Márcia Perales: ‘A ciência tem que melhorar a vida das pessoas’
Para falar sobre a importância e os desafios de investimento em ciência no Amazonas, A CRÍTICA entrevistou a diretora-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
Um levantamento divulgado durante o Fórum do Conselho Nacional das Fundações de Amparo à Pesquisa (Confap), no fim de março, mostrou que o Amazonas é o estado que mais investiu na formação de mestres e doutores.
Para falar sobre o que representa essa posição, a importância da ciência e desafios a serem vencidos, A CRÍTICA entrevistou a diretora-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam), Márcia Perales. Confira abaixo.
Perfil
Nome: Márcia Perales Mendes Silva
Estudos: Serviço Social (Ufam), mestrado em Serviço Social (PUC-SP), doutorado em Serviço Social (PUC-SP) e pós-doutorado em Politica Social (UNB)
Experiência: diretora-presidente da Fapeam. Foi também reitora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), de 2009 a 2017.
Um levantamento divulgado durante o Fórum do Conselho Nacional das Fundações de Amparo à Pesquisa (Confap) apontou o Amazonas como primeiro lugar entre os estados que mais investem na formação de mestres e doutores. Esse destaque era uma meta por parte da Fapeam?
Nós temos no Plano Plurianual do Estado para 2023 uma linha específica, um programa estruturante chamado Ciência, Tecnologia e Inovação. Vinculado a esse programa, temos as linhas de atuação da Fapeam, que estão sempre em consonância com a agenda 2030, com os objetivos do desenvolvimento sustentável. E uma das coisas muito importantes, colocadas lá, é a importância da formação técnico-científica e sua instalação no estado para ajudar, contribuir com o nosso desenvolvimento econômico, social e ambiental. Então, isso faz parte de uma política pública. Em 2019, o governador Wilson Lima reposicionou a área de CT&I, colocando essa área como estruturante, estratégica e fundamental para o desenvolvimento do Amazonas.
Junto com isso, vieram algumas condições. A política pública tem que ter financiamento e foi uma das coisas que o governo assegurou no último quadriênio. Nesse financiamento, já que a formação de recursos humanos altamente qualificados é tão importante para o desenvolvimento de um estado, nós priorizamos, dentre um conjunto de ações, a formação de pesquisadores em âmbito de mestrado e doutorado. E isso fez com que nós financiássemos bolsas, mas não só isso. Junto a esses programas de pós-graduação, hoje são 78 cursos stricto sensu, é onde atuamos.
Para onde esses investimentos são direcionados e como pesquisadores podem se candidatar para receber esses fomentos?
Nós temos formatos diferentes. Temos um programa de fluxo contínuo que se chama ‘Apoio às Instituições do Estado do Amazonas’. Nós temos editais para investir fortemente em pesquisa básica, mas também fortemente em pesquisa aplicada, que são as pesquisas de indução. Por exemplo, quero trabalhar na área de bioeconomia. Quando eu faço meu edital, eu seleciono aquela área como uma das prioritárias. No caso de fomento a bolsas e auxílio a mestrandos e doutorando, temos um acordo de cooperação com todas as instituições públicas de ensino e pesquisa. Nós temos esse acordo, temos critério de seleção.
Todos os cursos são públicos, primeiro é esse o critério. Segundo, que esses cursos tenham reconhecimento da agência que é reguladora e avaliadora em âmbito nacional, a Capes. Nós priorizamos os cursos de excelência. Cursos em consolidação ou recém-criados, nós damos um outro tratamento, tentando apoiar esse leque, porque aqui ainda temos muitos cursos de pós-graduação stricto sensu de notas 3 e 4. Eles precisam de um olhar especial. Isso faz com que estabeleçamos, no sistema de inovação, uma relação de parceria, de construção conjunta, para que nós possamos ter esse fortalecimento no Amazonas.
Pode citar exemplos de pesquisas que receberam esses investimentos nos últimos anos?
Eu prefiro não nomear, porque é como se estivesse priorizando alguma. Como apoiamos mais de 10 mil projetos entre 2019 e 2022, é um pouco complicado. Mas quando nós somos perguntados sobre como esses investimentos se desdobram na qualidade de vida da sociedade, nós [falamos que] construímos esse portfólio com os pesquisadores, lançado pelo governador, e é muito interessante, porque traz informações concretas. Qual foi o impacto de uma pesquisa em nível ambiental, científico, econômico, social, tecnológico. E essa é uma construção que foi feita, e isso está disponível na nossa página (fapeam.am.gov.br) não só para a comunidade científica, mas para qualquer cidadão, investidor.
