escala e vai ser apresentada em um seminário internacional
Cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) criaram uma ração com base na mandioca e larvas de insetos para impulsionar a rede de piscicultura familiar em toda a região amazônica. Mais sustentável e barata, a alimentação tem potencial para produção industrial em larga escala e vai ser apresentada em um seminário internacional, em maio, com a participação de países que dividem a Amazônia.
A olho nu, a ‘Ração Amazônica’ parece uma alimentação para peixes convencional, já que fisicamente é bem semelhante a ração normal, mas o segredo dela está na composição. Criada pelo Inpa, a ração é rica em carboidratos e proteínas, mas a origem é diferente do farelo de soja ou da farinha de animais. A matéria-prima é amazônica, vem da cadeia da mandioca e de larvas de insetos.

Uso de larvas e mandioca, além de nutritiva, torna a produção da ração mais sustentável (Foto: Junio Matos/A Crítica)
“Nós apostamos muito nos resíduos da cadeia produtiva da mandioca como a casca, a crueira e a folha. Além de ser fonte de carboidratos, também serve como uma espécie de cola para a proteína que vem dos insetos”, explicou a coordenadora da pesquisa, Dra. Ligia Uribe
O alimento foi desenvolvido ao longo de três anos e está em estágio final. Foi criado para baratear a impulsionar a cadeia de produção da piscicultura familiar, substituindo as rações convencionais, em especial na criação de tambaqui.
De acordo com levantamentos do Inpa, no Amazonas, cerca de 90% da cadeia de produção de peixes é da produção familiar, o que significa que são pequenos empreendimentos com baixas margens de investimento.
“Em qualquer criação animal os custos com alimentação chegam a 70% do valor que é gasto para manter a produção. É um custo muito elevado e que fica mais alto por causa das rações que são produzidas fora do estado e vendidas aqui dentro. A nossa ideia é mudar esse cenário” disse a pesquisadora.
Rede peixe Caboclo
O projeto também conta com parecia de outras instituições dentro do que é chamado de “Rede peixe Caboclo”. A Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o Instituto Federal do Amazonas (Ifam), a Secretaria de Produção Rural (Sepror), a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) fazem parte como entidades de apoio.
O grande desafio que todos estes órgãos encaram juntos com o Inpa é desenvolver a produção da ração em larga escala pelo interior amazonense.
“Temos uma fábrica de ração aqui no Inpa, mas estamos criando processos simples para que possamos levar essa tecnologia social para o interior do estado mesmo que a família de produtores não tenha uma maquina robusta para fabricar o alimento para o peixe”, explicou a coordenadora.
A pesquisa ainda não identificou um valor exato de economia na comparação entre a “ração amazônica” e as rações já utilizadas, mas a Dra. Ligia Uribe defende que o ganho econômico será no processo de produção, já que a matéria-prima é simples e disponível em grande quantidade na região amazônica.
Por outro lado, os benefícios sociais e ambientais são bem visíveis e com grandes potenciais.
“O impacto positivo para o meio ambiente é enorme porque a gente cria a ração com base no reaproveitamento de resíduos, ou seja, reciclamos esse material”, explicou Dra. Ligia Uribe.
Ela acrescentou, também, que é muito importante para o lado social porque existem muitas famílias que não têm condição de pagar por rações e têm na piscicultura a sua subsistência, tornando a atividade acessível.
Seminário reúne especialistas da Amazônia
A ração e a “Rede Peixe Caboclo” serão itens apresentados no primeiro Seminário Internacional de Uso Sustentável e Tecnologias Alimentares para a Piscicultura Familiar na Amazônia (Sustenta).
O evento vai acontecer nos dias 28, 29 e 30 de maio, com especialistas da Amazônia brasileira, peruana, colombiana e boliviana para discutir inovações e soluções sustentáveis para a piscicultura.
“Convidamos os países que mais se interessam no tema e também que podem contribuir para que tenhamos uma difusão maior dessa tecnologia e que isso acabe atingindo também mais pessoas. Queremos beneficiar toda a produção familiar na região amazônica porque são pessoas que precisam de mais facilidade e acessibilidade pra atuarem” disse a pesquisadora.