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A Crítica
Manaus

Manaus: Identidade perdida no tempo

Artistas, escritores e gestores refletem sobre os caminhos da capital e os desafios de projetar uma cidade que una modernidade e pertencimento na grande metrópole da região Norte

Publicado em 24/10/2025 às 10h55
Manaus: Identidade perdida no tempo
Foto: Divulgação

A cidade que cresceu entre o rio e o concreto tenta equilibrar o ritmo acelerado de uma metrópole com o pertencimento à floresta e às suas origens. O retrato urbano é o de uma cidade de mais de dois milhões de habitantes, onde o crescimento desordenado se impõe sobre a paisagem natural e as memórias históricas convivem com os desafios da desigualdade. Manaus é, ao mesmo tempo, a vitrine da Amazônia e o espelho de suas fragilidades.

O que se desenha, nas vozes das personalidades locais, é o retrato de uma cidade que tenta se equilibrar entre a promessa de futuro, as lembranças do que foi o passado e os desafios do presente.

O escritor imortal da Academia Brasileira de Letras, Milton Hatoum, vem registrando há décadas a perda da identidade manauara, que marcou quem viveu a década de 1960. Entre praças, cinemas, teatros e balneários, a cidade era um vislumbre do que poderia vir a ser. A Manaus que embala obras como “Cinzas do Norte” e “Dois Irmãos”, porém, perde-se no tempo por falta de comprometimento da classe política com um projeto real para a capital, como avalia Hatoum.

“Eu andava pela cidade toda. Gostava, por exemplo, dos cinemas. Tinha oito ou dez cinemas, alguns maravilhosos. Os jovens, infelizmente, não vão mais saber o que é isso. Eram cinemas lindos, como o Odeon, o Guarani, o Éden. E as praças de Manaus eram muito agradáveis. Quer dizer, a própria arquitetura da cidade – que depois, em parte, desapareceu – era muito bonita. Digo isso não com um sentimento nostálgico. Eu estou dizendo que podia ter dado certo, e não deu. E não deu por falta de planejamento, faltou política pública que contemplasse toda a população”, analisou o escritor.

Transformar e crescer

Hatoum lamenta que as transformações urbanas nem sempre respeitaram o tecido histórico e humano. Ele lembra que o crescimento acelerado e as políticas de modernização resultaram na perda de boa parte do patrimônio arquitetônico e ambiental da cidade, com casarões demolidos, rios canalizados e bairros descaracterizados. Para ele, isso tudo afastou a memória dos próprios moradores. “Quando a cidade perde a memória, perde também o senso de pertencimento.”

O escritor defende que as transformações urbanas devem caminhar junto com políticas de inclusão, cultura e educação. “Sem isso, o progresso será apenas aparência. A cidade precisa se lembrar de quem a construiu, de quem vive nela. Esse é o verdadeiro desenvolvimento.”

Artistas, que retratam Manaus com olhar crítico e sensível, veem no crescimento urbano um reflexo de uma cidade que ainda não se reconheceu completamente. Para a cantora, compositora e produtora cultural, Márcia Novo, o maior patrimônio da capital é o seu povo que luta para mantê-la viva. Ela e outros artistas locais tem feito campanhas para alavancar símbolos manauaras como a música de beiradão, a exemplo do que houve nas décadas passadas com o fortalecimento cultura de Belém do Pará.

Ela acredita que a cidade carrega uma potência criativa capaz de transformar a realidade, mas critica a lógica de políticas descontínuas, que se perdem a cada troca de gestão. Para Márcia, Manaus carece de continuidade e incentivo.

“Temos artistas, coletivos e movimentos fortes. O que falta é investimento constante e políticas culturais que reconheçam o papel da cultura na economia e na identidade da cidade. A cultura é vista como evento, quando deveria ser política pública. As pessoas querem e precisam de espaços permanentes de criação e fruição. A cidade tem sede de arte”, enfatizou a multiartista.

Caos e beleza

O ator, diretor e roteirista Adanilo ganhou as telas mostrando a cultura de Manaus para o mundo e enxerga a cidade como um espaço em construção permanente. Nascido e criado na capital – morador orgulhoso do bairro Compensa, zona Oeste -, ele traduz essa dualidade entre caos e beleza em suas obras.

“Manaus é feita de improviso. É uma cidade que cresce empurrada, que inventa soluções no dia a dia. E, apesar de tudo, é daqui que surgem as ideias mais potentes. Durante muito tempo, o olhar sobre nós foi de fora, o olhar da Amazônia exótica, da floresta distante. quem vive aqui sabe que existe uma cidade pulsante, com gente criativa, empreendedora e diversa. Falta a Manaus se reconhecer”, indicou.

Para Adanilo, o futuro da cidade depende de uma reconciliação entre o moderno e o ancestral, defendendo que o conceito de cidade inteligente precisa ir além da tecnologia e incluir a dimensão humana.

“Temos uma base cultural imensa, indígena, ribeirinha, afro, nordestina. Isso precisa estar nas nossas ruas, nas nossas escolas e nas nossas políticas. O desenvolvimento não pode vir como apagamento. O digital pode melhorar a vida, mas não substitui o afeto. Precisamos pensar em uma Manaus mais verde, mais acolhedora, que respeite o tempo das pessoas”, concluiu o ator.

‘Manaus merece o nosso melhor’

Para o prefeito David Almeida (Avante), Manaus é mais do que a cidade onde nasceu, é seu “sacerdócio”. Nascido em uma geração que cresceu brincando às margens do rio Negro e jogando bola nas áreas hoje tomadas pelo asfalto, o gestor fala com nostalgia e orgulho da capital que acolheu seus pais e avós.


David Almeida, Prefeito de Manaus (Foto: Divulgação)

Para ele, administrar Manaus é uma missão de vida, marcada por desafios inéditos e por uma entrega pessoal que ultrapassa a rotina política. O prefeito lembra que encontrou a cidade em um dos momentos mais difíceis de sua história recente: a pandemia. Apesar das adversidades, ele afirma que Manaus chega a 2025 com motivos para comemorar.

A gestão celebra conquistas em diversas áreas. Os avanços, no entanto, convivem com entraves antigos. Almeida reconhece que o maior desafio está na mobilidade urbana e na distribuição desigual dos recursos públicos. Ele critica o modelo tributário nacional que, segundo ele, penaliza o município. Mesmo diante dessas limitações, a prefeitura segue apostando em obras estruturais e em projetos sociais de longo alcance.

“Ainda esse ano nós temos a ordem de serviço da Cidade do Autista, o Hospital Municipal que está na fase final de contratação da empresa, o Aquário Municipal. Nós temos agora o primeiro aterro sanitário da história da cidade de Manaus. Estamos lutando para que Manaus saia do quinto lugar para o primeiro lugar em educação básica. Nós estamos buscando fazer dessa cidade um dos melhores lugares do Brasil para se viver e não a falta de recursos que vai nos impedir. Nós estamos trabalhando, dando o nosso melhor, porque Manaus merece o nosso melhor”, garantiu David.