Vários fóruns em que sou chamada para falar sobre CT&I no Amazonas, eles querem saber quais são as pesquisas do primeiro setor, na saúde. Tentamos trabalhar com todas as áreas do conhecimento, justamente para dar visibilidade a várias áreas. Nesse portfólio, temos um recorte dessas pesquisas. Tem quanto foi investido, quem participou, quem coordenou, qual era o objetivo, a metodologia, os resultados práticos do processo.
Como o estudo realizado por pesquisadores ligados à Fapeam pode contribuir para a formulação de políticas públicas?
Esse é um dos principais objetivos, porque, quando você elabora as políticas públicas nas diversas áreas, você precisa de informações detalhadas e confiáveis. Então, há essa relação direta. Há também uma relação, quando você avalia políticas públicas, nós lançamos um edital para isso, porque é um processo de investimento, desenvolvimento da pesquisa, resultados e avaliação da própria instituição na forma de disponibilizar esse recurso. Uma das coisas que mais nos deixa feliz é quando você disponibiliza um edital, por exemplo, startups para o SUS, voltadas para solucionar problemas na área de saúde.
O interior do Amazonas tem problemas específicos, como a dificuldade de internet, que podem influenciar desde a inscrição em editais até a própria pesquisa. Como a Fapeam se adapta a essa realidade para chegar até esses pesquisadores?
O PPA 2023 é um balizador, tem as linhas gerais do governo, com um olhar especial para o interior do estado. A gente não pode tratar de forma igual o que é diferente. O interior tem uma realidade muito distinta da capital. Então, a Fapeam precisa, antes de lançar o edital, ouvir, conhecer, ter um diagnóstico, um permanente diálogo com as instituições de pesquisa, e sempre investir em pesquisa básica. Isso nenhuma instituição de fomento deve deixar de fazer, porque ali é o nascedouro.
Mas nós precisamos também de algumas respostas que talvez a pesquisa básica não nos dê no período que gostaríamos. As pesquisas de indução, aplicadas, elas trazem essas respostas. Quando olhamos para o interior, pensamos que precisamos ter algumas ações específicas. Então, nós lançamos o programa de apoio ao interior na área de CT&I, o Painter. Depois, nós lançamos o Painter + e agora o Painter Infra. Então, talvez com isso, seja melhor a compreensão que não é simplesmente apoiar o pesquisador, mas criar uma infraestrutura de pesquisa nesses locais.
Nós alcançamos 62 municípios por meio da Fapeam e sempre foi uma orientação do governador, só que com formatos diferentes. Tenho também o programa Ciência na Escola e dividimos por mesorregião para que todas as escolas tenham a oportunidade e nesse projeto a Seduc e a Semed são nossos parceiros, para que o menino e a menina tenham a possibilidade de enxergar o mundo de outra forma.
A senhora citou a bioeconomia em respostas anteriores. Como a Fapeam, uma fundação de fomento no estado com a maior porção da floresta amazônica, trabalha para impulsionar essa temática?
A bieoconomia foi objetivo de editais para que os pesquisadores se sentissem incentivados a pesquisar nessa área. No portfólio que lançamos, temos vários resultados de produtos que estão na natureza sendo transformados e aperfeiçoados para melhorar a vida das pessoas. Alguns são patenteados, mas outros não. Na área de CT&I, para que se tenha pesquisas nessa área, você incentiva, disponibiliza recursos para que esses pesquisadores tenham o apoio necessário. Trabalhamos dessa forma e isso tem tido um entendimento muito bom por parte dos pesquisadores.
Do ponto de vista dos investimentos, quais os próximos passos da Fapeam? Há novos projetos em vista?
Tive uma reunião com pesquisadores e disse a eles que a Fapeam está completando 20 anos em maio, que é uma instituição consolidada, mas em franca expansão. Uma das coisas mais importantes numa fundação de amparo à pesquisa é a credibilidade. Ela tem que ser respeitada, confiável e tem que mostrar sua capacidade de gestão. Nós estamos trabalhando para fortalecer isso. Temos alguns programas clássicos, não fomos nós que criamos e queremos manter, porque são importantes, independente do período em que foram criados, como o Programa de Iniciação Científica, o Programa de Popularização da Ciência, que é um dos maiores desafios, fazer com que essas informações cheguem até a sociedade.
Mas nós precisamos avançar muito em relação a isso, porque normalmente se vincula a ciência à academia, mas aí você se pergunta, quem nunca entrou numa farmácia para comprar um remédio? Aquilo que está na prateleira é pesquisa. Ter acesso a outros resultados não só na área de saúde, na agricultura, por exemplo, é fundamental para que a gente avance em relação a essa crença na ciência. A ciência é a grande mola propulsora das transformações da sociedade, das transformações produtivas, tecnológicas, educacionais, e tem que ser trabalhada para melhorar a vida das pessoas, é um bem da humanidade.